Programa articulado pela Embrapa reúne resultados de 12 anos de cooperação científica, com novos materiais genéticos, tecnologias de seleção e pesquisas voltadas à sustentabilidade da cadeia sucroenergética
Nove anos depois de o Compre Rural noticiar a formação de uma grande rede pública de pesquisa dedicada à cana-de-açúcar, o Pluricana chega a uma etapa decisiva. Pesquisadores de diferentes regiões do país se reuniram nos dias 7 e 8 de outubro de 2026, na Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), para apresentar resultados acumulados em genética, sistemas de produção, bioinsumos, biotecnologia e estudos ambientais.
O balanço revela a dimensão do trabalho. Ao longo de duas fases, o programa organizou 82 metas físicas e 240 atividades, envolvendo desde infraestrutura experimental até seleção de materiais genéticos. Segundo a Embrapa, a cooperação entre as instituições participantes foi mantida por cerca de 12 anos, transformando o Pluricana em uma das iniciativas de pesquisa de longo prazo voltadas à cadeia sucroenergética brasileira. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Resultados do Pluricana ampliam a base genética da cana
Entre as principais entregas está a organização de uma base genética mais ampla para os programas de melhoramento. A Embrapa contabiliza 456 genótipos mapeados, preservados e digitalizados em banco de germoplasma.
Na prática, esse tipo de coleção funciona como uma reserva de diversidade genética. Os pesquisadores podem recorrer a esses materiais para buscar características de interesse, como tolerância à seca, resistência a doenças, qualidade industrial ou adaptação a ambientes específicos.
O projeto também identificou 14 materiais classificados como superclones tolerantes à seca, além de dezenas de materiais considerados de elite que avançaram no processo de seleção destinado à produção de etanol de segunda geração.
Esses resultados, no entanto, não significam que novas variedades comerciais estejam imediatamente disponíveis ao produtor. Entre a identificação de um material promissor e a recomendação de uma cultivar há etapas adicionais de avaliação em diferentes ambientes e ciclos produtivos.
A preocupação com adaptação regional já fazia parte da proposta original quando o programa reuniu 22 instituições públicas em torno de pesquisas de longo prazo com a cultura.
Tolerância à seca ganha importância diante da expansão para ambientes restritivos
A seleção de materiais mais adaptados à restrição hídrica é especialmente relevante porque a cana brasileira ocupa ambientes produtivos bastante diferentes entre si.
Regiões tradicionais de São Paulo apresentam condições distintas das encontradas em partes de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Nordeste, onde períodos de déficit hídrico podem limitar o desenvolvimento da cultura.
Por isso, genótipos capazes de manter desempenho satisfatório em condições de menor disponibilidade de água podem ampliar as opções dos programas de melhoramento.
A própria Embrapa, entretanto, adota cautela. Os materiais selecionados ainda precisam passar por etapas complementares de avaliação antes de qualquer recomendação ampla.
Essa diferença é fundamental: tolerância observada em ensaios experimentais não equivale automaticamente a uma cultivar pronta para comercialização.
Modelos NIR alcançam índices superiores a 90%
Outra frente do Pluricana envolveu o uso da espectroscopia no infravermelho próximo, conhecida pela sigla NIR.
Segundo a Embrapa, os modelos desenvolvidos para predição do teor de açúcar apresentaram índices superiores a 90% de confiabilidade.
A tecnologia analisa como uma amostra responde à radiação infravermelha e utiliza modelos matemáticos para estimar características químicas.
Para programas de melhoramento, a vantagem está principalmente na velocidade. Como milhares de materiais podem ser avaliados durante o processo de seleção, reduzir o tempo necessário para determinadas análises permite eliminar materiais pouco promissores mais cedo e concentrar esforços nos genótipos de maior interesse.
Esse avanço ocorre em uma cadeia produtiva de grande escala. O segundo levantamento da Conab para 2026/27 estima uma produção brasileira de cana-de-açúcar de 705,2 milhões de toneladas.
A área destinada à colheita está projetada em 9,1 milhões de hectares, com produtividade média nacional de 77.905 quilos por hectare, aumento de 3,6% em relação à safra anterior.
Açúcar recua enquanto etanol de cana cresce
As projeções da Conab também ajudam a colocar os resultados científicos em perspectiva econômica.
Para a safra 2026/27, a companhia estima produção de 42,89 milhões de toneladas de açúcar, redução de 2,9% em relação ao ciclo anterior.
No etanol produzido a partir da cana, a tendência é oposta. A estimativa chega a 29,98 bilhões de litros, crescimento de 9,7%.
O comportamento reforça uma característica estratégica da cadeia brasileira: usinas podem ajustar parte do direcionamento da matéria-prima entre açúcar e etanol conforme condições de mercado, produtividade e demanda.
Nesse contexto, materiais geneticamente superiores e ferramentas capazes de medir características industriais com mais rapidez podem ganhar relevância tanto na pesquisa quanto na eficiência de longo prazo da atividade.
Carbono entra no centro das avaliações do sistema produtivo
Outra linha desenvolvida no Pluricana envolve a contabilidade de carbono da cana-de-açúcar.
Entre as atividades registradas pela Embrapa está a avaliação do impacto da reforma do canavial sobre os estoques de carbono em solos de São Paulo.
A reforma ocorre quando um canavial chega ao fim de seu ciclo produtivo e precisa ser renovado. Esse processo pode envolver preparo do solo, introdução de culturas de cobertura, manejo da palhada e implantação de novas mudas.
Cada uma dessas decisões pode influenciar a matéria orgânica e o carbono armazenado no solo.
A pesquisa é particularmente relevante diante da crescente pressão sobre cadeias agroindustriais para mensurar emissões e demonstrar desempenho ambiental.
Ainda assim, os resultados divulgados pela Embrapa não apresentam uma taxa única de aumento ou redução de carbono aplicável a todos os canaviais brasileiros.
Isso ocorre porque o estoque de carbono depende de fatores como clima, tipo de solo, histórico de uso da área, preparo, palhada, rotação de culturas e manejo adotado.
Portanto, os dados não devem ser transformados em promessa genérica de sequestro de carbono.
Mudas pré-brotadas também foram avaliadas
O programa inclui atividades direcionadas às mudas pré-brotadas, conhecidas como MPB.
Registros da Embrapa mostram trabalhos voltados à viabilidade técnica do uso dessas mudas na recuperação de falhas em soqueiras, além da construção de um inventário e da avaliação de seu perfil ambiental pela metodologia de Análise de Ciclo de Vida.
A ACV permite observar diferentes etapas do processo produtivo e identificar onde estão concentrados consumos de recursos e impactos ambientais.
Para a canavicultura, esse tipo de análise pode auxiliar na comparação entre sistemas de implantação e multiplicação de mudas.
O objetivo não é apenas determinar se uma técnica funciona agronomicamente, mas avaliar também os recursos necessários para implementá-la.
Sanidade vegetal integra a estratégia de melhoramento
Outra atividade registrada dentro do Pluricana foi a elaboração e validação de escala diagramática para manchas foliares da cana.
Essas escalas ajudam pesquisadores a estimar, de maneira mais padronizada, a intensidade das doenças nas plantas avaliadas.
Isso tem importância direta no melhoramento.
Um material pode apresentar produtividade elevada, mas tornar-se pouco interessante se for muito suscetível a uma doença relevante. Avaliações fitossanitárias padronizadas ajudam a eliminar essas opções ao longo do processo de seleção.
Dessa maneira, o ganho genético buscado não depende somente do rendimento, mas da combinação entre produtividade, qualidade industrial, adaptação ambiental e sanidade.
Bioinsumos aparecem como uma das linhas estratégicas
A segunda fase do Pluricana também incorporou o desenvolvimento de bioinsumos entre suas linhas de pesquisa.
O cadastro institucional da Embrapa descreve trabalhos voltados ao aprimoramento da cadeia sucroenergética com ênfase em melhoramento genético, biotecnologia, soluções biológicas e recomendações agronômicas para sistemas produtivos mais sustentáveis.
A divulgação final, porém, não apresenta uma relação de novos produtos comerciais originados diretamente do programa nem informa doses, preços ou percentuais de produtividade que possam ser generalizados.
Portanto, não há base para afirmar que o encerramento do Pluricana colocou novos bioinsumos imediatamente à disposição do mercado.
O que existe é uma estrutura de pesquisa que acompanha o avanço das soluções biológicas na agricultura.
Na cana, esse movimento já faz parte das discussões sobre uso de bioinsumos no setor bioenergético e sobre a expansão de inoculantes para culturas gramíneas.
Um projeto científico que durou mais do que o previsto inicialmente
A duração do Pluricana chama atenção quando comparada com sua configuração inicial.
Na reportagem publicada em 2017, a previsão apresentada era de um projeto com duração de dois anos e meio. A iniciativa, contudo, ganhou continuidade por meio de novas etapas e prorrogações.
Em outubro de 2026, Sérgio Delmar dos Anjos e Silva, pesquisador da Embrapa Clima Temperado e coordenador do programa, destacou que a articulação entre as instituições foi mantida por aproximadamente 12 anos.
O dado ajuda a explicar por que a comparação apenas com 2017 pode gerar uma interpretação incompleta.
O ano marca a primeira cobertura localizada no Compre Rural sobre a rede, mas não o começo de toda a trajetória científica.
Segundo a Embrapa, a continuidade permitiu integrar equipes de diferentes universidades, unidades da empresa e instituições como IAC e Ridesa.
O que muda para o produtor
Os resultados apresentados não devem ser interpretados como um pacote tecnológico pronto para ser imediatamente incorporado ao canavial.
Grande parte do impacto ocorre antes dessa etapa.
O banco de germoplasma amplia a matéria-prima genética disponível aos melhoristas. Os modelos NIR podem acelerar avaliações. Os materiais tolerantes à seca abrem novas linhas de seleção. Estudos de carbono e mudas ajudam a refinar sistemas produtivos.
Quando essas linhas amadurecem, podem resultar em novas variedades, métodos de manejo e ferramentas de decisão.
Para o produtor, o principal ponto é acompanhar quais desses materiais e tecnologias avançarão para validações regionais e, posteriormente, para recomendações técnicas.
O desempenho de uma variedade ou manejo continua dependendo do ambiente de produção, solo, clima, disponibilidade hídrica, sanidade e estratégia adotada em cada propriedade.
Rede científica pode ser o maior legado do Pluricana
Os números chamam atenção, mas a própria Embrapa aponta outro resultado relevante: a capacidade de manter equipes de diferentes instituições trabalhando de forma coordenada durante mais de uma década.
O modelo permitiu combinar conhecimentos em genética, microbiologia, sistemas produtivos, biotecnologia e questões ambientais sem concentrar toda a estrutura científica em uma única organização.
Essa integração também reduz duplicações e possibilita avaliar materiais em condições ambientais distintas.
Para uma cultura cultivada em milhões de hectares e submetida a realidades produtivas muito diferentes dentro do Brasil, essa diversidade experimental tem peso estratégico.
O workshop realizado em Jaguariúna encerra uma etapa da pesquisa, mas vários resultados ainda dependerão de validação, aprofundamento e transferência tecnológica.
O legado do Pluricana, portanto, não está apenas no número de materiais selecionados. Está também na construção de uma base genética mais organizada, no desenvolvimento de métodos de avaliação e na manutenção de uma rede científica capaz de continuar respondendo aos desafios da canavicultura brasileira.
VEJA MAIS:
- Cana regenerativa, bioinsumos, plantio vertical e outras tecnologias impulsionam setor bioenergético
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.