Novo vírus avança entre rebanhos na Europa e provoca febre, diarreia e queda na produção de leite

Duas linhagens do vírus já circulam no continente; infecção pode reduzir a produção de leite em até 20%, enquanto autoridades acompanham possíveis efeitos sobre a reprodução

Uma enfermidade transmitida por pequenos insetos hematófagos ampliou o alerta sanitário sobre a pecuária europeia em 2026. O vírus Shamonda (SHAV), detectado pela primeira vez no continente durante o verão europeu, já foi identificado em rebanhos de diferentes países e pode provocar febre, diarreia, apatia e queda na produção de leite em bovinos.

O avanço ganhou atenção porque as investigações revelaram não apenas a circulação do agente, mas a existência de duas linhagens geneticamente distintas na Europa. Ao mesmo tempo, autoridades veterinárias monitoram vacas gestantes para avaliar se a infecção pode aumentar a ocorrência de abortos, natimortos ou malformações congênitas. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

O que é o vírus Shamonda?

Apesar da atenção recente, o SHAV não é um agente totalmente desconhecido.

O vírus pertence ao gênero Orthobunyavirus e ao sorogrupo Simbu, grupo que também inclui agentes como os vírus Schmallenberg e Akabane. O Shamonda foi identificado inicialmente na Nigéria, em meados da década de 1960, e posteriormente apareceu de forma esporádica em regiões da África e no Japão.

A mudança aconteceu em 2026.

Durante o verão europeu, bovinos começaram a apresentar quadros de febre, diarreia e queda na produção leiteira. A primeira detecção formal relatada pelas autoridades espanholas ocorreu no fim de julho, na Suíça, seguida por registros em Alemanha e França e, posteriormente, em outros países europeus.

Desde então, o agente também alcançou novas áreas. Em setembro, a presença do vírus foi confirmada em bovinos de Jersey, nas Ilhas Britânicas, e no início de outubro autoridades da Irlanda relataram resultados positivos em propriedades no condado de Cork.

Duas linhagens diferentes estão circulando

A investigação genética trouxe um dado especialmente importante.

Análises realizadas pelo Friedrich-Loeffler-Institut (FLI) mostraram que os vírus encontrados em diferentes regiões não pertenciam todos ao mesmo grupo genético.

Os pesquisadores passaram a classificá-los como Shamonda Virus Europe 1 (SHAV-EU1) e Shamonda Virus Europe 2 (SHAV-EU2).

O SHAV-EU1 foi associado principalmente aos casos registrados inicialmente na Suíça, França, sul da Alemanha e Áustria. Já o segundo tipo foi identificado, entre outras áreas, no norte da Alemanha, Bélgica, Países Baixos e noroeste francês.

As diferenças genéticas levaram pesquisadores alemães a considerar provável que tenham ocorrido pelo menos dois eventos independentes de introdução e disseminação do vírus na Europa, e não simplesmente a expansão de uma única linhagem a partir de um foco inicial.

Produção de leite pode cair entre 10% e 20%

Para o produtor, um dos efeitos mais concretos está na produção leiteira.

Segundo o Ministério da Agricultura da Espanha, bovinos infectados podem apresentar redução de 10% a 20% na produção de leite durante aproximadamente sete a dez dias, acompanhada principalmente de febre e diarreia.

A proporção de animais afetados dentro de uma propriedade também pode ser elevada. O órgão espanhol informa que a morbidade já chegou a atingir praticamente todo o rebanho em algumas propriedades observadas.

Apesar disso, os dados disponíveis até agora indicam que a maioria dos bovinos adultos se recupera e não foi observada mortalidade diretamente atribuída ao vírus nos animais adultos avaliados pelas autoridades espanholas.

Isso não elimina o impacto econômico.

Uma redução temporária de até um quinto do volume produzido pode representar perda relevante quando muitos animais adoecem simultaneamente, especialmente em sistemas leiteiros de alta produção.

Pequenos insetos carregam o vírus entre os animais

A transmissão ocorre principalmente por Culicoides, pequenos insetos hematófagos popularmente conhecidos como maruins ou mosquitos-pólvora.

São vetores já conhecidos pela pecuária porque também participam da transmissão de outras enfermidades importantes dos ruminantes.

No próprio continente europeu, a circulação recente da língua azul mostrou como doenças transportadas por esses insetos podem alcançar rapidamente diferentes regiões quando existem condições ambientais favoráveis.

A doença hemorrágica epizoótica é outro exemplo de enfermidade transmitida por vetores do gênero Culicoides capaz de atingir bovinos.

No caso do Shamonda, as autoridades espanholas afirmam que não há evidência de transmissão direta significativa entre os animais. A principal rota conhecida continua sendo a picada dos insetos infectados.

Vacas gestantes concentram uma das principais preocupações

A reprodução é hoje uma das áreas que mais exigem acompanhamento.

O SHAV pode atravessar a placenta e infectar o feto. Autoridades espanholas incluem abortos e malformações fetais graves entre as possíveis repercussões da infecção durante a gestação.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer essa possibilidade e concluir que haverá uma grande onda de problemas reprodutivos.

O FLI afirma que ainda não é possível determinar se e em qual intensidade as linhagens recém-introduzidas na Europa provocarão danos fetais semelhantes aos associados ao vírus Schmallenberg.

Por esse motivo, pesquisadores recomendam atenção especial a abortos, natimortos e nascimento de bezerros ou cordeiros com malformações em propriedades onde possa ter ocorrido circulação do agente.

O acompanhamento dos próximos meses será importante porque algumas consequências de uma infecção durante a gestação podem aparecer apenas posteriormente, no momento do nascimento.

Bovinos são os principais afetados, mas não os únicos

Os bovinos concentram grande parte dos casos clínicos observados, mas o vírus não está restrito à espécie.

O SHAV já foi encontrado em ovinos, caprinos, cavalos e alpacas durante a circulação europeia.

Em ovinos e caprinos, infecções podem ocorrer sem sinais clínicos evidentes.

O FLI também confirmou o vírus em um cavalo que havia apresentado alterações neurológicas antes de morrer. Uma carga viral elevada foi encontrada no cérebro do animal, mas as investigações continuam para esclarecer completamente a relação entre a infecção e manifestações neurológicas em equinos.

Vírus Shamonda oferece risco às pessoas?

Até o momento, não existem evidências de que o Shamonda seja uma zoonose.

O Ministério da Agricultura da Espanha informa que não há indícios de transmissão do vírus para seres humanos. O FLI também considera que os vírus desse grupo, de maneira geral, não representam risco relevante de infecção humana de acordo com o conhecimento disponível atualmente.

A Agência de Saúde Animal e Vegetal do Reino Unido chegou à mesma conclusão ao emitir um alerta veterinário sobre a circulação do vírus na Europa.

A preocupação, portanto, está concentrada principalmente na saúde animal, produtividade dos rebanhos e possíveis consequências reprodutivas.

Não existe vacina específica

Outra dificuldade é que ainda não existe vacina específica disponível contra o vírus Shamonda.

Sem uma imunização direcionada, as estratégias de prevenção concentram-se no controle da exposição aos Culicoides e na vigilância dos animais.

Entre as medidas consideradas estão o manejo dos locais que favorecem a presença dos insetos, uso adequado de produtos autorizados para controle de vetores e acompanhamento veterinário dos animais que apresentarem sinais compatíveis.

Como febre, diarreia e queda na produção de leite podem ocorrer em diversas enfermidades, a confirmação laboratorial é fundamental para diferenciar o Shamonda de outros problemas sanitários.

Europa ainda tenta dimensionar o impacto

A circulação observada em 2026 colocou o Shamonda entre as enfermidades emergentes acompanhadas mais atentamente pela pecuária europeia.

A descoberta de duas linhagens, a expansão geográfica do agente e a possibilidade de consequências reprodutivas tornam necessário acompanhar sua evolução além dos casos clínicos imediatos.

No entanto, os dados disponíveis também indicam que não há motivo para tratar o episódio como uma doença altamente letal em bovinos adultos.

O cenário atual é de uma enfermidade capaz de gerar queda de produtividade e alta morbidade em propriedades afetadas, mas cuja dimensão epidemiológica e reprodutiva ainda está sendo investigada.

A principal atenção agora estará sobre a expansão para novas regiões e sobre as gestações que ocorreram durante os meses de maior circulação dos insetos vetores.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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