México suspende importação de produtos avícolas do Brasil após Newcastle em SC

Restrição alcança carnes, miúdos, ovos férteis, pintinhos e outras aves; decisão atinge mercado que comprou mais de 244 mil toneladas de carne de frango brasileira em 2025

A confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma criação comercial de perus em Santa Catarina já provocou reflexos no comércio exterior brasileiro. O México decidiu suspender preventivamente a entrada de diferentes produtos avícolas procedentes do Brasil enquanto acompanha as medidas sanitárias adotadas para conter a ocorrência.

A decisão mexicana foi anunciada após a confirmação oficial do foco em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina. A medida alcança não apenas carne de aves, mas também miúdos, ovos férteis, pintinhos de até três dias, aves ornamentais, canoras, de rapina e animais de companhia provenientes do Brasil.

A restrição vale para operações comerciais e também para produtos levados por viajantes. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades mexicanas, os requisitos sanitários para a entrada dessas mercadorias foram suspensos como medida de proteção à avicultura local, já que o México mantém condição de país livre da doença de Newcastle.

Até o momento, não há prazo definido para o fim da restrição. A retomada deverá depender da evolução do controle sanitário no Brasil e das informações epidemiológicas apresentadas às autoridades mexicanas.

México é mercado relevante para o frango brasileiro

Embora o foco tenha sido registrado em perus de corte, a reação mexicana tem importância para toda a cadeia avícola brasileira porque a suspensão alcança também carne de frango.

Em 2025, o México foi o sétimo maior destino da carne de frango exportada pelo Brasil, com 244.391 toneladas, crescimento de aproximadamente 15% sobre as 212.533 toneladas registradas no ano anterior.

O volume representou 4,73% das exportações brasileiras de carne de frango naquele ano, segundo os dados do Relatório Anual da Associação Brasileira de Proteína Animal.

A presença brasileira no mercado mexicano cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram que os embarques de carne de frango ao país passaram de aproximadamente 103 mil toneladas em 2021 para 211 mil toneladas em 2024. Desde 2022, o Brasil também ganhou espaço entre os principais fornecedores externos do produto ao México.

Essa evolução faz com que uma suspensão sanitária tenha peso comercial relevante, embora ainda seja cedo para calcular o prejuízo econômico decorrente da nova restrição. O impacto dependerá principalmente do período em que o mercado permanecer fechado e de eventuais mudanças no alcance das medidas.

Foco atinge propriedade com aproximadamente 6 mil perus

O Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou oficialmente o foco em 18 de outubro de 2026, após investigação epidemiológica realizada pelo Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina.

A ocorrência foi registrada em uma propriedade de avicultura comercial de perus de corte em Nova Itaberaba. O estabelecimento possui aproximadamente 6 mil aves, que permaneceram na propriedade e, segundo o governo federal, não foram destinadas à produção de carne para consumo.

O diagnóstico foi confirmado pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal como laboratório de referência internacional para a doença.

Após a confirmação, a propriedade foi interditada e a movimentação das aves foi suspensa. O protocolo sanitário prevê a depopulação do plantel, seguida de limpeza, desinfecção e outras medidas necessárias para eliminar o foco.

A investigação também foi ampliada para propriedades da região. Segundo o Ministério, cerca de 133 estabelecimentos localizados em Nova Itaberaba e nos municípios vizinhos de Coronel Freitas, Nova Erechim e Águas Frias deverão passar por acompanhamento epidemiológico.

Por que há divergência sobre frangos e perus?

Parte das notícias divulgadas inicialmente no México descreveu o foco brasileiro como ocorrido em uma granja de frangos de corte.

A informação oficial brasileira, entretanto, é diferente. Tanto o Ministério da Agricultura quanto os órgãos sanitários de Santa Catarina identificam o estabelecimento atingido como uma criação comercial de perus de corte.

Por isso, a informação oficial brasileira é a adotada nesta reportagem.

A diferença não altera, porém, o alcance da decisão mexicana: a restrição comercial mexicana abrange diferentes produtos e espécies da cadeia avícola brasileira, e não exclusivamente carne de peru.

Consumo de carne e ovos inspecionados continua seguro

A doença de Newcastle é provocada por uma forma virulenta do paramixovírus aviário tipo 1 e apresenta elevada capacidade de transmissão entre aves.

Os sinais podem envolver alterações respiratórias, digestivas e neurológicas, além de queda na produção e mortalidade elevada em determinadas situações.

Apesar da preocupação sanitária para a produção avícola, o episódio não torna carne de aves e ovos inspecionados impróprios para consumo. O Ministério da Agricultura reforçou que produtos submetidos ao sistema oficial de inspeção continuam seguros.

A preocupação central das autoridades está na sanidade dos plantéis e no risco de disseminação do vírus entre aves, razão pela qual a identificação de um foco comercial desencadeia ações rigorosas de contenção e comunicação aos parceiros internacionais.

Avicultura brasileira vinha ampliando vendas ao exterior

A restrição mexicana acontece em um momento de crescimento das exportações brasileiras.

Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil embarcou 4,421 milhões de toneladas de carne de frango, crescimento de 14% em relação às 3,877 milhões de toneladas registradas no mesmo intervalo de 2025.

A receita avançou ainda mais: alcançou US$ 8,673 bilhões, alta de 21% na comparação anual, segundo levantamento da Associação Brasileira de Proteína Animal.

Somente em setembro, foram exportadas 500,3 mil toneladas, com receita de aproximadamente US$ 984,2 milhões.

Nesse cenário, o setor passa a acompanhar não apenas a duração da suspensão mexicana, mas também a reação dos demais compradores internacionais diante do foco em Santa Catarina.

O Brasil tem experiência recente com esse tipo de resposta comercial. Em 2025, após a confirmação de influenza aviária de alta patogenicidade em uma granja comercial no Rio Grande do Sul, o próprio México suspendeu temporariamente produtos avícolas brasileiros e posteriormente reduziu as restrições conforme recebeu informações sobre o controle da ocorrência.

Agora, o tempo necessário para controlar o foco de Newcastle e demonstrar novamente a segurança sanitária da produção será determinante para definir por quanto tempo o mercado mexicano permanecerá fechado e qual será o impacto efetivo sobre as exportações brasileiras.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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