Pasto seco vira combustível para o fogo; veja como proteger a propriedade rural

Estiagem, baixa umidade e vegetação acumulada aumentam o risco de incêndios no campo; medidas simples de manejo ajudam a proteger lavouras, animais e estruturas

Com a chegada dos meses mais secos do ano, o pasto seco passa de alimento em fim de ciclo para um dos principais combustíveis disponíveis dentro da propriedade rural. A combinação entre vegetação desidratada, baixa umidade do ar, temperaturas elevadas e vento favorece a ignição e permite que pequenas chamas avancem rapidamente por grandes áreas.

O problema exige atenção especial do produtor porque o fogo não ameaça apenas a pastagem. Dependendo da intensidade, pode alcançar cercas, currais, galpões, reservas ambientais, plantações, máquinas e até áreas ocupadas pelo rebanho. Dados do MapBiomas mostram a dimensão do risco. Em 2025, aproximadamente 12,7 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo no Brasil, com forte concentração das ocorrências no período mais seco do ano. Setembro respondeu sozinho por cerca de um terço da área queimada registrada naquele período.

Pasto seco facilita a propagação das chamas

A vegetação perde grande parte da umidade durante a estiagem e passa a queimar com maior facilidade. Quando há uma camada contínua de capim seco sobre o terreno, o fogo encontra condições para avançar praticamente sem interrupções.

O risco aumenta em áreas próximas a rodovias, cercas, vegetação nativa e locais onde máquinas ou atividades humanas possam produzir faíscas.

O vento é outro fator decisivo. Além de acelerar as chamas, ele pode transportar pequenas brasas para pontos mais distantes, provocando novos focos e dificultando o controle.

Em anos de seca mais intensa, os prejuízos podem ser expressivos. Segundo o MapBiomas, 6,7 milhões de hectares de pastagens foram queimados no Brasil em 2024, ano marcado por uma das temporadas de incêndios mais severas dos últimos tempos.

Aceiros ajudam a proteger áreas estratégicas

Uma das medidas mais conhecidas para limitar o avanço de incêndios é a construção e manutenção de aceiros.

Essas faixas sem vegetação funcionam como uma interrupção física entre áreas com grande quantidade de material combustível. Quando bem posicionadas, ajudam a reduzir a possibilidade de o fogo atravessar rapidamente de uma pastagem para outra ou chegar a estruturas importantes.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico utiliza, em materiais técnicos, faixas de 3 a 5 metros como referência geral, embora a largura adequada dependa das características do terreno, do tipo de vegetação e das normas locais.

O ideal é priorizar pontos mais vulneráveis, como limites da fazenda, margens de estradas, proximidades de galpões, currais, reservas ambientais e divisões entre áreas de pastagem.

A manutenção também precisa ocorrer durante toda a estiagem. Um aceiro tomado novamente por capim e resíduos vegetais perde boa parte da sua função preventiva.

Máquinas agrícolas também podem provocar incêndios

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Foto: Divulgação

O pasto seco não precisa entrar em contato com uma chama aberta para começar a queimar.

Equipamentos agrícolas com componentes superaquecidos, falhas no escapamento ou peças capazes de gerar faíscas podem iniciar incêndios quando trabalham próximos à vegetação muito seca.

Por isso, tratores, colheitadeiras, roçadeiras e outros equipamentos utilizados durante a estiagem devem passar por inspeções periódicas.

Também é importante remover resíduos de palha e capim acumulados próximos a motores, escapamentos e componentes que atingem altas temperaturas durante o funcionamento.

Em dias com temperatura elevada, baixa umidade e vento forte, atividades capazes de produzir faíscas merecem atenção ainda maior.

Pasto seco exige plano para proteger o rebanho

A prevenção contra incêndios precisa incluir uma estratégia específica para os animais.

O produtor deve identificar previamente locais seguros para movimentar o rebanho caso um foco de incêndio se aproxime. Deixar animais concentrados em piquetes cercados por vegetação seca pode dificultar a retirada em uma emergência.

Rotas de acesso entre pastagens, currais e áreas de segurança devem permanecer desobstruídas.

Reservatórios de água, açudes e pontos que possam auxiliar equipes de emergência também precisam estar identificados.

Funcionários e moradores da propriedade devem conhecer o procedimento básico de resposta, incluindo quem deve ser acionado, quais áreas precisam ser evacuadas primeiro e por onde os animais podem ser deslocados com segurança.

Em incêndios de grandes proporções, a tentativa de combate sem treinamento adequado pode colocar vidas em risco. Nesses casos, a orientação é se afastar da frente do fogo e acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.

Monitoramento pode antecipar dias de maior risco

A prevenção pode ser reforçada com o acompanhamento das condições meteorológicas.

Temperaturas muito elevadas, umidade relativa baixa e previsão de ventos intensos são sinais de alerta para propriedades com grande quantidade de vegetação seca.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mantém o Programa Queimadas, que disponibiliza mapas de focos detectados por satélite e indicadores de risco de fogo em diferentes regiões do país.

Essas informações permitem ao produtor reforçar a vigilância em períodos críticos e adiar atividades que aumentem a possibilidade de ignição.

Queima controlada depende de autorização

Outra atenção importante envolve o uso planejado do fogo dentro da propriedade.

A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944/2024, estabelece regras para a utilização de queimadas controladas em atividades agrossilvipastoris.

De forma geral, a prática depende de autorização do órgão ambiental competente e deve seguir procedimentos técnicos específicos.

Mesmo quando autorizada, a operação precisa considerar as condições meteorológicas. Dias com vento forte, baixa umidade e vegetação excessivamente seca podem tornar o fogo difícil de controlar.

A legislação também incentiva a adoção de alternativas que reduzam a necessidade de queimadas, como manejo mecânico da vegetação, compostagem, plantio direto e outras técnicas adaptadas ao sistema produtivo.

Prevenção reduz o risco de grandes prejuízos

O fogo pode destruir em poucas horas estruturas construídas ao longo de anos.

Além da perda de pastagens e lavouras, um incêndio pode comprometer cercas, instalações, equipamentos, animais e áreas ambientais, além de gerar custos elevados para recuperar a capacidade produtiva da propriedade.

O histórico brasileiro reforça a necessidade de planejamento. Levantamento do MapBiomas indica que cerca de 208 milhões de hectares do território nacional queimaram pelo menos uma vez entre 1985 e 2025.

Por isso, o pasto seco deve ser tratado como um risco operacional durante a estiagem. A combinação entre aceiros bem conservados, manutenção de máquinas, monitoramento do clima e planejamento de emergência aumenta a capacidade de resposta e reduz as chances de que um pequeno foco se transforme em um incêndio de grandes proporções.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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