Morre Itacir Picinin, pioneiro que ajudou a construir Sorriso e o agro de Mato Grosso

Produtor rural e empresário morreu aos 66 anos, em São Paulo, onde realizava tratamento de saúde; trajetória se confunde com a expansão de Sorriso, hoje um dos principais polos agrícolas do Brasil.

O agronegócio de Mato Grosso perdeu neste domingo, 4 de outubro, um de seus personagens históricos. Itacir José Picinin morreu aos 66 anos, em São Paulo, onde estava em tratamento de saúde, segundo informação confirmada pela Prefeitura de Sorriso. Reconhecido como um dos pioneiros do município, Picinin fez parte da geração de produtores e empreendedores que acompanhou a transformação do norte mato-grossense em uma das maiores regiões produtoras de grãos do mundo.

A dimensão de sua trajetória ultrapassa a atividade dentro da porteira. Ao longo das últimas décadas, Picinin esteve ligado à produção agropecuária, a empresas do setor e também a iniciativas de infraestrutura consideradas estratégicas para o escoamento da produção agrícola. Sua história acabou acompanhando o próprio crescimento de Sorriso, município que saiu de uma fronteira agrícola em formação para assumir posição central no mapa da produção brasileira.

A repercussão da morte levou a Prefeitura a decretar três dias de luto oficial, por meio do Decreto nº 1.638. Até a divulgação inicial do comunicado, ainda não haviam sido informados oficialmente o horário e o local do velório e do sepultamento.

Uma vida ligada à construção de Sorriso

A definição de Picinin como pioneiro não aparece apenas nas homenagens feitas após sua morte. A própria administração municipal o reconhece como um dos fundadores de Sorriso, reforçando a relação construída por ele com o desenvolvimento econômico e social da região.

Essa ligação ganhou uma homenagem institucional poucos meses antes de sua morte. Em 16 de junho de 2026, a Câmara Municipal aprovou o Decreto Legislativo nº 103/2026, concedendo a Itacir José Picinin o Título de Cidadão Sorrisense.

É um reconhecimento que ganha peso quando observado dentro da história recente de Mato Grosso. Municípios como Sorriso cresceram a partir da combinação de abertura de novas áreas agrícolas, empreendedorismo de produtores que migraram principalmente do Sul do país, investimento privado, desenvolvimento tecnológico e construção de infraestrutura para conectar as fazendas aos mercados consumidores e aos corredores de exportação.

Picinin esteve inserido justamente nessa geração.

Da produção rural à infraestrutura que sustenta o agro

Registros empresariais e institucionais ajudam a revelar uma característica importante de sua atuação: o envolvimento não ficou restrito à produção agrícola.

Picinin ocupou durante anos a presidência da Intervias Concessionária, responsável pela exploração de trechos das rodovias MT-242, MT-493 e MT-140 na região de Sorriso. Em abril deste ano, documentação publicada no Diário Oficial de Mato Grosso ainda o identificava como diretor-presidente da companhia.

Também participou da Associação dos Beneficiários da Rodovia da Integração Leste-Oeste, organização criada em torno de uma das questões mais sensíveis para quem produz no interior de Mato Grosso: a ligação das propriedades rurais com os corredores logísticos. Documentos da entidade mostram Picinin em posições de direção ao longo dos anos.

Esse aspecto ajuda a compreender sua importância além dos números de produção.

Em regiões agrícolas de grande escala, produzir soja, milho ou algodão é apenas uma parte da equação. A competitividade da fazenda depende de estradas, armazenagem e capacidade de transportar milhões de toneladas durante períodos relativamente curtos. Por isso, iniciativas voltadas à infraestrutura passaram a caminhar lado a lado com a expansão agrícola de Mato Grosso.

Picinin esteve diretamente envolvido nesse processo.

Um produtor inserido no coração agrícola de Mato Grosso

Registros da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão também relacionam Itacir José Picinin entre seus associados, ao lado de alguns dos principais produtores e grupos agrícolas do estado.

Outros registros empresariais apontam sua participação em negócios ligados diretamente à agropecuária, incluindo atividades de cultivo de soja, além de empreendimentos rurais em Mato Grosso e no Pará.

A atuação ocorreu justamente em uma região que se tornou símbolo da mudança estrutural da agricultura brasileira.

Sorriso consolidou-se nas últimas décadas como um dos maiores centros de produção agrícola do país. A escala alcançada atualmente seria difícil de imaginar nos primeiros anos da ocupação agrícola organizada da região, quando produtores enfrentavam distâncias enormes, pouca infraestrutura, estradas precárias e um mercado ainda em formação.

É nesse contexto que a trajetória dos pioneiros ganha relevância histórica.

Não se tratava apenas de plantar.

Era necessário abrir áreas, adaptar sistemas produtivos ao Cerrado, construir estruturas de armazenagem, organizar entidades de produtores, participar da implantação de estradas e estabelecer uma economia capaz de sustentar cidades inteiras ao redor da agricultura.

Agro presta homenagens

A morte provocou manifestações de pesar no setor.

A Girassol Agrícola destacou, em comunicado, a trajetória de trabalho, dedicação e contribuição de Picinin ao agronegócio brasileiro e afirmou que seu legado permanecerá na história do campo e na memória daqueles que conviveram com ele.

A manifestação se soma ao posicionamento da Prefeitura de Sorriso, que classificou Picinin como um homem de visão e destacou sua contribuição para o município.

Ao anunciar o luto oficial, a administração municipal ressaltou a gratidão pelo exemplo deixado pelo produtor e empresário.

A comoção tem relação justamente com a característica de municípios construídos junto com a expansão agrícola: parte da história das cidades se mistura à história das famílias que chegaram quando quase tudo ainda precisava ser feito.

A geração que transformou a fronteira agrícola

A morte de Itacir Picinin representa também a perda de um integrante de uma geração que participou de uma transformação econômica sem precedentes no Centro-Oeste.

Em poucas décadas, áreas do Cerrado consideradas de baixo potencial agrícola passaram a produzir volumes gigantescos de soja, milho, algodão e proteína animal. Tecnologia, correção de solos, melhoramento genético, mecanização e empreendedorismo transformaram Mato Grosso em uma potência do agronegócio mundial.

Mas essa transformação não ocorreu somente com máquinas e tecnologia.

Ela foi construída também por produtores que assumiram riscos quando a infraestrutura ainda era limitada e por lideranças locais que passaram a participar diretamente da organização das novas regiões agrícolas.

Picinin pertenceu a essa geração.

Sua atuação na agricultura, nos empreendimentos rurais e principalmente nas iniciativas voltadas à infraestrutura ajuda a explicar por que seu nome aparece ligado não apenas à produção, mas à própria formação econômica de Sorriso.

Um legado que permanece no campo

A Prefeitura de Sorriso resumiu o sentimento da cidade ao reconhecer oficialmente sua trajetória e decretar três dias de luto.

Itacir José Picinin deixa familiares, amigos, parceiros de negócios e uma história construída em uma das regiões que melhor representam a força do agronegócio brasileiro.

Mais do que a trajetória de um produtor ou empresário, sua história acompanha uma transformação muito maior: a ascensão de Sorriso de fronteira agrícola a um dos principais centros produtores do Brasil.

É justamente nessa ligação entre homem, campo e desenvolvimento regional que permanece seu legado.

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