Produtividade do agro cresce 80% enquanto indústria avança apenas 5% no Brasil

Levantamento sobre produtividade municipal revela uma mudança silenciosa na economia brasileira: regiões ligadas à produção agropecuária passaram a concentrar alguns dos maiores ganhos de eficiência do país

A produtividade do agro avançou em ritmo muito superior ao observado na indústria brasileira entre 2002 e 2019. Estimativa apresentada no estudo Missing the Productivity: Estimating Labor Productivity in Brazilian Municipalities (2002–2019) aponta crescimento de 80,1% na produtividade do trabalho da agropecuária, enquanto a indústria registrou alta de apenas 5,4% no mesmo intervalo.

A diferença chama atenção porque revela algo além do desempenho do campo. O avanço mostra uma mudança no próprio mapa da eficiência econômica do Brasil, com estados do Centro-Oeste e da região conhecida como Matopiba ganhando espaço enquanto áreas tradicionalmente industriais apresentaram evolução bem mais modesta.

O estudo foi elaborado pelos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz e divulgado em 2026. A pesquisa utiliza dados de mais de 5,5 mil municípios brasileiros e combina informações de diferentes bases oficiais, como Rais, Censos Demográficos e pesquisas domiciliares. Por se tratar de um pré-print, os resultados ainda não passaram pela etapa final de revisão acadêmica por pares.

Produtividade do agro cresce muito acima da média nacional

No período analisado, a produtividade do trabalho da economia brasileira aumentou cerca de 18,7%.

O desempenho do setor agropecuário ficou muito acima desse resultado.

Segundo as estimativas do estudo:

  • Agropecuária: +80,1%
  • Serviços: +10,3%
  • Indústria: +5,4%
  • Economia brasileira: +18,7%

A comparação mostra que o ganho de produtividade ocorreu de forma bastante desigual entre os setores.

No caso da agropecuária, parte desse avanço está relacionada à incorporação de máquinas, tecnologias de produção, melhoria genética, profissionalização da gestão e maior capacidade de produzir valor com uma quantidade proporcionalmente menor de trabalho.

É importante destacar que o indicador avalia produtividade do trabalho, e não apenas rendimento agrícola por hectare. Portanto, o crescimento de 80,1% não significa necessariamente que a produção física das lavouras tenha aumentado na mesma proporção.

Matopiba aparece entre os principais focos de transformação

A distribuição geográfica dos ganhos revela outra mudança relevante.

Estados ligados à expansão da fronteira agrícola aparecem entre os maiores crescimentos registrados no levantamento.

O Piauí apresentou aumento de 103% na produtividade agregada entre 2002 e 2019, enquanto o Maranhão avançou 86% e o Tocantins, 69,7%.

Os três fazem parte do Matopiba, região que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e se consolidou nas últimas décadas como uma das principais áreas de expansão da produção de grãos no país.

Quando a análise considera especificamente a agropecuária, a diferença se torna ainda mais expressiva. A produtividade agrícola estimada para o Piauí cresceu 407,7%, enquanto Mato Grosso registrou avanço de 119,5% no mesmo período.

Esses resultados não significam necessariamente que os estados tenham ultrapassado regiões mais desenvolvidas em produtividade absoluta. Parte das altas também ocorre porque alguns deles partiram de níveis menores no início da série.

Ainda assim, o movimento demonstra a velocidade da transformação econômica dessas regiões.

Estados industriais tiveram avanço mais limitado

Enquanto novas áreas agrícolas apresentaram crescimento acelerado, alguns dos principais centros industriais do país avançaram pouco.

São Paulo registrou crescimento acumulado estimado em apenas 1,2% na produtividade agregada entre 2002 e 2019. No Rio de Janeiro, a expansão foi de cerca de 4%.

A diferença reforça um problema recorrente da economia brasileira: a dificuldade da indústria em transformar tecnologia, capital e trabalho em ganhos consistentes de eficiência.

No setor agropecuário, o movimento foi diferente. A pressão por competitividade internacional, a expansão da mecanização e a incorporação de tecnologia ocorreram de forma mais intensa em diversas regiões produtoras.

Dados recentes reforçam avanço estrutural do campo

Uma análise divulgada em agosto de 2026 pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, em parceria com o Cepea/Esalq-USP, reforça a tendência observada nas últimas décadas.

Segundo o levantamento, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária brasileira cresceu 515% entre 1995 e 2025.

No conjunto da economia, o avanço no mesmo período foi de aproximadamente 28%.

A diferença mostra que a transformação produtiva do campo não ficou restrita ao intervalo analisado no estudo municipal.

Entre 2012 e 2025, a área agrícola brasileira aumentou 43,2%, enquanto a quantidade de trabalhadores por 100 hectares diminuiu 38,5%, segundo a análise apresentada pela CNA e pelo Cepea.

O cenário ajuda a explicar a expansão do uso de colheitadeiras, sistemas automatizados, agricultura de precisão e ferramentas digitais nas propriedades rurais.

Escassez de mão de obra acelera mecanização

Outro fator que vem impulsionando investimentos em eficiência é a dificuldade de contratar trabalhadores qualificados.

Pesquisa apresentada pela CNA indica que 94,8% dos produtores entrevistados relataram algum grau de dificuldade para contratar mão de obra.

Além disso, 42,6% afirmaram ter antecipado investimentos em mecanização ou automação diante dessa limitação.

O problema cria uma pressão adicional sobre o produtor: aumentar a produção sem depender do crescimento proporcional do número de trabalhadores.

Nesse cenário, máquinas conectadas, sistemas de gestão, monitoramento remoto e equipamentos automatizados deixam de ser apenas ferramentas de ganho operacional e passam a funcionar também como resposta à falta de profissionais no campo.

Safra maior não significa necessariamente produtividade maior

O Brasil também caminha para mais uma temporada de elevada produção agrícola.

A Conab estima a produção da safra 2025/26 em cerca de 360,8 milhões de toneladas de grãos.

O número, porém, precisa ser analisado com cuidado.

Parte do crescimento da produção ocorre devido à ampliação da área cultivada, estimada em aproximadamente 83,5 milhões de hectares.

Por isso, produção total, produtividade por hectare e produtividade do trabalho são indicadores diferentes.

Uma safra recorde pode ocorrer mesmo quando o rendimento médio das lavouras permanece praticamente estável.

Agro amplia peso econômico no interior do país

O aumento da eficiência também ocorre em um setor que passou a movimentar cifras cada vez maiores.

O Ministério da Agricultura estima o Valor Bruto da Produção Agropecuária de 2026 em aproximadamente R$ 1,39 trilhão.

Mato Grosso aparece na liderança estadual, com cerca de R$ 216 bilhões.

A expansão cria efeitos que vão muito além das fazendas.

Regiões produtoras passam a demandar transporte, armazenagem, crédito, máquinas, manutenção, serviços técnicos, tecnologia, comércio e infraestrutura urbana.

Esse processo ajuda a explicar por que cidades do interior ligadas ao agronegócio passaram a apresentar crescimento econômico e geração de renda em ritmo superior ao observado em algumas áreas industriais tradicionais.

Produtividade do agro ainda tem espaço para avançar

Apesar do forte crescimento doméstico, a produtividade agropecuária brasileira ainda está distante das principais economias agrícolas do mundo.

Dados apresentados pela CNA e pelo Cepea indicam produtividade de aproximadamente US$ 12,7 mil por trabalhador no Brasil em 2024.

O valor corresponde a cerca de 43% da média registrada nos países de alta renda.

Nos Estados Unidos, o indicador supera US$ 80 mil por trabalhador.

A comparação mostra que o país avançou muito, mas ainda enfrenta gargalos relacionados à logística, conectividade rural, qualificação profissional, infraestrutura e acesso à tecnologia.

O principal sinal deixado pelos levantamentos, entretanto, é claro: os maiores ganhos de eficiência da economia brasileira não estão necessariamente ocorrendo nos tradicionais centros industriais.

O avanço do Centro-Oeste e do Matopiba indica que a produtividade está ajudando a transferir parte do dinamismo econômico para novas regiões do país — e o agro ocupa posição central nessa transformação.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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