Produtores estão alimentando ovinos com subprodutos do Baru

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Rebanho de ovinos
Foto: Luiz Gonzaga Pinto de Queiroz

Resíduos e subprodutos na alimentação de animais ruminantes: subprodutos do Baru na Alimentação de Ovinos no Nordeste Goiano

Por Ari Santana de Menezes* – Para alimentar uma população que ultrapassa 216 milhões de pessoas no Brasil (2022); sem mencionar a quantidade das exportações, é necessário produzir; e produzir muito. Cada dia que passa, a busca por aumento na produção exige novas tecnologias e métodos eficazes nesta empreitada. Mas, igual num supermercado, onde produtos apresentam datas vencidas nas prateleiras, na produção alimentícia também há desperdícios (resíduos). E esta quantidade é tão grande que 14% dos alimentos se perdem entre a colheita e a venda – no caso de frutas e vegetais perde-se mais de 20%. De acordo com um relatório lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em março de 2021, do Índice de Desperdício de Alimentos, cerca de 17% do total de alimentos disponíveis aos consumidores foram para o lixo das residências, varejo, restaurantes e outros serviços alimentares em 2019.

polpas do baru
Polpas do baru / Foto: Divulgação

Para suprir uma das necessidades básicas do ser humano, que é o de se alimentar dignamente em quantidade e qualidade, une-se a palavra sustentabilidade. Isso traz a discussão de utilizar corretamente as práticas alimentares e /ou gerenciar os excedentes (resíduos) como forma de reaproveitá-los, para que sua reutilização, possa trazer resultados positivos; tanto na reciclagem (melhorando o meio ambiente), quanto na transformação do uso como fonte alternativa para alimentação animal (diminuindo custos e mantendo lucros).

O quesito alimentar do mercado consumidor, tanto nacional, quanto mundial tem ficado mais exigente a cada dia. Isso requer dos produtores, novas técnicas e aprimoramentos que possam garantir ao produto final: sanidade, qualidade e preço baixo. Afinal, é isso que os consumidores procuram. O produtor que alcançar melhor eficiência, além de agregar valores ao produto final, vai ganhar da concorrência, com maior lucratividade e espaço de mercado.

Com o aumento do preço da carne bovina, surge outras opções de consumo, para que o cliente (consumidor) possa buscar melhores condições de demanda para alimentação da família.

Os resíduos agroindustriais, entre eles os decorrentes de indústrias processadoras de sucos, contêm apreciáveis quantidades de celulose, hemicelulose e pectina, os quais, sendo componentes da parede vegetal, são arrastados pelo esmagamento da polpa (Aguilar et al., 1986). Estes resíduos são utilizados na nutrição de ruminantes, representando componentes fibrosos dos alimentos, onde há extração da energia contida nos alimentos (DARÓS et al., 2018).

Atualmente, a carne ovina está ganhando espaço no mercado mundial, na mesa dos consumidores; presente em grandes supermercados, açougues e churrascarias; onde já há uma concorrência com carnes bovina, suína e de frango.

castanha do baru
Castanha do baru / Foto: Divulgação

Para tanto, é necessário alternativas alimentares que supram as exigências nutricionais dos animais nos momentos mais críticos (período de seca), que atendam às carências de cada produtor, métodos inovadores e produtivos, para atender uma demanda crescente por alimento; não somente em quantidade, mas também na qualidade: buscando sempre equilíbrio, sustentabilidade e soberania alimentar.

Tendo em vista a dificuldade da aquisição de ração pelo fato da região Nordeste Goiano estar mais distante de zonas produtoras de grãos, faz-se necessário a exploração de alimentos alternativos locais, buscando uma produção sustentável e economicamente viável. A utilização de fontes alternativas permite diminuir os custos na produção de ruminantes, tornando eficientes em relação à substituição total ou parcial das principais matérias-primas.

fruto da arvore do Baru
Foto: Claudio Bezerra Melo

A exemplo, pode-se utilizar resíduos e subprodutos do baru (fruto nativo do Cerrado), como fontes de alimentação para ruminantes. Os estudos realizados permitem entender os fatores que governam a utilização dos nutrientes contidos na torta de baru e sua interação com os demais componentes da dieta, objetivando contudo, identificar o potencial de uso em dietas para ovinos, tanto no aspecto nutricional como biológico. Com isso, vislumbra-se reduzir o acúmulo destes produtos nas unidades produtoras, mitigando o impacto ambiental e corroborando para a valorização dos ingredientes por meio da sua transformação em proteína animal.

O uso eficiente desse ingrediente poderá proporcionar redução dos custos das dietas destinadas aos animais ruminantes, o que tornaria a atividade mais eficiente do ponto de vista de competitividade e geração de renda. Tendo em vista que o baru, está distribuído por toda a região do Nordeste Goiano, havendo boas quantidades do material na época da maturação dos frutos, e mais importante, na época mais seca do ano.

De acordo com o IBGE (2020), o Brasil possui um rebanho ovino com cerca de 20 milhões de animais distribuídas em todas as regiões geográficas, em grandes concentrações na região Nordeste, sendo considerada uma das maiores produtoras com 14,5 milhões de animais; em segundo a região Sul do país com 3,8 milhões e a região Centro-Oeste com 1 milhão. A exploração de ovinos se torna uma opção viável e rentável não somente para pequenos e médios produtores, mas também para grandes pecuaristas que desejem explorar uma atividade que não exige altos investimentos em infraestrutura e na aquisição de animais, além de apresentar rápido retorno do capital investido.

fruto sem polpa do baru
Fruto sem polpa do baru / Foto: Divulgação

A ovinocultura desempenha um papel socioeconômico crucial, por serem criações de pequeno porte que requerem uma ocupação menor de terras para sua produtividade, que se tornam uma alternativa para pequenas famílias de produtores investirem no setor (MARINO et al., 2016). Sendo considerada uma atividade viável com um grande fator positivo pela facilidade dos animais para se adaptarem em diversas condições ambientes e sistemas de criações variados, a facilidade do sistema produtivo sendo capaz de compreender os fatores de produção que promovem o aumento da produtividade (RIBEIRO et al., 2017).

Para ter-se uma ideia da importância, quantidade e representatividade da produção nacional e distribuição, observe na tabela 1, a evolução anual do efetivo de rebanho ovino (cabeças), do Nordeste Goiano de 2007 a 2016, segundo o IBGE. Em seguida, a representação no gráfico 1.

Tabela 1- Efetivo de rebanho ovino (cabeças), do Nordeste Goiano de 2007 a 2016

Gráfico 1- Representação do Rebanho Ovino (2007-2016) do Nordeste Goiano

De acordo com a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2020, mencionado anteriormente, o Brasil possui um efetivo de rebanho com 20.628.699 de ovinos; sendo o Estado de Goiás responsável por 120.581 e a Chapada dos Veadeiros com 3.591 destes animais. Veja o efetivo na tabela 2; e em seguida, esta porcentagem representada no quadro 1.

Distribuição do rebanho no Brasil

Tabela 2. Efetivo do rebanho ovino, Brasil e Grandes Regiões, 2016 a 2020

Quadro 1- Porcentagem da Produção Nacional (2016- 2020)

Então, como já foi apresentado o efetivo dos animais a nível nacional, regional e municipal, seguimos para uma das microrregiões de Goiás (Chapada dos Veadeiros), para uma melhor compreensão da distribuição da produção ovina. Veja na tabela 3, o efetivo de rebanho ovino (2020).

Tabela 3- Efetivo de Rebanho Ovino (2020) – Chapada dos Veadeiros

A ovinocultura tende a crescer muito em nosso país, pois temos condições climáticas e área suficiente para isso. No entanto, os produtores precisam apostar em modelos de gestão moderna e atualização de tecnologias. O mercado já aponta a direção para onde vai o consumo interno.

Além de todos os resíduos das indústrias alimentícias principalmente de bebidas, que podem ser utilizados como alimentos para ruminantes; também pode-se utilizar o baru para tal objetivo. O baru é uma das espécies nativas do Cerrado, cuja coleta do fruto traz renda para os extrativistas; atividade muito relevante de conservação e valorização comercial, tanto das castanhas, quanto da polpa e do endocarpo. Os subprodutos do baru vêm como uma alternativa econômica e sustentável para alimentação dos ovinos, pois o produtor pode coletá-lo no cerrado e fazer o processamento da polpa sem gastar tanto dinheiro com ração e suplementos alimentares.

O Nordeste Goiano é uma região que está dentro do Bioma Cerrado, onde o baru prevalece ao longo do território. Esta boa quantidade de árvores nativas permite grande importância econômica à região. Pois sua madeira é altamente durável; mas está prática é insustentável se não for por meio da implantação de plantio comercial: sendo viável apenas à coleta dos frutos na época da maturação, que procede exatamente nos meses mais secos do ano, representando grande vantagem e importância para alimentação animal.

Os extrativistas buscam um meio de aumentar a renda familiar em época de coleta dos frutos do baru. Este, após quebrado, retira-se a castanha; onde será torrada e vendida em feiras livres, com valor médio (2022) de R$80,00 o litro. Já o subproduto (polpa), é utilizada na alimentação de animais. E ainda tem a questão da preservação da árvore, que serve de sombra para que os animais possam descansar e se proteger.

Diante deste cenário objetiva-se referenciar a produção de ovinos, com o uso de subprodutos do baru na alimentação, para suprir a exigência nutricional dos animais, principalmente em época crítica do ano em que a forrageira diminui seu poder de rebrota.

Após a retirada da castanha do baru, os excedentes são descartados. Estes, no caso da polpa, é uma ótima alternativa para alimentação de animais por ser energético (com menos de 18% de fibra e menos de 20% de PB), e também proteico (com mais de 20% de PB), para a torta.

Considerações Finais

Os resíduos e coprodutos podem ser uma alternativa para a redução dos custos na pecuária, seja de corte ou de leite. E, além de diminuir os gastos com alimentação, haverá um destino sustentável para os restos industriais, tendo em vista que não apresentam competitividade com a utilização na alimentação humana.

Ainda, a insuficiência nacional na oferta de carne ovina, gera um espaço aberto para empreender, em um potencial mercado. É importante levar em consideração a composição bromatológica dos subprodutos, as exigências nutricionais dos animais; para que tenham melhor eficiência alimentar e para manter o peso na estiagem.

Logo, os gastos com alimentação definem o preço final do produto; então, incluir coprodutos na dieta de ruminantes significa economia para o produtor e para o consumidor, que vai encontrar preços menores ao final do processo produtivo; preservando a dignidade do ser humano em ter alimento suficiente para sua sobrevivência; tanto em quantidade, quanto em qualidade.

Ari Santana de Menezes é formado em Tecnologia em Agroecologia (2019) pela Universidade Estadual de Goiás- Campus Campos Belos-GO. Especializando em Produção de Ruminantes- Faculdade Unyleya/DF. Mestrando em Zootecnia pelo Instituto Federal Goiano- Campus Campos Belos-Go.

Orientador: João Rufino Junior – Doutor em Agricultura Tropical, com ênfase em nutrição de ruminantes | Marco Antônio Pereira da Silva – Zootecnista, Mestre em Zootecnia Área de Produção Animal, Doutor em Ciência Animal área de Higiene e Tecnologia de Alimentos.


Referências Bibliográficas

AGUILAR, G. HUITRÓN, C. Application of fed-batch cultures in the production of extracellular pectinases by Aspergillus sp.- Enzyme and Microbial Technology, Volume 8, Issue 9, 1986, Pages 541-545, ISSN 0141-0229. Disponível emhttps://doi.org/10.1016/0141-0229(86)90038-4. Acesso em 30/06/2022.

Darós, João. Junior, Malaquias. Silva, Janmilly Veloso. Sustentabilidade da produção de bovinos de corte em pastagens sob manejo rotacionado 2018. Disponível em http://repositorio.aee.edu.br/jspui/handle/aee/1009. Acesso em 30/06/2022.

EMBRAPA CAPRINOS E OVINOS. Centro de Inteligência e Mercado de Caprinos e Ovinos. Produção Nacional. Disponível em: https://www.embrapa.br/cim-inteligencia-e-mercado-de-caprinos-e-ovinos/producao-nacional. Acesso em 30/06/2022.

IBGE. Pesquisa da Pecuária Municipal. Tabela 74: Produção de origem animal, por tipo de produto. [Rio de Janeiro, 2021a]. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/74. Acesso em: 06 jul. 2022

IBGE. Sistema IBGE de Recuperação Automática– SIDRA. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/3939#resultado. Acesso em: 30 de junho de 2022. 

Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. Ovinocultura: criação e manejo de ovinos de corte / Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. – Brasília: Senar, 2019. 92p; il. 21 cm (Coleção Senar, 265)

MARINO, R., ATZORI, A.S., D’ANDREA, M., IOVANE, G., TRABALZA-MARINUCCI, M., RINALDI, L. Climat e Change: Production performance, health issues, greenhouse gas emissions  and  mitigantion strategies  in  sheep  and  goat  farming. Small Ruminant Research, v.135, p.50-59, 2016.

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. AGROSTAT- Disponível em: <https://indicadores.agricultura.gov.br/agrostat/index.htm. Acesso: 30/06/2022.

Sano, Sueli Matiko. Baru: biologia e uso / Sueli Matiko Sano, José Felipe Ribeiro, Márcia Aparecida de Brito. – Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2004. 52 p.— (Documentos / Embrapa Cerrados, ISSN 1517-5111; 116)

Tavares, Valquíria Barco et al. Utilização do resíduo líquido de indústria de processamento de suco de laranja como meio de cultura de Penicillium citrinum: depuração biológica do resíduo e produção de enzima. Química Nova [online]. 1998, v. 21, n. 6 [Acessado 30 Junho 2022], pp. 722-725. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0100-40421998000600010. Epub 10 Abr 2001. ISSN 1678-7064.

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