Nova regra europeia pode mudar a forma como café é produzido e vendido no mundo

Exigências de rastreabilidade previstas no EUDR podem levar grandes companhias do setor a adotar padrões ambientais semelhantes em diferentes mercados

A nova regra europeia voltada ao combate ao desmatamento pode provocar uma transformação ampla na cadeia internacional do café. Embora o regulamento tenha sido criado para controlar produtos comercializados dentro da União Europeia, um estudo da organização Trase indica que seus efeitos podem alcançar também países que não fazem parte do bloco.

O motivo está na estrutura do próprio mercado. Muitas das grandes empresas responsáveis pela compra e comercialização de café atuam simultaneamente na Europa e em outros destinos. Nesse cenário, manter procedimentos diferentes para cada mercado pode ser mais caro e complexo do que adotar um único padrão de controle para toda a operação.

A mudança tende a aumentar a importância da origem comprovada do produto, da organização das informações das propriedades rurais e do acompanhamento dos grãos desde a produção até a exportação.

Nova regra europeia aumenta pressão por rastreabilidade

O Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR, estabelece requisitos para commodities relacionadas à conversão de áreas florestais.

Entre as exigências está a necessidade de fornecer informações que permitam identificar a origem das matérias-primas comercializadas no bloco.

No caso do café, isso significa que empresas envolvidas na importação precisarão trabalhar com dados mais detalhados sobre as áreas responsáveis pela produção.

A consequência é uma mudança na relação entre compradores e fornecedores. A procedência do café passa a ter importância comercial ainda maior, principalmente para produtores e exportadores interessados em preservar o acesso ao mercado europeu.

Empresas podem preferir um único padrão de controle

A análise da Trase aponta que companhias com forte participação na União Europeia podem considerar pouco eficiente separar suas operações em dois modelos distintos.

Uma alternativa seria criar uma estrutura específica para os lotes destinados à Europa e continuar utilizando métodos tradicionais nas vendas para outros mercados.

Outra possibilidade é ampliar o sistema de rastreabilidade para uma parcela maior das compras.

Segundo a organização, essa segunda estratégia pode fazer mais sentido para empresas cuja presença comercial no bloco europeu representa parte significativa de seus negócios.

O resultado seria um efeito indireto relevante: regras criadas na Europa poderiam influenciar cafés comercializados em diferentes regiões do planeta.

Mercado europeu tem peso decisivo no comércio de café

A União Europeia ocupa uma posição importante entre os grandes compradores mundiais da commodity.

Dados apresentados pela Trase apontam que o bloco responde por aproximadamente 40% das importações globais de café.

A influência econômica, porém, não se limita às compras realizadas diretamente pelos países europeus.

As empresas que abastecem esse mercado possuem operações amplas em diversos outros destinos. De acordo com a análise, companhias ligadas ao abastecimento da UE participam de aproximadamente 80% dos embarques internacionais de café considerados no levantamento.

Isso ajuda a explicar por que alterações nos padrões europeus podem repercutir em uma parcela muito maior do comércio mundial.

Grandes companhias têm forte exposição à União Europeia

A participação do mercado europeu dentro das operações de algumas das maiores empresas do setor reforça essa possibilidade.

Segundo os dados apresentados pela Trase, a JDE Peet’s direciona aproximadamente 84% de seus grãos para a União Europeia.

Na Louis Dreyfus, a participação indicada chega a 63%, enquanto no Neumann Gruppe fica próxima de 53%.

Para negócios com esse nível de exposição, desenvolver sistemas exclusivos apenas para parte da operação pode elevar custos administrativos e logísticos.

A adoção de regras semelhantes para diferentes destinos permitiria reduzir a necessidade de separar fornecedores, lotes e processos conforme o país comprador.

Pequenos produtores enfrentam novo desafio

A implementação do EUDR também levanta dúvidas sobre a capacidade de adaptação de agricultores com menor acesso a infraestrutura, tecnologia e documentação.

Uma das preocupações é que exportadores priorizem produtores que já consigam fornecer as informações necessárias para comprovar a origem do café.

Esse movimento poderia dificultar a participação de propriedades localizadas em regiões rurais mais isoladas.

Por outro lado, a expansão das ferramentas de rastreabilidade para toda a cadeia pode estimular empresas, cooperativas e compradores a desenvolver mecanismos capazes de integrar esses fornecedores.

O impacto dependerá diretamente de como os custos e as responsabilidades serão distribuídos entre os diferentes participantes do mercado.

Brasil acompanha mudança com atenção

Como uma das principais potências da cafeicultura mundial, o Brasil está diretamente exposto a qualquer alteração relevante nas exigências comerciais dos grandes mercados consumidores.

Novos critérios de controle podem influenciar desde a gestão das propriedades até os contratos firmados entre produtores, cooperativas e exportadores.

Nesse contexto, rastreabilidade, organização documental e identificação das áreas de produção tendem a ganhar peso estratégico na competitividade do café brasileiro.

A capacidade de adaptação poderá ser importante não apenas para preservar vendas destinadas à União Europeia, mas também para atender compradores internacionais que decidam incorporar padrões semelhantes.

Nova regra europeia pode influenciar outros mercados

A principal mudança provocada pelo EUDR pode surgir fora do próprio território europeu.

Caso grandes empresas concluam que manter uma única política de compra é mais eficiente, os critérios ambientais exigidos pela União Europeia poderão ser incorporados gradualmente às operações realizadas com outros países.

Esse cenário poderia acelerar uma transformação que já vem ocorrendo no comércio agrícola internacional: a valorização de informações capazes de comprovar origem, conformidade ambiental e histórico das matérias-primas.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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