“Não queremos nos tornar um Holandês”, diz presidente da ABCGIL sobre o futuro do Gir Leiteiro

Em entrevista ao CompreRural, Rodrigo Borges destaca recordes da Expogil, avanço da genômica e o desafio de levar a genética das grandes campeãs ao pequeno produtor sem abrir mão da rusticidade.

Produzir mais leite sem perder a capacidade de enfrentar o calor, caminhar no pasto e se adaptar aos sistemas de produção tropicais. Esse é o caminho defendido por Rodrigo Borges, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL), para o futuro da raça. “Não queremos nos tornar um Holandês. Nós queremos continuar sendo essa raça apta aos trópicos”, afirmou em entrevista a Marcio Peruchi, diretor do CompreRural, durante a programação da Expogil, em Uberaba (MG).

Criador em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, há quase 24 anos, Borges acompanha a transformação do Gir Leiteiro dentro e fora das pistas. À frente da associação na gestão 2025–2028, ele defende uma seleção que combine produtividade, estrutura e preservação das características do zebu.

Sua trajetória na entidade começou antes da presidência. Participante dos programas de melhoramento há cerca de 15 anos, foi eleito conselheiro diretivo em 2019 e ocupou a diretoria administrativa e financeira na gestão 2022–2025.

Para o dirigente, a evolução da raça ajuda a explicar tanto os resultados dos torneios leiteiros quanto a procura internacional pela genética selecionada no Brasil. A demanda chega à Índia, berço do Gir, que agora busca animais resultantes do trabalho brasileiro.

Expogil recorde e a importância da pista para quem produz leite

Borges classificou a 26ª Exposição Nacional do Gir Leiteiro como a maior da história. Segundo ele, o evento reuniu mais de 500 animais no Parque Fernando Costa, com 71 participantes no torneio leiteiro. Entre os destaques, citou o recorde na categoria fêmea jovem, com produção média diária de aproximadamente 64,4 quilos de leite. Para o presidente, os resultados refletem décadas de seleção e trabalho científico.

A exposição também marca o encerramento do ranking 2025–2026, composto por mais de 40 exposições pelo país. Nesse circuito, os animais são avaliados pela produção e por características como aprumos, força leiteira e estrutura corporal.

O impacto dessas avaliações, explica Borges, vai além das premiações. Os animais de destaque deixam descendentes que passam a integrar outros rebanhos, tanto de Gir Leiteiro quanto de Girolando, levando o melhoramento às propriedades comerciais.

Na avaliação do dirigente, as exposições representam o topo de um processo que começa nas fazendas, com seleção, controle de produção e acompanhamento das famílias. A identificação dos melhores exemplares orienta os criadores e ajuda a definir quais características serão multiplicadas.

A pista também tem relação direta com a funcionalidade. Bons aprumos, por exemplo, são importantes para animais que precisam caminhar até o pasto, buscar alimento e se deslocar diariamente até a ordenha.

Por isso, Borges defende que produção e morfologia sejam observadas em conjunto. Uma vaca produtiva precisa ter estrutura para sustentar seu desempenho nas condições em que será criada.

Nos cruzamentos com o Holandês, o dirigente destaca que a contribuição do Gir Leiteiro evoluiu. Além da rusticidade, os animais selecionados passaram a oferecer maior potencial de produção e melhorias em características como o úbere. “Hoje o Gir Leiteiro entra não só com a rusticidade natural do zebu, mas também entra nesse cruzamento já com muito leite”, afirmou.

Segundo Borges, essa mudança permite produzir um Girolando diferente daquele obtido décadas atrás. O componente zebuíno passou por seleção leiteira e ampliou sua contribuição para o desempenho das novas gerações.

O dirigente destaca o meio-sangue como um cruzamento de grande importância nesse processo. A combinação entre Gir Leiteiro e Holandês reúne características que favorecem a produção em diferentes ambientes e sistemas de manejo.

Para o pequeno produtor, ele associa o acesso à genética melhorada à possibilidade de elevar a produtividade e fortalecer a permanência na atividade. Em sua avaliação, o trabalho realizado nos rebanhos de seleção precisa se traduzir em resultados para quem vive da venda diária do leite.

Vaca Gir Leiteiro com bezerro ao pe
Foto: JCN Assessoria

Como a genética das vacas milionárias chega ao pequeno produtor

Os valores expressivos alcançados por algumas matrizes nos leilões levantam uma pergunta: como essa genética pode chegar a quem produz leite em menor escala?

Segundo Borges, a resposta está na multiplicação dos animais e na disseminação de seus descendentes. As grandes campeãs ocupam o topo da seleção, mas suas filhas, netas e bisnetas ampliam gradualmente a oferta genética.

Há criadores interessados em animais de pista, outros voltados aos torneios leiteiros e aqueles que buscam matrizes para produzir Gir ou Girolando comercial. Essa diversidade de objetivos, explica, cria diferentes oportunidades de acesso ao melhoramento.

A fertilização in vitro (FIV) acelerou esse processo. Conforme o dirigente, uma doadora com bom desempenho reprodutivo pode gerar de 20 a 30 filhas por ano, conforme suas condições e os resultados do programa de reprodução.

Com a técnica, embriões produzidos a partir de matrizes selecionadas são transferidos para receptoras. Essas fêmeas precisam apresentar condições adequadas para conduzir a gestação, enquanto a genética do bezerro vem da doadora e do touro utilizado.

Essa possibilidade também ajuda a explicar a valorização das grandes matrizes. Antes, a capacidade de multiplicação de uma vaca estava, em geral, limitada a um bezerro por ano. Com a FIV, aumentou sua participação na disseminação do melhoramento.

Borges lembra que o touro continua sendo fundamental, pois responde por metade da composição genética do descendente. O que mudou foi a capacidade de aproveitar de forma mais intensa as fêmeas superiores.

Mesmo com a reprodução assistida, porém, a oferta de descendentes de uma doadora permanece mais limitada que a distribuição de sêmen de um reprodutor. Na avaliação do presidente, essa diferença ajuda a entender o interesse pelas matrizes mais disputadas.

O próprio Borges relatou ter vivido esse processo de acesso gradual à genética. No início da criação, via determinadas famílias como um objetivo distante. Com o tempo, passou a trabalhar com descendentes dessas linhagens e a utilizá-las tanto na seleção de Gir puro quanto na produção de Girolando.

Para quem pretende começar, sua recomendação é definir primeiro o objetivo da criação e buscar rebanhos com avaliações consistentes e controle leiteiro oficial.

Um projeto voltado às pistas pode exigir escolhas diferentes de outro destinado à produção de leite ou à formação de matrizes Girolando. Segundo ele, conhecer essa finalidade ajuda a orientar os acasalamentos e a compra dos animais.

O prazo também pesa na decisão. Quem pode esperar tem a alternativa de adquirir embriões ou prenhezes de matrizes avaliadas. Já quem pretende iniciar a produção mais rapidamente pode buscar vacas em lactação e outras categorias disponíveis nos criatórios e leilões.

Borges recomenda procurar criadores vinculados à associação e comprometidos com os programas de melhoramento. Ele reforça que a tecnologia não dispensa o acompanhamento dos animais: medir a produção e registrar o desempenho continuam sendo tarefas essenciais para sustentar a seleção.

gado gir leiteiro
Foto: Divulgação

Genômica acelera a seleção, mas rusticidade continua sendo prioridade

O Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, desenvolvido pela ABCGIL em parceria com a Embrapa, é apontado por Borges como a base da transformação da raça. Lançado em 1985, o programa completou 41 anos em 2026.

O trabalho começou com o teste de progênie, ferramenta que permite avaliar reprodutores a partir do desempenho de suas filhas. Ao longo das décadas, novas tecnologias foram incorporadas à seleção.

Segundo Borges, a utilização da genômica começou em 2014, e o primeiro sumário genômico foi divulgado em 2018. A ferramenta permite antecipar a identificação de animais com potencial genético favorável, encurtando o intervalo entre gerações.

Na prática, o criador passa a contar com informações que ajudam a orientar decisões antes de reunir todos os resultados produtivos da descendência. Para o dirigente, isso acelera o avanço genético e amplia a capacidade de selecionar animais jovens.

Borges informou que a base reúne mais de 70 mil animais genotipados. Também afirmou que cerca de 90% dos animais nascidos anualmente no âmbito do programa estão sendo genotipados.

Ele destacou ainda o volume de registros produtivos e avaliações acumulados ao longo do trabalho. São essas informações, associadas aos dados genômicos, que sustentam a evolução das ferramentas utilizadas pelos criadores.

Por essa razão, o controle leiteiro continua indispensável. Na avaliação do presidente, deixar de medir e acompanhar os rebanhos comprometeria a qualidade das informações que alimentam o programa, mesmo com o avanço da genômica.

As possibilidades de seleção também se ampliaram. Entre as características avaliadas, Borges mencionou a tendência genética para maior produção de oócitos, relevante para a escolha de doadoras em programas de reprodução assistida.

Esse trabalho fortalece a posição brasileira no mercado internacional. De acordo com o dirigente, a procura alcança países das Américas, da África e a própria Índia, onde já nascem animais provenientes da genética brasileira.

Ao tratar desse movimento, Borges distingue a origem do Gir e o trabalho de seleção leiteira realizado no Brasil. Para ele, o Gir Leiteiro atual resulta da atuação conjunta de criadores, associação e pesquisa científica.

A demanda internacional, em sua avaliação, está ligada à necessidade de produzir leite em ambientes tropicais. É nesse cenário que a adaptação ao calor e a rusticidade ganham relevância ao lado da produtividade.

A orientação para o futuro é avançar no leite preservando os atributos que sustentam essa adaptação. Borges cita resistência, estrutura óssea, bons aprumos e capacidade de deslocamento entre as características que precisam acompanhar o ganho leiteiro.

Segundo ele, essa preocupação também foi reforçada em um seminário de atualização de jurados. Como os resultados das pistas influenciam a seleção, a avaliação dos campeões precisa considerar o conjunto do animal e sua funcionalidade.

Questionado sobre a possibilidade de alcançar a produção bruta do Holandês, o presidente ponderou que esse não deve ser o único parâmetro para orientar a raça. Na sua avaliação, níveis elevados de produção também exigem atenção ao manejo e à fertilidade.

O objetivo, afirmou, é continuar melhorando o Gir Leiteiro dentro de suas características, mantendo sua utilidade tanto nos rebanhos puros quanto nos cruzamentos. “O Gir Leiteiro tem que evoluir mantendo, preservando essas características maravilhosas do zebu, que são características essenciais para o mundo tropical”, concluiu.

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