Morre Lito Sousa, a voz que ensinou o Brasil a perder o medo de voar

Criador do Aviões e Músicas tinha 59 anos e enfrentava uma doença rara e degenerativa; em homenagem de despedida, esposa relembra sua trajetória e deixa uma mensagem emocionante: “Olhe para o céu como procuras um avião”.

A descoberta da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição rara, neurodegenerativa e de rápida progressão, mudou os últimos meses da vida de Lito Sousa e mobilizou familiares, amigos e seguidores em busca de tratamento. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, o criador do canal Aviões e Músicas morreu aos 59 anos, deixando uma trajetória marcada pelo entusiasmo com a aviação e pela capacidade de transformar o medo de voar em confiança. O falecimento foi comunicado pela esposa, Mila Seidl, nas redes sociais.

O diagnóstico havia sido anunciado publicamente pela família em agosto, após internações e uma investigação médica sobre a piora de seu quadro neurológico. Na ocasião, Mila relatou que o marido já apresentava perdas de movimento, mas mantinha a lucidez, e descreveu aquele período como a turbulência mais severa que haviam enfrentado.

Segundo o Ministério da Saúde, a DCJ é uma doença causada por alterações em proteínas chamadas príons, que provocam danos progressivos ao cérebro. A enfermidade pode comprometer a memória, o comportamento e os movimentos, com evolução muito mais rápida do que outras condições neurodegenerativas.

Uma vida dedicada aos aviões

Antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas da aviação na internet, Lito construiu uma carreira de mais de três décadas no setor, com passagens por empresas como Varig, Transbrasil e United Airlines. A experiência na manutenção de aeronaves forneceu a base para o trabalho que o aproximaria de milhões de pessoas.

No Aviões e Músicas, explicava o funcionamento dos aviões, os procedimentos de segurança, a manutenção e as turbulências em uma linguagem que o público conseguia compreender. Seu entusiasmo aparecia tanto nas explicações técnicas quanto na maneira de compartilhar a admiração por uma aeronave.

A saudação que abria seus vídeos se tornou parte dessa relação:

“Saudações aeronáuticas, tudo bem com vocês? Tudo bem.”

Na homenagem publicada nas redes sociais, Mila recorda que, durante mais de 15 anos, o público acompanhou aquela voz familiar. Segundo ela, dessa convivência nasceu uma comunidade que ultrapassou a relação entre um comunicador e seus seguidores.

“Juntos, construímos uma comunidade e criamos uma relação de amigos. Aquele amigo que ajuda o outro, que acolhe os medos e transforma em segurança.”

A despedida revela o homem por trás do canal

A mensagem de Mila apresenta também o Lito que existia longe das câmeras: pai de Malone, marido, filho, irmão e amigo. Ao recordar sua infância humilde no Rio Grande do Norte e o crescimento em Santos, ela descreve um menino que observava os navios, mas encontrou nos aviões possibilidades que nunca havia imaginado.

Uma das lembranças mais delicadas mostra Lito compartilhando com o filho a alegria de observar aeronaves próximas ao aeroporto de Guarulhos. O entusiasmo que mobilizava seus seguidores também estava presente nesses pequenos momentos em família. “Olha lá que legal, filho, avião, olha lá.”

Mila o descreve como um homem trabalhador, amigo leal e íntegro. Também relembra que a história do casal começou com seu próprio medo de voar — e com a disposição de Lito para ajudá-la. “Você, com toda a sua sabedoria, me deu mais do que um próximo destino, me deu um novo caminho pela imensidão do céu.”

Na despedida, ela recorda o início simples da vida a dois, as pizzas divididas no chão da sala e a construção dos projetos profissionais. Mas atribui ao filho Malone o maior significado dessa trajetória. “O nosso maior feito foi o nosso filho Malone, um sonho materializado em um amor inigualável.”

“Você nos ensinou a olhar para cima”

Ao longo da homenagem, Mila recorre à linguagem da aviação para expressar a dor da perda. Fala de chegadas, partidas e planos de voo que precisam ser reajustados, lembrando quantas dessas histórias fizeram parte do canal. “Mas nunca eu imaginei que um dia precisaríamos falar da sua partida.”

A mensagem é também um reconhecimento do legado de Lito: o conhecimento compartilhado, o acolhimento de quem tinha medo e a paixão que despertou em tantas pessoas. “Você deixou gente mais segura para seguir viagem.”

No encerramento, Mila imagina o que o marido lhe diria naquele momento. A frase final reúne a saudade da família e o céu que acompanhou toda a sua história. “Não chores pela minha partida. Olhe para o céu como procuras um avião. Ao olhar, eu vou estar lá.” – finalizou a mensagem.

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