Produção de alimentos deve custar mais também em 2022

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Foto: Divulgação

Adubos e defensivos dobraram de preço em uma safra marcada também por problemas climáticos, que refletiram na oferta e demanda e nos preços.

Os insumos, especialmente adubo e defensivos, foram os que mais pressionaram os custos de produção agropecuária e reduziram as margens dos produtores. E a tendência é a situação permanecer em 2022. É o que aponta o projeto Campo Futuro, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que fez um levantamento de dados econômico-financeiros e técnicos de mais de 40 atividades.

A valorização dos insumos está ligada, principalmente, a um cenário de escassez de oferta com alta demanda. Questões geopolíticas, além da interrupção de fábricas na China, vinculada a mudanças em sua política ambiental, levaram a uma escalada de preços, com alguns produtos passando a custar mais do que o dobro em comparação com safras anteriores.

Segundo a CNA, de janeiro a setembro deste ano, os fertilizantes subiram em média, mais de 100%. O KCl (cloreto de potássio) teve alta de 152,6%; o fosfato monoamônico (MAP), 74,8%; e a ureia, 70,1%. Entre os defensivos agrícolas, o glifosato, um dos mais usados nas lavouras, aumentou 126,8%.

Na planilha de cálculo, é custo maior. Com consequente reflexo nos preços de produto ao longo da cadeia produtiva, influenciados também por outras questões de produção e mercado. O levantamento da CNA tem como uma das principais variáveis o Custo Operacional Efetivo (COE), que inclui todos os itens considerados variáveis ou gastos diretos, como insumos (fertilizantes, sementes e defensivos agrícolas), operações mecânicas e comercialização.

Só para se ter uma ideia, o COE da soja na safra 2020/2021 foi cerca de 17% superior, devido à alta dos preços de fertilizantes e defensivos, que subiram 14,8% e 16,9% respectivamente. A produtividade média das lavouras, no entanto, também subiu 59,4 sacas por hectare, 8,6% acima da safra anterior e o preço médio de venda do grão ficou 46,9% maior.

No milho de primeira safra, o controle de pragas demandou valores 25,7% maiores que na safra passada. O principal problema foram os ataques da cigarrinha, que afetaram a produtividade de regiões ao Sul do país. A produtividade média ficou em 160 sacas por hectare.

Com o feijão, não foi muito diferente, indica o estudo da CNA. Em Santa Catarina e no Paraná, o Custo Operacional Efetivo da primeira safra teve aumento de 7%, puxado pela alta de 17,8% dos fertilizantes. A produtividade recuou 20,6% devido a problemas climáticos. O que acabou salvando a margem dos produtores foi o preço de venda, 38,7% maior.

No café, o custo do arábica aumentou 15% e o do conilon, 31,3%. O fertilizante foi o item que mais impactou a produção, subindo 20,8% para o arábica e 34,2% para o conilon, na média. O setor também sofreu reflexo dos problemas logísticos, como a falta de contêineres em escala global. Mas a menor oferta levou a um aumento de receita de 54% para o arábica e 35,4% do café conilon.

Efeitos do clima

Além dos insumos, o clima também afetou algumas atividades agropecuárias. A seca mais severa dos últimos anos comprometeu o desenvolvimento da safra de café colhida este ano, levando a uma redução de 10% da produção na comparação com o ciclo anterior.

As safras de feijão da seca e milho segunda safra foram significativamente prejudicadas pela estiagem no primeiro semestre de 2021 e as geadas nos meses de inverno. Com isso, a produtividade do feijão teve redução de 30,4% e a do milho segunda safra caiu 39,3%.

O atraso no plantio da soja retardou o plantio do milho de segunda safra, que também teve lavouras atingidas por geada no período próximo da colheita. A produtividade média da cultura foi de 63,8 sacas por hectare ante as 105,2 sacas da safra anterior, de acordo com a CNA.

Houve áreas em que a produtividade média não passou de 20 sacas, casos de Londrina (PR e Dourados (MS), informa o levantamento da Confederação. De outro lado, os preços elevados do cereal ajudaram a assegurar uma receita bruta 2,7% acima do ano anterior, mas a margem bruta ficou 4,1% abaixo.

O arroz cultivado no Rio Grande do Sul registrou produtividade 5% superior e o trigo no Paraná teve um incremento de 19%. O COE das duas culturas também subiu, com 34% de alta para o arroz e 23,7% para o trigo, mas os elevados preços médios de venda garantiram boas margens.

Já a cadeia produtiva da cana-de-açúcar teve resultados positivos, apesar do clima adverso e da alta de custos de fertilizantes e defensivos. Os custos no Nordeste aumentaram 29% e no Centro-sul, 27%. Mas a recuperação dos preços de açúcar e etanol ao longo do ano foi favorável ao setor.

Carnes

O que vem ocorrendo no campo ajuda a explicar também as razões dos preços de carnes ao consumidor terem ficado mais elevados. E, se a ponta do consumo sentiu com mais força a alta nos preços das carnes, é na ponta da produção que vem sendo percebida a maior desvalorização, especialmente a partir de setembro, com o mercado, principalmente, de carne bovina, sentindo os efeitos do embargo da China às exportações, ainda em vigor.

E mesmo nesse cenário de preços mais elevados ao longo da cadeia, o produtor não conseguiu ter receita suficiente para arcar com alta dos custos, informa o levantamento da CNA. Na pecuária de corte, a margem líquida da operação foi negativa, de acordo com o Campo Futuro, em oito dos 22 modais produtivos pesquisados. O Custo Operacional Efetivo dos sistemas de recria e engorda acumulou alta de 15,2%; no modelo de ciclo completo, a alta atingiu 10,6% e nos sistemas de cria, 16,10%.

Na pecuária de leite, os sistemas de produção que operaram com maior eficiência produtiva, com mais de 10 mil litros por hectare ao ano, foram os que apontaram os melhores resultados financeiros, com uma margem média de R$ 0,04 por litro. Já os modelos de média e baixa produtividade operaram com margem líquida negativa. O custo da atividade acumula alta de 15,7% enquanto a receita gerada pela comercialização do leite cresceu 15,8%.

Os segmentos de aves e suínos tiveram, de um lado a pressão de custos e, de outro, limitações de repasse para os preços do produto final. Na avicultura de corte, o item de maior impacto nos custos de produção foi a mão-de-obra (26,7%), seguida por energia (19,5%). O mesmo ocorreu na suinocultura. Oos modelos de integração gastaram mais com a mão-de-obra, que representou em média 41,5% do custo operacional.

Fonte: Globo Rural

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