Após sinal de recuperação em junho, indicador recua novamente para R$ 0,85 no mês e R$ 0,87 no acumulado; especialista alerta que cenário continua crítico para fornecedores e pequenos proprietários
A esperança de uma recuperação gradual no preço do ATR durou pouco. Depois de uma leve reação registrada em junho, o indicador voltou a cair em julho, frustrando as expectativas de muitos fornecedores de cana-de-açúcar. A nova avaliação foi feita pelo engenheiro agrônomo e produtor rural Felippe Stelutti, que mais uma vez utilizou suas redes sociais para comentar o comportamento do principal índice que determina a remuneração da atividade.
Segundo ele, o resultado confirmou o cenário que vinha sendo desenhado desde o início da safra: preços pressionados e pouca perspectiva de melhora no curto prazo.
“Eu queria muito dar uma notícia positiva para quem me acompanha, mas infelizmente ela não é tão boa assim. Eu acreditava que, depois da leve reação do mês passado, o ATR fosse continuar subindo, nem que fosse aos poucos. Mas isso infelizmente não aconteceu.”
De acordo com Stelutti, o ATR de julho caiu para R$ 0,85 por quilograma, enquanto o valor acumulado da safra recuou para R$ 0,87, reforçando as projeções iniciais de que o indicador permaneceria entre R$ 0,90 e R$ 1,00 ao longo do ciclo.
Açúcar e etanol seguem pressionando o mercado
Na avaliação do engenheiro agrônomo, os fatores que vêm derrubando o ATR continuam presentes.
O mercado internacional do açúcar permanece com preços enfraquecidos, enquanto a ampla oferta de etanol — impulsionada tanto pela produção das usinas de cana quanto pela rápida expansão do etanol de milho — mantém o biocombustível sob pressão.
“Não tem muito o que ser feito. O preço do açúcar está baixo no mercado internacional e o etanol também continua barato, porque existe muito produto disponível na praça”, explicou.
A análise reforça o alerta feito por Stelutti nas últimas semanas, quando afirmou que nem mesmo o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina seria suficiente para provocar uma valorização significativa do ATR, justamente porque a expansão da oferta supera o crescimento da demanda.
Pequenos proprietários sentem ainda mais os efeitos da crise
Durante o vídeo, Felippe chamou atenção para um grupo que, segundo ele, muitas vezes fica fora das discussões sobre o setor: os pequenos proprietários que vivem da renda do arrendamento da cana.
Segundo o engenheiro agrônomo, enquanto grandes áreas ainda conseguem manter um fluxo financeiro razoável mesmo com o ATR mais baixo, famílias que possuem apenas alguns alqueires vêm perdendo parte importante da renda mensal.
“Está difícil para o fornecedor, mas também está difícil para quem vive da renda da cana-de-açúcar. Não estou falando de quem tem 20 ou 30 alqueires. Estou falando daquela família que tem dois, três ou cinco alqueires e depende do arrendamento para sobreviver. Essas pessoas estão vendo o orçamento diminuir a cada mês.”
O alerta amplia o debate sobre os impactos da queda do ATR, que não afeta apenas quem produz diretamente, mas também milhares de proprietários rurais que têm no arrendamento da cana sua principal fonte de renda.
Produtores demonstram preocupação com o futuro da atividade
A publicação de Felippe Stelutti foi rapidamente tomada por comentários de produtores preocupados com o avanço da crise no setor sucroenergético.
Um dos relatos chamou atenção para os contratos de parceria firmados com as usinas, nos quais o rendimento do proprietário também sofre impacto quando os resultados da indústria pioram.
“Realmente, a cada mês abaixa mais. E quem tem contrato de parceria com usinas, se ela lucra o dono das terras lucra; se ela fecha no vermelho, o desconto vem no pagamento.”
Outro produtor resumiu o sentimento de apreensão diante da sequência de quedas no indicador.
“Misericórdia, Senhor! A cada mês vem caindo, porém agora já está ficando insustentável. Esperamos uma melhora logo. Vamos acreditar!”
Também houve quem utilizasse uma metáfora para ilustrar o momento vivido pelo setor.
“O nosso açúcar está derretendo, meu amigo. Mas teremos fé para que Deus faça um milagre no setor canavieiro, porque depender do homem é bronca. Muda tudo toda hora.”
Já outro comentário foi mais direto ao retratar o sentimento de muitos fornecedores.
“A cana está numa situação delicada. Muito triste.”
Expectativa continua sendo de recuperação
Apesar do novo recuo do ATR, Felippe Stelutti encerrou sua análise mantendo uma mensagem de confiança para o setor.
Segundo ele, embora o momento continue extremamente delicado, os ciclos das commodities costumam mudar ao longo do tempo e a expectativa é de que, com a recuperação dos mercados de açúcar e etanol, os produtores voltem a encontrar melhores condições de rentabilidade.
Enquanto isso, fornecedores, parceiros e pequenos proprietários seguem acompanhando mês a mês o comportamento do ATR, na esperança de que a principal referência de remuneração da cana-de-açúcar finalmente volte a apresentar uma trajetória consistente de recuperação.
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