No agronegócio, 5G poderá dar suporte a tratores autônomos

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Foto: Divulgação

Presidente da ConectarAgro, pontua, no entanto, que “virada” para nova tecnologia não será imediata e 4G ainda ficará alguns anos no meio rural.

O ano de 2020 freou a evolução da conectividade no campo, mas 2022 deve ser bem diferente e marcar um salto exponencial no número de novas fazendas conectadas às ferramentas tecnológicas disponíveis. É o que prevê Gregory Riordan, presidente da Associação ConectarAgro, iniciativa que reúne diversas empresas do agronegócio, de tecnologia e comunicações, que têm atuado como facilitadoras da inovação em áreas rurais.

O executivo, que também acumula o cargo de diretor de tecnologias digitais em um dos maiores grupos fabricantes de máquinas agrícolas do mundo, a CNH Industrial, aposta em um crescimento “gigantesco e de uma vez só” no próximo ano, com a associação de quase 30 empresas à entidade. Na entrevista a seguir, Riordan fala sobre o impacto da conectividade nos custos de produção, além de como a internet beneficia as pessoas que vivem nas zonas rurais e das expectativas de aplicações com a chegada do 5G ao Brasil.

Na prática, o que significa essa entrada de novas empresas na ConectarAgro? Qual será o impacto disso?

GREGORY RIORDAN: Os recursos aportados pelos membros serão usados para garantir as condições normais de temperatura e pressão, para a conectividade proliferar. O que isso significa? A gente tá usando essa divulgação para conscientizar o produtor dos benefícios, ganhos e vantagens para ele se sentir confortável. Esclarecer para o produtor o porquê de o 4G ser de 700 MHz, o qual escolhemos. Também para estarmos presentes em feiras, eventos e debates, para expandir essa comunicação – não só para os produtores, mas, também, para as empresas, áreas de telecomunicação, etc. A gente tem, inclusive, uma comissão institucional cujo papel é alinhar os ponteiros com o governo, com a Frente Parlamentar Agrícola e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Vários players podem auxiliar como mecanismos no avanço da conectividade.

Como a associação trabalha para a conectividade avançar de fato?

RIORDAN: A ConectarAgro está ali para fomentar essa situação e auxiliar no avanço da conectividade de maneira sustentável. Quem faz avançar são as operadoras, que hoje, por leilão, têm direito de avançar com o 4G de 700 MHz. Os hectares que tu vê quantificados hoje pela ConectarAgro, na verdade, são limitados aos espaços que foram avançados com a TIM, que é um dos membros fundadores da associação. Uma coisa importante de se perceber, porém, é que, mesmo as operadoras que não fazem parte da iniciativa estão convergindo para o 4G de 700MHz. O papel da ConectarAgro nessa convergência é bem maior do que apenas os hectares que estamos mensurando ali dentro. Na prática, não são os hectares da TIM que importam, mas sim os hectares de 4G que se espalham pelo país de maneira significativa.

Nós demoramos demais para olhar para a conectividade do Brasil? Estamos atrasados?

RIORDAN: Atrasamos muito, mas, hoje, a gente olha e há cidades 98% cobertas com 4G, por exemplo. O que não ocorreu, devido à interiorização, é que, na área rural, nós temos apenas 11% da área coberta por 4G, que é uma conectividade que a gente considera adequada para máquinas e pessoas. O que é paradoxal nisso: de 11% dessa área coberta, este ano vai ter quase 30% do PIB saindo de lá. É um contrassenso. Acho que avançamos muito na conectividade, mas temos um espaço ainda para fechar esse gap que temos do lado agrícola. O que vemos em contrapartida, e é um sinal de que o Brasil está muito mais atento e acelerado, é estarmos falando da entrada do 5G.

“Vamos ver algumas aplicações do 5G entrando em paralelo com o 4G para dar sustentação à aplicações de maior capacidade quando necessárias, como o trator autônomo, mas não vai ser uma virada de chave de uma hora para a outra”

Gregory Riordan, presidente da Associação ConectarAgro

Qual a cobertura da ConectarAgro?

RIORDAN: Hoje, nós temos oficialmente 6,2 milhões de hectares cobertos, que, na verdade, foram feitos em torno de 11 ou 12 propriedades. Esses 12 grandes projetos conseguiram cobrir 50 mil propriedades que estavam no entorno, além das fazendas principais. Hoje, um indicador bem interessante é que 90% são produtores com áreas abaixo de 100 hectares. Assim, você tem vários pequenos em volta que são impactados. Os 6,2 milhões de hectares levaram internet boa para mais de 600 mil pessoas que vivem em pequenos vilarejos ou pequenas cidades e para mais de 25 mil quilômetros de rodovias que por ali passam.

 Qual a meta agora, com mais empresas engajadas?

RIORDAN: Provavelmente, a meta precisará ser revista, porém, era chegar a 13 milhões de hectares até o final de 2021. Com a pandemia, apesar da demanda ter aumentado, a capacidade das operadoras de sair e instalar foi reduzida. Eu diria que hoje está uma grande mola comprimida e, à medida que as coisas estão voltando ao normal, espero ver no próximo ano um crescimento gigantesco dessa conectividade que vimos reprimida no último ano – e deve acontecer de uma vez só.

Há alguma região que está mais avançada ou atrasada na conectividade?

RIORDAN: Áreas menos interioranas, próximas às cidades e às grandes capitais, são onde tem mais. Hoje, se você olhar Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, essas regiões que são mais litorâneas e têm uma densidade maior, já por natureza têm uma conectividade maior. Quando a gente olha Estados como Mato Grosso, por exemplo, há áreas com conectividade abaixo de 8%. Isso é o fenômeno da interiorização. O que a gente está tentando fazer com a ConectarAgro é, justamente, mudar esse modelo, fazer a conectividade avançar, não apenas onde há pessoas, mas para onde tem produção agrícola.

O que o 5G vai trazer de novo, de melhoria e desenvolvimento? Em que situação estamos em relação a isso?

RIORDAN: O salto tecnológico e as mudanças são muito menores do 4G para o 5G do que foram do 3G para o 4G. O grande apelo do 5G é conseguir uma capacidade de transmissão gigante com um atraso no sinal mínimo. Imagina uma situação na Avenida Paulista, nossa
Wall Street, com várias pessoas fazendo streaming, utilizando aplicativos de altíssimo consumo de banda, e as pessoas a 1,5 metro das outras. Você tem uma capacidade gigante necessária. No agro, não é assim. Você tem uma máquina trabalhando aqui, uma pessoa fazendo uma ligação ali, um sensor de baixo consumo de dados mandando informação acolá. Ele trabalha com uma necessidade de capacidade de transmissão muito menor em comparação à situação da Avenida Paulista. Por isso, a gente ainda acredita que o 4G tem uma vida longa. Você tem de olhar quais as aplicações que estou tentando atender e qual a tecnologia que faz mais sentido para atendê-las. Então, quando olhamos para os próximos cinco anos, vemos que o 4G nos leva até lá. Na minha visão, vamos ver algumas aplicações do 5G entrando em paralelo com o 4G para dar sustentação à aplicações de maior capacidade quando necessárias, como o trator autônomo, mas não vai ser uma virada de chave de uma hora para a outra.

Quais são as prioridades tecnológicas em uma fazenda “recém-conectada”?

RIORDAN: Tenho o conceito da pirâmide de Maslow da conectividade, as pessoas têm as necessidades básicas, e lá em cima os itens de luxo. A necessidade básica de uma fazenda é a mesma que eu e você temos com nossos celulares: conseguir se comunicar um com o outro. Não é máquina, sensor ou logística, é o cara que está dentro da colheitadeira conseguir se comunicar com o cara que está dentro da oficina e conseguir se comunicar com o cara que está lá na balança para receber o produto. O ambiente agrícola é um cenário que precisa ser extremamente orquestrado para as coisas acontecerem. Depois, você começa a conectar as máquinas e ver como estão funcionando e desempenhando: conectar os sensores, olhar se está chovendo, se a umidade está certa para colher, usar os drones, transmitir as imagens dos drones automaticamente para o escritório.

“Na área rural, nós temos apenas 11% da área coberta por 4G, que é uma conectividade que a gente considera adequada para máquinas e pessoas. O que é paradoxal nisso: de 11% dessa área coberta, este ano vai ter quase 30% do PIB saindo de lá. É um contrassenso”

Gregory Riordan, presidente da Associação ConectarAgro

Se o celular está na base dela, quais tecnologias estão no topo?

RIORDAN: Hoje, isso muda à medida que o tempo avança. Por exemplo, utilizar a conectividade para mandar um sinal diferenciado para sua máquina que está no piloto automático é uma coisa bastante avançada. Utilizar a conectividade para fazer a transferência das imagens de drones que estão mapeando a propriedade e indicando onde precisa ser feita uma intervenção para a nuvem, que depois devolve o mapa já pronto. Olhando mais para frente, estamos vendo falar-se muito de veículo autônomo. Isso não é mais um sonho, já temos no nosso pipeline, nossos concorrentes também. Todo esse controle de máquina autônoma, sensoriamento, câmeras enxergando em tempo real, digamos que estaria no topo da pirâmide.

Qual o impacto disso nos custos de produção da fazenda?

RIORDAN: Tenho um exemplo, de Mato Grosso, dos ganhos com o uso da conectividade por um produtor em 1.500 hectares. Primeiro, ele reduz em 4% o uso de agroquímicos, por saber onde aplicar e usar o GPS. Ele reduz os gastos com combustível da colheitadeira também. Ganha-se produtividade. Você consegue plantar com o espaçamento certo e a planta cresce melhor. Quando a máquina para, você já sabe o porquê e já pode consertar, o que equivale a menos tempo de máquina parada. Todos os benefícios trazem um retorno para o produtor de R$ 266 mil por ano, mesmo tendo ainda muito o que fazer. Estamos falando de dois sacos de soja por hectare de retorno.

Existe uma preocupação com a capacitação de quem vai gerir essas tecnologias dentro das fazendas?

RIORDAN: Estamos trabalhando nesse momento em uma fazenda de Mato Grosso para implementar um processo educativo em cima de uma área digitalizada. Primeiro, usamos a
própria tecnologia para levar a educação por meio de EAD, com o objetivo de poder qualificar as pessoas que estão nas máquinas e no escritório para esse novo ambiente digital. No
momento em que você tem a conectividade, você precisa garantir que o produtor saiba uma série de funções para que o dado não venha errado. Esse conceito do programa educacional
é justamente para fechar esse gap de conhecimento para ambientes que não eram conectados e que agora passam a ser digitais. Esse vai ser um piloto. No momento em que
estiver rodando e tivermos a receita dele, vamos expandir para outras áreas de conectividade.

Fonte: Globo Rural

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