Na Fazenda Alagoas, em Patos de Minas, família ampliou a produção com investimentos em genética, alimentação e manejo; próxima meta é chegar a 10 mil litros diários
Um Fiat Uno vendido para comprar novilhas marcou o início de uma transformação na Fazenda Alagoas, em Patos de Minas, no Alto Paranaíba mineiro. No começo dos anos 2000, o produtor Gilson Pereira Cardoso buscava aumentar a produção de leite da propriedade, que entregava cerca de 100 litros por dia e ainda não gerava renda suficiente para sustentar a família.
Mais de duas décadas depois, a fazenda produz 8.620 litros diários, com 194 vacas em lactação. A próxima meta é alcançar 10 mil litros por dia em 2027, apoiada na ampliação das instalações e no crescimento do rebanho.
A trajetória foi apresentada em reportagem do AgFeed, publicada em 24 de outubro. Segundo os dados relatados pela família ao veículo, o avanço ocorreu gradualmente, com investimentos em animais, estrutura, alimentação e gestão da equipe.
Do Fiat Uno à ampliação da fazenda
A Fazenda Alagoas pertence à família desde 1949. Depois de passar pelo avô e pelo pai de Gilson, a propriedade foi assumida pelo produtor em 2001.
Naquele período, a atividade leiteira ainda tinha escala reduzida. Para complementar a renda, Gilson trabalhava para vizinhos. A venda do carro permitiu comprar novilhas e aumentar o plantel, dando início a um processo de expansão que levaria anos.
Um passo na trajetória ocorreu cerca de uma década depois, quando o produtor procurou a Nestlé em busca de apoio para ampliar a estrutura de ordenha. A empresa apresentou uma proposta para comprar o leite da fazenda, que então produzia entre 500 e 700 litros diários.
De acordo com a reportagem do AgFeed, Gilson comparou o pagamento recebido pela cooperativa com o oferecido pela indústria e encontrou uma diferença favorável à Nestlé. A remuneração pela qualidade do leite passou a ajudar a financiar melhorias na propriedade.
Produção passou de 2,4 mil para 8,6 mil litros por dia
Os registros apresentados pela família mostram que o crescimento se acelerou nos últimos anos:
| Período | Produção diária |
|---|---|
| Início dos anos 2000 | Cerca de 100 litros |
| 2021 | 2.478 litros |
| 2025 | 5.926 litros |
| Outubro de 2026 | 8.620 litros |
| Meta para 2027 | 10.000 litros |
Entre 2021 e 2026, a produção diária informada pela fazenda cresceu aproximadamente 248%. Para atingir a meta de 10 mil litros, será necessário acrescentar 1.380 litros por dia, ou cerca de 16% ao volume atual.
Um novo galpão está em construção para abrigar mais 50 vacas. A ampliação da estrutura deverá caminhar junto com o planejamento da alimentação, da mão de obra e do manejo do rebanho.
Genética e manejo estão por trás da produtividade
Atualmente, a Fazenda Alagoas trabalha com animais da raça Holandesa. Considerando os 8.620 litros diários e as 194 vacas em lactação, a média informada é de aproximadamente 44,4 litros por vaca em lactação por dia.
Esse indicador considera apenas os animais que estão produzindo leite naquele momento, e não todo o rebanho da propriedade. A média também depende das condições de cada fazenda, incluindo genética, estágio de lactação, alimentação, sanidade e conforto das vacas.
Segundo o AgFeed, a família passou a utilizar a genotipagem, com apoio da Nestlé, para auxiliar na avaliação do potencial genético dos animais. A ferramenta oferece informações para decisões de seleção e reprodução, mas seus resultados dependem do manejo e das condições oferecidas ao rebanho.
O acompanhamento dos números ajuda a orientar essas decisões. Entenda como fazer o controle leiteiro na fazenda e acompanhar a produção das vacas.
Silagem, solo e alimentação do rebanho
Para manter a produção, a família também investiu no cultivo de alimentos. A fazenda utiliza cerca de 80 hectares, incluindo 55 hectares arrendados, para a produção de milho destinado à silagem e à alimentação dos animais.
Desde 2022, a propriedade adota práticas como plantio direto, rotação de culturas e cobertura do solo. A mudança foi incentivada pelo programa de agricultura regenerativa da Nestlé, do qual a fazenda participa.
Juliana Cardoso, esposa de Gilson, contou ao AgFeed que a família testou a cobertura vegetal em parte da área. Após um período de aproximadamente 40 dias sem chuva, ela observou que o milho nas áreas protegidas apresentou desenvolvimento mais uniforme do que nas áreas sem cobertura.
Segundo os dados relatados pela família, o teor de matéria orgânica do solo passou de 3% em 2021 para 4,1% em 2026. A propriedade também separa sólidos dos dejetos, reaproveita água na limpeza das instalações e utiliza resíduos orgânicos na fertilização das lavouras.
Na produção de leite, a qualidade e a disponibilidade do volumoso têm peso na rotina da fazenda. Veja também como o planejamento da silagem ajuda a garantir alimento ao rebanho durante o ano.
Quanto a fazenda recebe pelo leite?
De acordo com Gilson, o programa Net Zero acrescenta atualmente R$ 0,12 por litro à remuneração paga pela Nestlé. Na reportagem, ele afirmou receber cerca de R$ 3 por litro, considerando os adicionais aplicáveis à propriedade.
Esse valor é uma referência da própria fazenda e pode variar conforme a qualidade do leite, o contrato, a localização e as condições de pagamento de cada comprador. O preço recebido também não representa o lucro da atividade: é necessário descontar alimentação, mão de obra, sanidade, energia, manutenção e demais custos.
A Embrapa destaca que a alimentação costuma representar a maior parcela dos custos da atividade leiteira. Por isso, ampliar a produção precisa vir acompanhado do controle das despesas e da avaliação da margem obtida por litro.
A Fazenda Alagoas emprega nove funcionários e, segundo a reportagem, mantém treinamentos relacionados à rotina de trabalho, à segurança e ao bem-estar animal. Para a família, a equipe é parte do crescimento da atividade, ao lado dos investimentos em instalações e tecnologia.
A experiência de Gilson mostra uma expansão construída ao longo de mais de duas décadas. Para outros produtores, a escala alcançada pela Fazenda Alagoas serve como referência de trajetória, mas cada investimento precisa ser avaliado de acordo com a realidade da propriedade, a disponibilidade de recursos e o custo de produção.
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