Pesquisa de 14 anos revela como seca e calor afetam o café e avança na previsão de safra

Estudo conduzido por pesquisadores da USP e da Embrapa identifica os períodos mais vulneráveis do cafeeiro, avalia perdas relacionadas ao clima e valida modelo capaz de estimar a produtividade em escala regional.

A produtividade do café pode começar a ser comprometida muito antes da colheita, em momentos decisivos do desenvolvimento da planta, quando a falta de água, as temperaturas elevadas e outros eventos climáticos interferem na formação das flores e dos frutos. Uma pesquisa brasileira que analisou 14 anos de produção identificou quais fases do cafeeiro são mais vulneráveis às variações meteorológicas e validou um modelo que permite estimar o rendimento das safras com base em dados históricos do clima.

O trabalho, desenvolvido por pesquisadores ligados à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e à Embrapa Agricultura Digital, representa um avanço para uma das atividades agrícolas mais dependentes das condições ambientais. Além de aprofundar o conhecimento sobre as respostas fisiológicas do café arábica, a pesquisa oferece elementos para melhorar o planejamento produtivo, antecipar riscos e apoiar decisões de manejo em um cenário de crescente preocupação com a instabilidade climática.

A investigação ganhou relevância em um momento de recuperação da cafeicultura brasileira. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra nacional de 2026 está estimada em 67,6 milhões de sacas beneficiadas, crescimento de 19,6% em relação a 2025. Apesar do desempenho positivo, o setor continua exposto a períodos de estiagem, geadas e oscilações de temperatura capazes de comprometer a produtividade de ciclos seguintes.

Pesquisa acompanhou 14 anos de produtividade do café

Publicado em 2026 na revista científica Agronomy Journal, o estudo Thermal sensitivity and yield of Arabica coffee under climatic variability analisou a relação entre as condições meteorológicas e a produtividade do café arábica na região vulcânica de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, e em uma propriedade rural de Caconde, no interior paulista.

Os pesquisadores trabalharam com dados de produtividade de 2011 a 2024, complementados por registros meteorológicos referentes ao período de 2009 a 2024.

A utilização de informações climáticas anteriores ao ano da colheita foi necessária porque o desenvolvimento produtivo do cafeeiro se estende por dois anos agrícolas. Isso significa que as condições enfrentadas pela planta em determinado período podem influenciar a quantidade de café colhida posteriormente.

A equipe avaliou três cultivares de arábica: Mundo Novo 376/4, Catuaí IAC 144 e Bourbon Vermelho.

Também foram consideradas diferentes variáveis meteorológicas, incluindo temperatura máxima, média e mínima, precipitação, umidade relativa do ar, velocidade do vento e acúmulo de calor ao longo do desenvolvimento das plantas.

A análise contemplou quatro etapas do ciclo produtivo, desde o crescimento vegetativo e a formação dos botões até a floração, o desenvolvimento dos frutos e o enchimento dos grãos.

A proposta foi compreender não apenas se o clima interfere no rendimento do café, mas em qual momento essa interferência se torna mais importante para a produtividade final.

Enchimento dos grãos apresentou maior sensibilidade ao calor

Um dos principais resultados foi a identificação do período de enchimento dos grãos como a fase que apresentou maior sensibilidade às elevações de temperatura.

Nessa etapa, a planta direciona recursos para o desenvolvimento dos frutos e para a formação dos grãos que serão colhidos. Condições térmicas desfavoráveis podem interferir nesse processo e comprometer o rendimento.

Entretanto, os pesquisadores identificaram outra preocupação importante: a floração apresentou uma tendência de aquecimento ao longo da série histórica analisada, aumentando a exposição dessa fase às condições de estresse.

Na região estudada, esse período ocorre principalmente entre agosto e outubro, coincidindo com a transição do inverno para a primavera.

O pesquisador Marcus Vinicius Oliveira Noronha, da Esalq/USP, explicou na divulgação institucional da pesquisa que a combinação entre temperaturas elevadas e restrição hídrica pode intensificar a perda de água pelas plantas.

Quando o estresse ocorre durante a floração, existe o risco de perda de botões florais e redução do potencial produtivo, mesmo antes da formação dos frutos.

A distinção é importante: uma fase pode apresentar maior sensibilidade fisiológica ao calor, enquanto outra concentra mudanças climáticas capazes de aumentar os riscos à produção.

Déficit hídrico foi o principal fator associado às perdas

Embora a sensibilidade às temperaturas elevadas tenha recebido atenção especial, a pesquisa identificou que o déficit hídrico foi o principal fator associado às perdas estimadas de produtividade, seguido pelos efeitos das geadas.

As penalizações atribuídas diretamente ao estresse térmico tiveram menor peso nas simulações do modelo.

O resultado mostra que os impactos do clima sobre a cafeicultura precisam ser avaliados de maneira conjunta. Temperatura e disponibilidade de água estão relacionadas, mas não produzem necessariamente os mesmos efeitos em todas as fases do desenvolvimento.

Uma lavoura submetida a temperaturas elevadas, por exemplo, pode responder de maneira diferente dependendo da umidade disponível no solo, da variedade cultivada, das características da área e das condições anteriores de desenvolvimento.

A pesquisa também encontrou diferenças na resposta das cultivares avaliadas. O Bourbon Vermelho apresentou boa resiliência durante o desenvolvimento vegetativo, mas maior suscetibilidade em fases reprodutivas.

Esses resultados reforçam a importância de considerar a adaptação genética e as particularidades ambientais no planejamento das lavouras, evitando decisões baseadas exclusivamente na temperatura média de uma região.

Modelo de previsão apresentou bons resultados regionais

Além da avaliação dos impactos climáticos, os pesquisadores testaram um modelo agrometeorológico para estimar a produtividade do café.

A ferramenta utiliza informações sobre as condições meteorológicas, o histórico produtivo e a sensibilidade da cultura em diferentes fases de desenvolvimento.

Na avaliação regional, especialmente na região vulcânica de Poços de Caldas, o modelo alcançou coeficiente de determinação (R²) de 0,93 e raiz do erro quadrático médio (RMSE) de 453 quilos por hectare.

O primeiro indicador demonstra a capacidade do modelo de explicar a variação observada nos dados avaliados, enquanto o segundo expressa a magnitude dos erros das estimativas.

O R² de 0,93, portanto, não significa que a ferramenta acerte 93% de qualquer previsão futura de safra.

Ainda assim, o desempenho encontrado indica um potencial relevante para estimativas regionais de produtividade, especialmente em áreas com características produtivas relativamente homogêneas.

Por que o modelo funciona melhor em escala regional?

Na avaliação de propriedades e talhões individuais, os resultados apresentaram maior variabilidade e menor precisão.

Isso ocorre porque fatores locais podem influenciar significativamente o rendimento, mesmo em propriedades submetidas a condições meteorológicas semelhantes.

Diferenças de solo, altitude, disponibilidade de água, idade das plantas, fertilidade, práticas de manejo e características das cultivares podem produzir respostas distintas dentro de uma mesma região.

Por isso, a ferramenta demonstrou maior potencial para planejamento regional do que para prever, isoladamente e com precisão, a colheita de uma fazenda específica.

O resultado também evidencia a importância da calibração local e da ampliação dos bancos de dados para melhorar o desempenho em ambientes produtivos diferentes daqueles utilizados na pesquisa.

O que a descoberta pode mudar para o produtor de café?

A principal contribuição prática está na possibilidade de transformar registros meteorológicos em informações capazes de orientar decisões econômicas e agronômicas.

Para o cafeicultor, compreender os períodos mais vulneráveis da planta ajuda a estabelecer prioridades de acompanhamento e avaliar medidas preventivas.

Entre as aplicações que podem ser favorecidas pelo avanço de modelos dessa natureza estão:

  • Planejamento hídrico: identificar períodos mais críticos de restrição de água e avaliar estratégias de conservação da umidade do solo ou irrigação, quando tecnicamente e economicamente viável.
  • Manejo nutricional: considerar as condições de desenvolvimento da lavoura e as perspectivas de produtividade antes de definir investimentos em fertilizantes.
  • Planejamento financeiro: utilizar estimativas de produção, acompanhadas de suas margens de incerteza, na organização de custos, fluxo de caixa e comercialização.
  • Escolha de cultivares: incorporar informações sobre a resposta de diferentes materiais genéticos às condições ambientais regionais.
  • Gestão de riscos: melhorar o acompanhamento de eventos meteorológicos capazes de comprometer etapas importantes do ciclo produtivo.

Essas possibilidades, entretanto, não significam que o modelo já forneça recomendações agronômicas individualizadas ou substitua avaliações de campo.

A ferramenta deve ser entendida como um recurso complementar ao acompanhamento técnico da lavoura.

Avanço ganha importância em meio à produção recorde de café no Brasil

O levantamento da Conab divulgado em setembro ajuda a dimensionar a importância econômica de tecnologias voltadas à previsão de safras.

A estimativa de 67,6 milhões de sacas de café em 2026 representa o maior volume da série histórica da companhia. Desse total, aproximadamente 48,2 milhões de sacas correspondem ao café arábica, crescimento de 34,8% em relação ao ano anterior.

A produtividade média nacional foi estimada em 34,6 sacas por hectare, ante 30,4 sacas por hectare em 2025.

Além da bienalidade positiva da cultura, a Conab apontou a combinação de condições climáticas favoráveis, melhor distribuição das chuvas e investimentos tecnológicos como fatores importantes para o desempenho da safra.

Em Minas Gerais, a regularidade das precipitações antes da floração e as condições favoráveis durante a formação dos grãos contribuíram para a recuperação produtiva.

Esse cenário ajuda a compreender por que uma previsão de safra confiável precisa considerar tanto o potencial produtivo das lavouras quanto os efeitos do clima ao longo do ciclo.

Para cooperativas, exportadores, torrefadoras e agentes de mercado, estimativas regionais mais consistentes podem melhorar a avaliação da oferta futura e o planejamento de compras e estoques.

O modelo não prevê os preços do café, mas informações mais precisas sobre a produção podem contribuir para análises de mercado, juntamente com estoques, demanda, câmbio e condições de oferta internacional.

Próximo passo é integrar clima e recomendações de adubação

Os pesquisadores também trabalham em uma nova etapa voltada à relação entre produtividade, variabilidade climática e manejo nutricional.

A proposta é desenvolver um modelo de adubação que considere informações de crescimento, produtividade e clima reunidas desde 2016 em áreas do Sudeste e da Alta Mogiana.

O objetivo é avançar na orientação da aplicação de nutrientes, especialmente nitrogênio e potássio, considerando a resposta esperada da lavoura às condições ambientais.

Em determinadas situações, compreender que o potencial de produção foi limitado por déficit hídrico ou temperaturas desfavoráveis pode ajudar a avaliar melhor o retorno econômico de determinados investimentos.

Atualmente, o modelo de estimativa de produtividade funciona por meio de uma planilha, na qual são inseridas informações meteorológicas e produtivas.

A expectativa da equipe é avançar na automação da ferramenta e, futuramente, transformá-la em um aplicativo mais acessível aos produtores. Essa evolução ainda é uma perspectiva de desenvolvimento, não uma tecnologia comercial já disponibilizada amplamente.

Ciência avança, mas previsão de safra ainda exige conhecimento da lavoura

A principal conclusão da pesquisa é que o comportamento produtivo do café não pode ser explicado apenas pelo volume de chuva ou pela temperatura registrada perto da colheita.

O momento em que o evento climático ocorre, a fase de desenvolvimento da planta e a capacidade de resposta da cultivar são determinantes para compreender os impactos na produção.

Ao validar um modelo com desempenho expressivo em escala regional, os pesquisadores ampliam as possibilidades de utilização de informações climáticas no planejamento da cafeicultura brasileira.

O desafio agora é melhorar a precisão das estimativas locais, testar o desempenho em outras condições produtivas e aproximar essas ferramentas da rotina dos cafeicultores.

Em um setor no qual decisões tomadas meses antes da colheita podem determinar o resultado econômico da atividade, antecipar riscos e compreender melhor a formação da produtividade pode ser tão importante quanto conhecer o volume final de uma safra.

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