Entidade relaciona os sistemas alimentares às mudanças climáticas e às doenças, enquanto produtores temem maior interferência sobre a agricultura, a pecuária e o consumo
Os sistemas alimentares sustentáveis podem evitar milhões de mortes e reduzir parte das emissões globais, segundo organismos internacionais. No entanto, o avanço da Organização Mundial da Saúde sobre temas ligados à produção e ao consumo de alimentos também provoca questionamentos no setor agropecuário.
Em declaração apresentada durante as discussões climáticas da COP28, a OMS afirmou que os atuais sistemas alimentares prejudicam a saúde das pessoas e do planeta. Segundo a entidade, essa cadeia representa mais de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa e está associada a uma parcela relevante das doenças registradas no mundo.
A organização defende dietas mais diversificadas, saudáveis e com maior presença de alimentos vegetais. Também pretende apoiar governos na criação de políticas que relacionem alimentação, saúde pública e mudanças climáticas.
Sistemas alimentares representam 32% das emissões
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, indicam que os sistemas agroalimentares emitiram 16,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2023.
O volume correspondeu a aproximadamente 32% das emissões mundiais naquele ano.
O cálculo não considera apenas o que ocorre dentro das propriedades rurais. Também inclui mudanças no uso da terra, transporte, processamento industrial, embalagens, varejo, consumo doméstico e descarte.
Dietas inadequadas estão ligadas a milhões de mortes
A OMS estima que dietas inadequadas estejam relacionadas a cerca de 8 milhões de mortes prematuras por ano.
A Comissão EAT-Lancet calcula que mudanças mais amplas na alimentação poderiam evitar até 15 milhões de mortes anuais. A proposta prioriza frutas, hortaliças, leguminosas, grãos integrais e oleaginosas.
Isso não significa, necessariamente, eliminar carnes, leite e ovos. A recomendação é reduzir excessos e aumentar a diversidade nutricional, respeitando diferenças culturais e econômicas entre os países.
OMS contra o agro?
As declarações despertaram uma discussão que vai além da saúde pública. Para críticos, ao relacionar alimentação, clima, produção e comércio, a OMS amplia sua influência sobre áreas tradicionalmente conduzidas por governos, produtores e órgãos agrícolas.
A crítica é de que o conceito de saúde estaria sendo estendido para justificar intervenções não apenas sobre o que chega à mesa da população, mas também sobre como os alimentos são plantados, criados, processados, distribuídos e vendidos.
Nesse entendimento, a saúde deixaria de ser apenas uma orientação sanitária e passaria a funcionar como instrumento para direcionar políticas agrícolas, ambientais e comerciais.
Hoje, o debate está concentrado na composição das dietas. No futuro, produtores temem que recomendações internacionais sejam utilizadas para restringir determinados sistemas de produção, produtos ou práticas agropecuárias.
Esse receio, porém, precisa ser separado das atribuições formais da organização. A OMS formula recomendações e oferece apoio técnico aos países, mas a adoção de regras para o campo depende de governos nacionais, legislações locais e negociações internacionais.
Ainda assim, a influência política da entidade é relevante. Quando uma organização de saúde passa a participar da formulação de estratégias para toda a cadeia alimentar, o debate deixa de ser exclusivamente sanitário e passa a envolver economia, soberania, produção e poder regulatório.
Alimentos saudáveis seguem inacessíveis para bilhões
A transformação dos sistemas alimentares sustentáveis também enfrenta uma barreira econômica.
Dados da FAO mostram que cerca de 2,6 bilhões de pessoas não conseguiam pagar por uma dieta saudável em 2024. No mesmo período, aproximadamente 2,3 bilhões enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave.
O problema não está apenas na quantidade produzida, mas no preço, na distribuição e na renda das famílias.
Qualquer mudança alimentar em escala global, portanto, precisará considerar o custo dos alimentos e a capacidade dos produtores de manter a oferta.
Desperdício supera 1 bilhão de toneladas
O mundo desperdiçou aproximadamente 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
As residências responderam por 60% do total. Restaurantes e serviços de alimentação representaram 28%, enquanto o varejo respondeu por 12%.
As perdas e o desperdício também geram entre 8% e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Isso mostra que a redução do impacto ambiental não depende apenas de mudanças dentro das fazendas. Armazenagem, logística, varejo e consumo também precisam ser incluídos no debate.
O que pode mudar para o produtor rural
Para o agronegócio, a discussão pode resultar em maior pressão por rastreabilidade, redução de emissões e comprovação de práticas sustentáveis.
Entre as medidas defendidas estão:
- recuperação de pastagens degradadas;
- integração lavoura-pecuária-floresta;
- uso eficiente de fertilizantes;
- tratamento de resíduos animais;
- redução do desmatamento;
- agricultura de precisão;
- controle das emissões por unidade produzida.
No Brasil, parte dessas práticas já integra o Plano ABC e o ABC+. Na primeira década do programa, tecnologias de baixa emissão foram adotadas em cerca de 54 milhões de hectares, segundo o Ministério da Agricultura.
Produção de alimentos não pode ser tratada de forma isolada
O debate provocado pela OMS evidencia um conflito entre dois objetivos: reduzir impactos ambientais e sanitários sem comprometer a produção, a renda rural e a segurança alimentar.
Para o setor produtivo, políticas construídas sem considerar a realidade do campo podem aumentar custos, reduzir competitividade e criar barreiras comerciais.
Por outro lado, ignorar questões relacionadas às emissões, ao desperdício e às doenças também pode fechar mercados e aumentar a pressão internacional sobre o agronegócio.
A discussão não deve ser resumida a ser contra ou a favor da produção rural. O ponto central é determinar quem formulará as regras, quais dados serão utilizados e quanto espaço produtores e consumidores terão nessas decisões.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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