O uso dos subprodutos do etanol de milho na nutrição de bovinos

O uso dos subprodutos do etanol de milho na nutrição de bovinos

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Foto: Confinamento São Lucas

O investimento em etanol de milho cresceu significativamente nos últimos anos, a produção da safra 2017/2018 ficou em torno de 700 milhões de litros.

Uma das vantagens desse mercado é a utilização do DDG (Grãos Secos de Destilaria), WDG (Grãos Úmidos de Destilaria) entre outros subprodutos da fabricação do etanol de milho na nutrição de bovinos.

Para solucionar possíveis dúvidas do produtor, a Scot Consultoria convidou Otávio Rodrigues Machado Neto para uma entrevista.

Otávio é graduado em zootecnia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, concluiu o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado na Universidade Federal e atualmente é professor Assistente Doutor da FMVZ-UNESP-Botucatu no departamento de Produção Animal.

Scot Consultoria: Otávio, o que é o DDG/WDG e para que serve?

Otávio Rodrigues Neto: O DDG (Dried Distillers Grains – Grãos Secos de Destilaria) e o WDG (Wet Distillers Grains – Grãos Úmidos de Destilaria) são co-produtos da produção de etanol, gerados a partir da fermentação de grãos (por exemplo: milho e sorgo), disponíveis nas formas seca e úmida. Ambos co-produtos, são largamente utilizados nos Estados Unidos há mais de cem anos. Entretanto, o grande crescimento ocorreu nos últimos vinte anos, pela expansão da indústria de etanol americana. Como a maioria dos co-produtos da agroindústria, a composição pode variar. Em pesquisa realizada na FMVZ-UNESP-Botucatu, utilizamos uma carga de WDG com cerca de 32-33% de proteína, 4,6% de gordura total e 56% de FDN (fibra), a qual possui alta digestibilidade.

Scot Consultoria: Quais as vantagens de utilizar esse subproduto na nutrição dos animais?

Otávio Rodrigues Neto: Esses co-produtos durante muito tempo foram utilizados somente como alimento proteico alternativo. Atualmente sabemos que também pode ser incluído em maiores níveis na dieta (na FMVZ-UNESP utilizamos em até 45% da matéria seca da dieta para bovinos F1 Angus-Nelore, sem efeitos negativos sobre o desempenho). Como é um alimento com baixo teor de amido (possui cerca de 1% de amido residual) e alto teor de fibra digestível, sua inclusão em dietas de alta energia, colabora para redução de riscos de distúrbios digestivos, como acidose.

Scot Consultoria: Qual o principal entrave (armazenagem, logística, etc.) para que o pecuarista use o DDG/WDG? E como o produtor deve proceder, para que tenha o melhor aproveitamento possível desse insumo?

Otávio Rodrigues Neto: O WDG tem seu uso limitado pelo alto teor de umidade (aproximadamente 70%). A alta umidade tem impacto no transporte, inviabilizando seu uso em confinamentos que estão muito distantes das usinas de etanol. Outra questão importante relacionada à umidade diz respeito ao seu armazenamento. Caso o WDG seja mantido exposto ao oxigênio, em galpões cobertos (como os demais ingredientes das dietas de confinamento) sua vida útil é de aproximadamente 3 a 4 dias. Para extensão da vida útil do produto, é necessário que seja ensilado. Na FMVZ-UNESP-Botucatu, utilizamos silos-bolsa para armazenamento do material, a qual, talvez, seja a melhor alternativa. Temos na universidade, WDG armazenado desde junho de 2017, sendo que um silo-bolsa foi aberto na última semana para fornecimento aos animais e encontra-se em perfeitas condições. Já o DDG, versão seca do co-produto (10-12% de umidade), tem vida útil longa, assim como os alimentos concentrados comumente utilizados, como milho e farelo de soja.

Scot Consultoria: Qual o custo-benefício de usar esse produto? Qual o preço de mercado destes subprodutos?

Otávio Rodrigues Neto: Os preços de mercado podem variar bastante, mas é possível encontrar negócios a R$150,00 por tonelada para o WDG e R$500,00 por tonelada para o DDG. Considerando um valor médio de R$1.600,00 por tonelada do farelo de soja, podemos concluir que a substituição é bastante atrativa. Na UNESP, utilizamos substituição total do farelo de soja por WDG, sem efeitos negativos. Dependendo dos preços do milho, a substituição parcial deste por WDG ou DDG pode ser interessante.

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Scot Consultoria: O que impulsionou os investimentos em etanol de milho no Brasil?

Otávio Rodrigues Neto: O milho é uma interessante opção para o período da entressafra da cana-de- açúcar, por exemplo. Cerca de 80% dos equipamentos utilizados em usinas de cana-de-açúcar também podem ser utilizados para o processamento do milho na produção de etanol, o que ameniza a necessidade de aquisição de novos equipamentos. Além disso, é uma forma de agregar valor ao milho.

Scot Consultoria: Qual a perspectiva de crescimento deste nicho de mercado? Isso pode futuramente afetar a cotação do milho no mercado interno?

Otávio Rodrigues Neto: De acordo com dados da União Nacional do Etanol de Milho, o Brasil produz cerca de 28 bilhões de litros de etanol, destes, 400 milhões são de etanol de milho. Entretanto, há perspectivas de aumento da demanda por etanol nos próximos anos, a qual parcialmente deverá ser atendida por etanol de milho. A perspectiva é que o estado de Mato Grosso, em 5 anos, esteja produzindo 5 bilhões de litros de etanol de milho. É difícil projetar o impacto do maior processamento de milho para produção de etanol sobre as cotações do grão no mercado interno. Mas isso deve sim ocorrer assim como ocorreu nos Estados Unidos. Entretanto, lá, atualmente, 30% do milho produzido é utilizado para a produção de etanol.

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Fonte: Scot Consultoria

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