Nova avaliação da ABCGIL e da Embrapa ajuda a identificar touros com potencial para gerar doadoras mais produtivas. Veterinários questionam o destaque dado a alguns nomes e alertam para o risco de escolher reprodutores por uma única característica
Quais linhagens de Gir Leiteiro podem produzir filhas capazes de fornecer mais oócitos para a fertilização in vitro? A pergunta ganhou uma resposta nova em 2026. Pela primeira vez, o sumário do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, conduzido pela ABCGIL e pela Embrapa Gado de Leite, publicou uma avaliação genética para o número total de oócitos obtidos das filhas dos touros. É uma informação relevante para quem trabalha com doadoras, aspiração folicular e produção de embriões. Também é uma informação que precisa ser lida com cuidado.
Na prática, um touro com resultado mais alto nessa característica tem maior potencial genético estimado para transmitir às filhas a capacidade de produzir oócitos. O resultado apresentado como STA, porém, não corresponde a uma quantidade de oócitos por coleta. Trata-se de uma medida padronizada, usada para comparar animais dentro da avaliação. Tampouco equivale, por si só, ao número de oócitos viáveis, à quantidade de embriões produzidos ou à taxa de prenhez. A distinção importa porque cada uma dessas etapas pode influenciar o resultado econômico de um programa de FIV.
A base da nova característica é expressiva: foram analisados 102.836 registros de número total de oócitos, obtidos ao longo de 20 anos de 11.649 fêmeas, pertencentes a 304 rebanhos brasileiros. Nove empresas participaram dos protocolos de aspiração. Para tornar comparáveis registros produzidos em circunstâncias distintas, a avaliação considerou fazenda, empresa responsável, ano e estação da coleta, além da idade das doadoras. O modelo estatístico também separou os componentes genético, de ambiente permanente e residual. Isso permite estimar o mérito genético sem tratar uma diferença de manejo ou de momento da coleta como se fosse, automaticamente, uma diferença herdada. Não significa que todas as fêmeas tenham sido aspiradas sob condições idênticas.

Entre os touros destacados pelos resultados de STA para o número total de oócitos estão:
| Touro | RGD | STA |
|---|---|---|
| Soberano FIV de Brasília | RRP8554 | +4,91 |
| Lancelot TE da Palma | JDRB801 | +2,97 |
| Dalton TE Pati Cal | B5003 | +2,92 |
| 2 BR Sertanejo | JEBR74 | +2,40 |
Os quatro valores constam do sumário brasileiro de touros de 2026. A tabela acima reúne os animais em debate nesta matéria; não deve ser lida como uma classificação completa de todos os touros avaliados.
Soberano FIV de Brasília é o principal destaque entre os touros apresentados na nova avaliação, com STA de +4,91 para número total de oócitos das filhas. Filho de C.A. Sansão e da consagrada Soja de Brasília, ele descende da família de Ginger de Brasília, vaca com lactação registrada de 10.016 kg de leite, marco histórico para o Gir Leiteiro. Soberano é irmão completo de doadoras de destaque e, segundo as informações do criatório, já superou 60 mil doses de sêmen vendidas. Criado pela Fazenda Brasília, de São Pedro dos Ferros (MG), reúne o interesse atual pela produção de oócitos à tradição de uma seleção genética desenvolvida há mais de seis décadas.

É nesse ponto que surge a pergunta feita por profissionais da reprodução: onde está Teatro da Silvânia? O médico-veterinário Arthur Almeida, da Reproduza Biotecnologia, trabalha com produção de embriões in vitro, aspiração folicular e transferência de embriões. A partir da experiência prática, ele relata que, entre as mais de 20 mil vacas Gir que afirma ter aspirado ao longo da carreira, filhas e netas de Teatro figuram entre as melhores doadoras que encontrou.
Arthur faz uma ressalva importante: sua dúvida não é uma contestação ao desempenho de Soberano FIV de Brasília. Segundo ele, as filhas de Soberano com as quais trabalha são, de fato, boas produtoras de oócitos. O que lhe causou estranhamento foi não ver Teatro entre os nomes que passaram a circular com mais destaque quando a nova característica foi divulgada.
A dúvida de campo merece atenção. Mas a conferência do documento muda uma premissa essencial do debate: Teatro da Silvânia não está ausente da avaliação. Identificado pelo RGD EFC383, ele aparece no sumário com STA de +1,97 para número total de oócitos, valor positivo situado no percentil 5 dessa característica.
Não lidera o grupo de exemplos acima, mas está registrado com resultado favorável. Há ainda uma ligação direta entre os nomes que chamaram a atenção do mercado: 2 BR Sertanejo, com STA de +2,40, é filho de Teatro da Silvânia, conforme a genealogia publicada no próprio sumário.
Essa constatação não encerra a discussão. Ao contrário, dá a ela uma pergunta mais precisa: por que a experiência de determinados profissionais com as descendentes de Teatro parece mais marcante do que sua posição relativa entre os animais de maior STA?
A resposta não pode ser tirada de relatos isolados, assim como não pode ser obtida pela leitura apressada de uma única coluna do sumário. Para investigá-la, seria necessário comparar as doadoras e suas famílias dentro de grupos equivalentes, observar o volume e a distribuição dos registros e examinar também quantos oócitos eram viáveis e quantos embriões resultaram das coletas.

Fernando Cavalcanti Calixto Dias Tannus, médico-veterinário da Simplesgen Reprodução Animal, também diz conhecer a boa resposta de filhas de Teatro nas aspirações e na conversão em embriões. Seu questionamento, contudo, vai além da posição de um touro. Ele teme que a novidade provoque uma corrida por reprodutores associados a números altos de oócitos, enquanto leite, conformação, precocidade e persistência da lactação perdem espaço na decisão de acasalamento.
A preocupação é especialmente compreensível em um mercado no qual parte da procura por doadoras Gir está ligada à produção de embriões destinados ao Girolando. Produzir mais estruturas em uma aspiração pode ampliar as oportunidades de trabalho no laboratório. Mas uma doadora eficiente para coleta precisa, ao mesmo tempo, contribuir para o objetivo genético do criador. Se a seleção parar na quantidade de oócitos, o programa poderá multiplicar rapidamente animais que não atendem tão bem às demais características procuradas no rebanho.
Tannus também chama atenção para outra confusão comum na reprodução assistida: valorizar um indicador imediato e perder de vista o animal que nascerá. Uma boa taxa de prenhez interessa ao produtor. Uma aspiração produtiva também. Nenhuma das duas, sozinha, responde se a futura fêmea terá o conjunto de atributos desejado para produzir leite e permanecer no sistema.
O próprio programa de melhoramento oferece meios para uma escolha mais ampla. O Índice de Produção do Gir Leiteiro, o IPGL, combina informações de produção de leite, gordura, proteína, idade ao primeiro parto e parentesco médio. A nova avaliação de oócitos acrescenta uma ferramenta a esse conjunto; ela não resume todas as qualidades de um reprodutor. Na criação de animais puros, observar o parentesco também ajuda a planejar acasalamentos e preservar a diversidade genética do plantel.
Há ainda uma questão de linguagem que pode evitar decisões caras. Dizer que Soberano tem STA de +4,91 e Teatro de +1,97 não significa que as filhas do primeiro renderão, respectivamente, 4,91 oócitos e as do segundo, 1,97. Os números estão em escala padronizada. O sumário apresenta médias observadas para classes de STA como referência de interpretação, mas não promete uma quantidade fixa por aspiração para a filha de cada touro. O desempenho de uma doadora específica continua sujeito ao seu próprio mérito, ao manejo e às condições do procedimento.
Arthur acrescenta que considera a produção de oócitos uma característica de alta herdabilidade. Seu comentário reforça por que há interesse em selecionar geneticamente para ela. Ainda assim, o sumário consultado não fornece, no trecho metodológico da nova avaliação, um valor numérico de herdabilidade que permita qualificá-la dessa forma sem ressalva. O dado mais seguro para orientar a compra é a avaliação publicada, lida junto com as outras características e com o objetivo do acasalamento.
A nova característica representa um avanço para o Gir Leiteiro. Ela transforma duas décadas de registros de campo em informação comparável e dá ao criador mais uma base para selecionar doadoras. O questionamento dos veterinários também tem valor: lembra que o trabalho diário de aspiração pode levantar perguntas relevantes para os pesquisadores e que nenhum índice deveria dispensar a observação dos resultados nas fazendas.

O crescimento da fertilização in vitro torna essa discussão ainda mais importante
A fertilização in vitro deixou de ser uma ferramenta restrita a poucos criatórios e passou a ter peso crescente na multiplicação de genética bovina. Em 2024, o Brasil registrou 493.989 embriões bovinos produzidos in vitro, alta de 8,5% em relação a 2023, segundo a Sociedade Internacional de Tecnologia de Embriões (IETS). No mundo, a produção ultrapassou 2 milhões de embriões pela primeira vez. Os números brasileiros se referem aos registros informados à entidade, que aponta a existência de produção não captada integralmente por essa base.
Esse avanço ajuda a explicar o interesse pela nova avaliação de oócitos do Gir Leiteiro. Em programas de FIV, a aspiração folicular coleta os oócitos das doadoras, que seguem para as etapas de produção de embriões em laboratório. Identificar touros com potencial para gerar filhas que forneçam mais oócitos pode tornar esses programas mais eficientes. Para criadores de Gir, há também a perspectiva de multiplicar matrizes destinadas à produção de animais Gir e a cruzamentos leiteiros, incluindo o Girolando.
É por isso que a discussão levantada por Arthur Almeida e Fernando Tannus vai além de uma posição no sumário. Quando uma característica ganha valor comercial, o resultado pode influenciar a procura por sêmen e os acasalamentos feitos agora, com efeitos que permanecerão nos rebanhos por anos. A nova informação genética é valiosa, mas mais oócitos coletados não significam, automaticamente, mais embriões viáveis, mais prenhezes ou melhores vacas leiteiras.
Antes de escolher um reprodutor, o produtor precisa relacionar o resultado para oócitos ao objetivo do seu rebanho e examinar também produção de leite, gordura e proteína, precocidade, fertilidade, conformação de úbere, pernas e pés, facilidade de ordenha e temperamento. A avaliação das características fenotípicas dos animais e das famílias deve acompanhar os dados genéticos, assim como a atenção ao parentesco nos acasalamentos de animais puros. A FIV permite multiplicar genética em escala; a escolha do que será multiplicado continua sendo a decisão mais importante.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.