Partes pouco valorizadas do porco viram negócio de US$ 100 milhões com a China

Novo protocolo abre o mercado chinês para miúdos suínos internos e pode direcionar mais de 100 mil toneladas por ano para um destino onde fígado, rins, estômago e outras partes do animal alcançam maior valorização

Uma diferença aparentemente simples entre os hábitos alimentares de brasileiros e chineses acaba de criar uma nova oportunidade milionária para a suinocultura nacional. Partes do suíno que encontram menor valorização relativa no mercado brasileiro poderão ganhar uma destinação comercial mais rentável na China, aumentando o aproveitamento econômico de cada animal abatido e adicionando receita às indústrias.

Brasil e China formalizaram no sábado, 26 de setembro, a ampliação do protocolo sanitário para o comércio de miúdos suínos. O acordo abre espaço para produtos internos, como fígado, rins e estômago, em um segmento no qual a demanda chinesa permanece expressiva mesmo enquanto as importações convencionais de carne suína perdem força.

A dimensão do negócio ajuda a explicar por que uma pauta aparentemente restrita aos frigoríficos tem importância para toda a cadeia. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), mais de 100 mil toneladas anuais de miúdos brasileiros poderão encontrar uma destinação de maior valor no mercado chinês, com potencial de gerar mais de US$ 100 milhões adicionais em receita por ano.

Não se trata simplesmente de vender mais porcos. O ponto central é outro: ganhar mais com o mesmo animal.

China paga por aquilo que o brasileiro consome menos

Na indústria de carnes, o resultado econômico de um suíno não depende apenas do preço do pernil, da paleta, do lombo ou da barriga.

Depois do abate, praticamente cada componente da carcaça precisa encontrar o mercado no qual alcance a melhor combinação possível entre demanda e preço. É nesse trabalho de “montagem” comercial da carcaça que diferenças culturais entre países se transformam em dinheiro.

No Brasil, diversos miúdos têm consumo limitado ou menor capacidade de valorização em relação aos cortes tradicionalmente procurados pelo consumidor. Na China, entretanto, partes como vísceras ocupam espaço muito mais relevante na alimentação e no comércio.

A ABPA resume essa relação como uma complementaridade entre os hábitos de consumo brasileiro e chinês. Segundo o presidente da entidade, Ricardo Santin, os produtos já possuem valor e encontram outros destinos, mas têm uma demanda particularmente forte no mercado chinês, permitindo melhorar o aproveitamento da carcaça e ampliar a receita gerada pela produção brasileira.

É justamente essa diferença que torna o acordo mais importante do que o valor absoluto das exportações sugere.

Para um frigorífico, conseguir elevar o preço obtido por uma parte do animal que já seria produzida durante o abate significa adicionar receita sem necessariamente precisar aumentar na mesma proporção o número de suínos processados.

Em uma indústria de margens apertadas, essa conta faz diferença.

Mais de 100 mil toneladas podem mudar de destino

As estimativas da ABPA mostram onde está concentrado boa parte desse potencial.

Somente Santa Catarina poderá destinar cerca de 65,9 mil toneladas anuais de miúdos internos para a China após a ampliação do protocolo. Para o Rio Grande do Sul, a estimativa supera 40 mil toneladas por ano, além de outras oportunidades relacionadas aos produtos suínos.

Somados, apenas os potenciais calculados para os dois principais estados produtores já ultrapassam 100 mil toneladas anuais.

Até então, o acesso brasileiro era mais limitado. Santa Catarina, por exemplo, possuía autorização para determinados miúdos externos, entre eles pés, orelhas e rabos, mas não tinha o mesmo acesso para os miúdos internos agora contemplados pela negociação.

A ampliação muda a lógica comercial.

Em vez de direcionar determinadas partes para destinos de menor remuneração ou disputar compradores em mercados menos valorizados, as empresas passam a poder buscar consumidores em um país conhecido justamente pelo elevado consumo dessas peças.

Miúdos resistem mais do que a própria carne suína na China

Existe outro detalhe particularmente relevante para entender o momento do acordo.

O mercado chinês de carne suína importada vem diminuindo depois dos volumes extraordinários registrados nos anos seguintes ao surto de peste suína africana que atingiu o rebanho local. Mas os miúdos vêm demonstrando resistência muito maior à retração das compras externas.

Nos três primeiros meses de 2026, a China importou cerca de 180 mil toneladas de carne suína, volume aproximadamente 33% menor que no mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, as compras de miúdos chegaram a aproximadamente 280 mil toneladas, com queda de menos de 10%.

No primeiro semestre, o contraste permaneceu.

As importações chinesas de carne suína recuaram 26,4%, enquanto as compras de miúdos diminuíram apenas 4,8%, alcançando aproximadamente 590 mil toneladas.

A diferença revela uma mudança importante para a estratégia brasileira: a China pode comprar menos carne convencional sem necessariamente perder relevância como mercado para determinadas partes do suíno.

Em 2025, as importações chinesas de miúdos suínos alcançaram aproximadamente 1,1 milhão de toneladas, movimentando cerca de US$ 2,32 bilhões, segundo dados compilados a partir das estatísticas aduaneiras chinesas.

É nesse mercado bilionário que os frigoríficos brasileiros agora terão uma possibilidade maior de participação.

O efeito sobre a rentabilidade do frigorífico

Para compreender o impacto econômico, é necessário olhar para o animal inteiro.

Um frigorífico não vende um suíno como um único produto. Após o abate, a carcaça é transformada em dezenas de itens com mercados, compradores, preços e características diferentes.

Um corte pode encontrar melhor remuneração no Japão. Outro pode ser mais competitivo nas Filipinas. Partes específicas podem encontrar compradores na América Latina, África ou Ásia.

Quanto maior o número de mercados acessíveis, maior tende a ser a capacidade da indústria de direcionar cada produto para o comprador disposto a pagar mais por ele.

É essa estratégia que o setor chama, na prática, de aumentar a valorização da carcaça.

Com os novos miúdos autorizados para a China, uma porção do suíno que tinha menor capacidade de geração de receita dentro do Brasil pode passar a ter um comprador internacional disposto a atribuir valor maior ao produto.

O impacto não significa, naturalmente, que os US$ 100 milhões irão diretamente para o produtor.

Primeiro, a receita aparece na indústria exportadora. Mas uma cadeia frigorífica capaz de extrair mais valor do animal também ganha melhores condições para competir pela matéria-prima, sustentar investimentos e ampliar sua atuação nos mercados internacionais.

É justamente por isso que acessos para produtos aparentemente secundários costumam ser perseguidos durante anos nas negociações sanitárias.

Brasil já construiu uma relação bilionária com a China

A abertura também parte de uma relação comercial já consolidada.

De acordo com a ABPA, entre 2013 e 2024 o Brasil exportou 2,7 milhões de toneladas de carne suína para a China, mercado que permaneceu durante vários anos entre os principais destinos do produto brasileiro.

Embora a participação chinesa tenha mudado com a recuperação da produção doméstica daquele país e a diversificação dos destinos brasileiros, a escala do consumidor asiático continua difícil de ignorar.

O Brasil, por sua vez, ampliou consideravelmente sua presença internacional.

Dados consolidados do Ministério do Desenvolvimento mostram que as exportações brasileiras de carne suína permaneceram acima de 100 mil toneladas mensais em todos os meses entre janeiro e agosto de 2026, chegando a 131,5 mil toneladas em março. Somente em agosto foram embarcadas 114,6 mil toneladas, com faturamento de US$ 267,7 milhões.

O crescimento de outros compradores reduziu inclusive a dependência brasileira do mercado chinês. Em 2025, as Filipinas ultrapassaram a China entre os principais destinos da proteína suína brasileira, reforçando uma diversificação considerada estratégica para o setor.

Nesse cenário, a abertura dos miúdos não representa uma volta à antiga dependência da China.

Representa algo potencialmente mais interessante: usar o enorme mercado chinês especificamente onde ele remunera melhor produtos brasileiros.

Status sanitário abriu caminho para novas negociações

O acordo também é consequência de uma transformação sanitária importante ocorrida no Brasil.

Em maio de 2025, a Organização Mundial de Saúde Animal reconheceu oficialmente todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação. Posteriormente, em junho de 2026, a China reconheceu o novo status sanitário brasileiro e retirou restrições relacionadas à doença, ampliando as possibilidades de negociação para carnes e outros produtos de origem animal.

Os entendimentos específicos sobre os miúdos suínos avançaram durante missão brasileira a Pequim em maio deste ano.

Naquele momento, representantes do Ministério da Agricultura e da Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC) confirmaram os termos técnicos envolvendo requisitos sanitários e quarentenários para carne suína e seus subprodutos. A assinatura realizada agora conclui essa etapa da negociação.

Para as empresas, entretanto, a assinatura não significa que todos os embarques começam automaticamente.

Frigoríficos já habilitados precisarão seguir os procedimentos definidos pelo Ministério da Agricultura para ampliar o escopo de suas autorizações, incluindo os novos produtos contemplados pelo protocolo.

O porco brasileiro passa a valer mais inteiro

O aspecto mais interessante dessa abertura talvez esteja justamente no produto que não aparece na vitrine do supermercado.

Durante décadas, o avanço do agronegócio brasileiro no comércio internacional foi medido principalmente pelo crescimento dos volumes embarcados. Mas, à medida que o país amadurece como fornecedor mundial de proteína animal, outra estratégia ganha importância: extrair mais valor de cada tonelada — e de cada animal — que já é produzido.

Exportar fígado, rins, estômago, pés, orelhas ou outras partes para mercados nos quais esses produtos são valorizados faz parte dessa lógica.

É uma espécie de engenharia comercial da carcaça.

O frigorífico procura vender cada componente onde existe maior disposição de consumo e pagamento. Quanto mais mercados estiverem abertos, maior é sua capacidade de fazer essa combinação.

Por isso, o negócio potencial de mais de US$ 100 milhões por ano vai além do volume adicional exportado.

Ele mostra como uma diferença de hábitos alimentares pode ser convertida em competitividade: aquilo que possui menor procura relativa em um país pode ser justamente o produto desejado do outro lado do mundo.

Para a suinocultura brasileira, a China acaba de transformar essa diferença cultural em uma nova fonte de receita.

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