Variedade de pelagem que ganhou fama pela estética consolida espaço nas pistas, avança para os testes de eficiência alimentar e mostra que pode entregar produtividade, conversão e rentabilidade ao pecuarista de corte.
Base da pecuária de corte nacional, o Nelore responde por mais de 80% do rebanho zebuíno brasileiro e sustenta boa parte da competitividade da carne bovina do País nos mercados interno e externo. Rusticidade, adaptação ao clima tropical, fertilidade e desempenho a campo são atributos consolidados ao longo de décadas de seleção.
É nesse contexto que o Nelore Pintado deixa de ser apenas uma curiosidade genética ou um nicho estético e passa a ocupar espaço estratégico dentro da cadeia produtiva. Trata-se de uma variedade de pelagem do próprio Nelore, mantendo a base racial e suas características produtivas, mas agregando um diferencial visual marcante: animais pintados de preto, pintados de vermelho e até a variedade Baeta, em menor volume.
Nos últimos anos, a visibilidade da pelagem chamou atenção em exposições, redes sociais e leilões. Mas, para além do apelo visual, o que vem consolidando o crescimento da variedade é a comprovação de que o Pintado entrega desempenho — tanto nas pistas quanto a campo.
Da beleza à performance: a virada de chave
Para Leandro Souza, fundador do Acervo Nelore e proprietário da Acervo Nelore Assessoria, o movimento de consolidação do Pintado passa por uma mudança clara de percepção no mercado. “O Nelore Pintado, nos últimos anos, ganhou muita visibilidade pela questão da pelagem. Essa diversificação — pintado de preto, pintado de vermelho, até o Baeta — chamou muita atenção”, afirma.
Segundo ele, no início, havia a ideia de que a variedade ocuparia espaço principalmente pelo fator estético. No entanto, a entrada consistente nas pistas de julgamento mudou o rumo da história. “Os caminhos que começaram a ser trilhados pela raça abriram espaço em pista de julgamento. E a gente sabe que o manejo de pista exige desempenho. O animal precisa aguentar esse manejo e entregar resultado” – destacou o assessor.
O desempenho morfológico foi o primeiro passo. Animais de determinadas linhagens passaram a se destacar pelo desenvolvimento, estrutura, aprumos e padrão racial, consolidando o Nelore Pintado como opção competitiva também no ambiente técnico das exposições.
Mas a grande virada, na avaliação de Leandro, está na evolução para critérios cada vez mais objetivos. O avanço para programas de avaliação de desempenho e eficiência alimentar representa, na visão de criadores e consultores, um ponto de inflexão para a variedade.
O Teste de Desempenho e Eficiência Alimentar Nelore Pelagens, liderado pela Agropecuária da Mata e pela Naviraí Agropecuária — dois nomes históricos da seleção de Nelore no Brasil — reforça que o Pintado está inserido no mesmo nível de exigência técnica aplicado às demais linhagens da raça.
“Quando você vê grandes projetos investindo em testes, mostra que a variação pode sim produzir carne, ter rendimento e desempenho a campo, fazendo conversão. Isso é de extrema importância para a raça, porque você abre o mercado”, destaca Leandro.
A avaliação de consumo alimentar residual, ganho médio diário e conversão é determinante em um cenário de margens cada vez mais apertadas na pecuária de corte. A eficiência se traduz em menor custo por arroba produzida — variável central na rentabilidade do sistema.
Segundo Leandro, o questionamento ainda existe, mas vem perdendo força. “Já me perguntaram: ‘Leandro, mas o pintado é pra quê? É só pra enfeitar o pasto?’ E a gente sabe que ele é uma variedade de pelagem, mas ele é Nelore. É raça de corte, feita para produzir carne.”
Ele reforça que a comunicação com o mercado é essencial. “Se você precisa explicar e mostrar que os touros e matrizes vão atender o pecuarista de corte, além de deixar o pasto bonito, também vão produzir bezerro de qualidade, então ter um teste de eficiência alimentar é fundamental.”
Os três pilares do crescimento
O avanço do Nelore Pintado não ocorreu de forma espontânea. Ele foi estruturado sobre bases sólidas de seleção genética. Leandro Souza aponta três grandes criadores como pilares do crescimento da variedade no Brasil:
- Hélio Corrêa de Assunção, conhecido como o “Rei do Nelore Pintado”;
- João Antônio Soares, da V3 Nelore Pintado;
- Família São Lourenço, liderada por Geraldo Carvalho e seus filhos.
“Foram esses três criadores que deram base ao crescimento. Eles possuem grandes expoentes da raça e estruturaram um trabalho consistente”, afirma.
A partir desse núcleo inicial, outros selecionadores passaram a investir na variedade, ampliando a base genética e fortalecendo a oferta de reprodutores e matrizes com padrão racial e desempenho produtivo.
O movimento seguiu a lógica clássica de consolidação genética: primeiro, a fixação da característica visual; depois, a seleção rigorosa para desempenho, fertilidade, habilidade materna e eficiência.
Rusticidade, fertilidade e saúde: atributos preservados
Um dos receios do mercado sempre foi que a busca pela pelagem pudesse comprometer características produtivas. Contudo, segundo especialistas, o Pintado preserva os pilares do Nelore tradicional.
“A gente sabe que ele já tinha características de rusticidade, fertilidade, uma saúde muito grande de um gado a campo”, pontua Leandro.
A rusticidade, fundamental para sistemas extensivos em regiões de clima desafiador, continua sendo um diferencial. A adaptação a pastagens tropicais, resistência a parasitas e eficiência reprodutiva são atributos que sustentam a viabilidade econômica da variedade.
Com a entrada em programas de avaliação objetiva, esses parâmetros passam a ser mensurados com mais rigor, agregando previsibilidade genética ao investimento do pecuarista.
Mercado e valorização
O mercado também tem respondido. A presença crescente do Pintado em leilões especializados e sua valorização nas pistas contribuem para consolidar a percepção de que não se trata de um modismo passageiro.
A combinação de apelo visual, diferenciação comercial e comprovação técnica cria um ambiente favorável à expansão da variedade. Em um setor que cada vez mais busca genética funcional, a associação entre estética e produtividade se torna um ativo estratégico.
“O pintado mostra cada vez mais que tem espaço na pecuária. Ele vai ajudar a produzir bezerro, fazer carne, entregar desempenho e eficiência. Com certeza é uma raça que vai contribuir muito para a pecuária nacional”, resume Leandro.
Mais do que cor: estratégia de posicionamento
Em um cenário em que a pecuária brasileira precisa equilibrar custo de produção, eficiência alimentar, pressão ambiental e competitividade global, cada avanço genético conta.
O Nelore Pintado surge como um exemplo de como uma característica inicialmente associada à estética pode evoluir para um projeto técnico estruturado, com seleção direcionada, testes de desempenho e visão de mercado.
- Agora, é a vez do Nelore Pintado
- A bela pelagem do Nelore Pintado seduziu os pecuaristas brasileiros
Ao integrar rusticidade, fertilidade e eficiência com um diferencial visual marcante, a variedade amplia as possibilidades de posicionamento comercial — seja na venda de reprodutores, na valorização de lotes ou na construção de marca dentro da porteira.
Pintando o pasto — e o resultado financeiro
Se antes o questionamento era se o Nelore Pintado serviria apenas para “enfeitar o pasto”, hoje a resposta parece cada vez mais clara: ele pode, sim, chamar atenção pela pelagem — mas precisa se sustentar pelos números.
E, ao que tudo indica, está conseguindo.
No fim das contas, o pecuarista que aposta na variedade não apenas deixa a fazenda mais bonita com um rebanho pintado no campo. Se a genética for bem escolhida e o manejo eficiente, pode também ver outra coisa mudar de cor: o resultado da conta bancária.
Porque, no caso do Nelore Pintado, a beleza pode até ser o primeiro impacto — mas é o desempenho que realmente pinta o lucro na pecuária brasileira.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.