Pesquisa realizada em sistemas de produção no Sudeste brasileiro mostra que estrutura e valor nutricional da forragem ajudam a explicar o desempenho de novilhos Nelore e reforça que produzir muito capim, sozinho, não garante maior ganho animal
A relação entre altura do pasto e ganho do Nelore ganhou novos dados científicos. Pesquisa conduzida por especialistas ligados à Universidade de São Paulo (USP), Embrapa Pecuária Sudeste e Texas A&M University encontrou o melhor desempenho estimado em pastagens com 25 a 35 centímetros de altura antes do pastejo, dentro das condições analisadas. Tanto estruturas mais baixas quanto mais altas foram associadas a respostas inferiores dos animais.
Publicado em 29 de setembro de 2026 no Journal of Animal Science, o estudo investigou como características físicas e nutricionais da forragem se relacionam com o desempenho de novilhos Nelore em cinco sistemas tropicais de produção. Além da altura, os pesquisadores encontraram associações relevantes com a quantidade de matéria seca disponível, o teor de proteína bruta e a proporção de folhas no pasto. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Altura do pasto e ganho do Nelore: o que a pesquisa encontrou
O trabalho analisou dados obtidos em experimento conduzido na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), entre setembro de 2019 e setembro de 2021. Foram comparados cinco sistemas com diferentes níveis de intensificação.
A pesquisa incluiu uma pastagem degradada manejada extensivamente, um sistema silvipastoril intensificado, duas pastagens intensificadas de sequeiro com diferentes níveis de adubação e um sistema irrigado de alta intensificação, com sobressemeadura de aveia e azevém durante a estação seca.
As áreas também não utilizavam uma única forrageira. Entre os sistemas estavam pastagens com Urochloa decumbens cv. Basilisk, Urochloa brizantha cv. Marandu e Megathyrsus maximus cv. Tanzânia, além da combinação de espécies de inverno no sistema irrigado.
Essa diferença é importante para interpretar corretamente o resultado dos 25 a 35 centímetros.
O modelo estatístico identificou uma relação quadrática entre a altura do dossel antes do pastejo e o desempenho animal. A resposta aumentou até uma condição intermediária, alcançando o ponto de maior desempenho estimado entre 25 e 35 cm, e diminuiu nos extremos de altura.
Isso não significa que o produtor deva manejar qualquer capim brasileiro dentro dessa faixa. Espécies como braquiárias e cultivares do grupo dos panicuns apresentam estruturas diferentes e possuem recomendações próprias de manejo. A pesquisa mostra uma associação encontrada no conjunto experimental, e não uma nova regra geral para entrada dos animais no pasto.
Na prática, a altura continua sendo um indicador útil para orientar decisões de manejo. O momento de entrada dos animais interfere na estrutura disponível para consumo e também na capacidade de recuperação da planta, questão especialmente relevante no primeiro pastejo e na formação da pastagem.
Até 9 mil kg de matéria seca por hectare, mais forragem favoreceu o desempenho
A quantidade de forragem disponível apresentou uma das relações mais fortes encontradas pelos pesquisadores.
O desempenho aumentou conforme a massa de forragem antes do pastejo avançou até aproximadamente 9.000 kg de matéria seca por hectare. Depois desse ponto, o benefício adicional começou a se estabilizar.
O número não deve ser interpretado como meta obrigatória de produção para qualquer propriedade. Ele representa o comportamento estatístico observado dentro dos sistemas analisados.
O resultado, porém, ajuda a explicar um princípio importante do manejo: pouca disponibilidade de forragem pode restringir a quantidade que o bovino consegue consumir, enquanto simplesmente acumular capim indefinidamente não significa obter aumento proporcional de desempenho.
A estrutura desse material também importa.
Entre as características avaliadas, a proporção de folhas antes do pastejo apresentou relação linear positiva com o desempenho. Dentro da amplitude observada no experimento, pastos com maior participação de folhas favoreceram a resposta dos animais.
Folhas são justamente a parte da planta mais selecionada pelo bovino durante o pastejo. Por isso, quantidade de matéria seca e composição estrutural precisam ser consideradas em conjunto.
Essa relação entre disponibilidade, estrutura vegetal e consumo está no centro do manejo dos diferentes sistemas de pastagens utilizados na pecuária.
Proteína bruta entre 9% e 10% apareceu associada à melhor resposta
A composição nutricional da forragem trouxe outro resultado relevante.
O teor de proteína bruta apresentou comportamento não linear, e o melhor desempenho estimado ocorreu quando a forragem estava próxima de 9% a 10% de proteína bruta.
Novamente, o intervalo não deve ser tratado como exigência nutricional universal do Nelore.
As necessidades dos animais variam de acordo com peso, idade, estágio produtivo, potencial de ganho, consumo total, digestibilidade da dieta e suplementação. O resultado mostra apenas que, no conjunto de observações analisado, essa faixa esteve associada ao ponto de melhor resposta do modelo.
A própria pesquisa anterior realizada com os mesmos sistemas ajuda a contextualizar esse resultado. Artigo publicado na Livestock Science em 2025 mostrou que os sistemas intensificados e bem manejados apresentaram maior consumo de matéria seca de forragem e desempenho superior, enquanto disponibilidade e qualidade do pasto sofreram influência da estação do ano.
Isso também reforça por que a suplementação de bovinos durante o período das águas deve ser definida levando em conta a qualidade e a disponibilidade da forragem existente na propriedade.
Inverno derrubou o desempenho em parte dos sistemas
A sazonalidade foi outro componente importante dos resultados.
O sistema intensivo irrigado, com alta lotação e sobressemeadura durante o período seco, conseguiu manter desempenho mais uniforme entre as estações. Nos demais sistemas avaliados, houve redução acentuada durante o inverno.
No inverno, os sistemas de pastagem degradada e silvipastoril chegaram a apresentar ganho negativo no indicador de desempenho utilizado pela pesquisa.
Esse resultado exige interpretação cuidadosa. Ele não demonstra que sistemas silvipastoris, por definição, provoquem perda de peso. O dado se refere especificamente ao sistema silvipastoril estudado, sob aquelas condições de clima, manejo, solo e disponibilidade de forragem.
A queda sazonal também aparece em trabalhos anteriores derivados do mesmo experimento.
No artigo publicado em 2025 na Livestock Science, os pesquisadores observaram redução do desempenho durante o período seco na maior parte dos tratamentos. Os sistemas intensificados de pastagem irrigada e de sequeiro mais produtivos mostraram maior capacidade de enfrentar a redução de disponibilidade causada pela seca e pela sazonalidade.
A dissertação de Rolando Pasquini Neto, defendida na USP em 2022, também registrou períodos de déficit hídrico intenso durante o experimento e relacionou os melhores resultados aos sistemas que conseguiram manter maior produção e qualidade da forragem.
O estudo comparou desde pastagem degradada até sistema irrigado
A amplitude dos sistemas avaliados é um dos pontos que tornam a pesquisa particularmente interessante para a pecuária tropical.
Na extremidade de menor intensificação estava uma pastagem degradada sem adubação nitrogenada. No outro extremo, o sistema irrigado recebia 600 kg de nitrogênio por hectare ao ano, utilizava capim-tanzânia e recebia sobressemeadura de aveia e azevém durante a estação seca.
Entre eles estavam o sistema silvipastoril e duas pastagens intensificadas de sequeiro.
O experimento utilizou ainda ajuste de lotação com animais reguladores, técnica conhecida como put-and-take, para aproximar a pressão de pastejo da capacidade de suporte das áreas.
No estudo completo publicado em 2025, o manejo também considerava alturas residuais específicas para diferentes sistemas. Isso reforça um ponto que precisa ficar claro: a faixa de 25 a 35 cm encontrada na nova análise não substitui as alturas de manejo recomendadas para cada cultivar.
Ela representa uma relação estatística entre a estrutura observada no conjunto das pastagens e o desempenho dos animais.
O que o pecuarista pode levar do estudo para a fazenda?
A principal aplicação prática não é pegar uma régua e transformar 30 centímetros em um número obrigatório para todas as pastagens.
O resultado mais útil é outro: medir e acompanhar a estrutura do pasto fornece informações que ajudam a explicar o desempenho do rebanho.
No estudo, os melhores resultados não dependeram de uma única variável. Eles apareceram associados à combinação entre altura intermediária, disponibilidade de forragem, maior participação de folhas e qualidade nutricional.
Isso significa que duas áreas visualmente verdes podem oferecer condições bastante diferentes para os animais.
Um pasto pode apresentar volume elevado, mas acumular estrutura menos favorável ao consumo. Outro pode ter boa qualidade nutricional, porém pouca massa disponível. Há ainda situações em que a estrutura é adequada durante as águas, mas se deteriora rapidamente quando começa o período seco.
Para transformar a medição de altura em decisão de manejo, o produtor precisa considerar pelo menos a cultivar utilizada, sistema de pastejo, lotação, fertilidade do solo, disponibilidade hídrica, estação do ano e categoria animal.
Produzir mais capim não basta
A pesquisa acrescenta evidências a uma discussão central da pecuária brasileira: produtividade a pasto não depende apenas de quantas toneladas de forragem uma área consegue produzir.
O que o animal efetivamente encontra, seleciona e consome também determina quanto desse potencial será convertido em desempenho.
Nos sistemas avaliados, maior disponibilidade de forragem favoreceu a resposta até determinado ponto, enquanto maior participação de folhas permaneceu positivamente associada ao desempenho. Ao mesmo tempo, altura excessivamente baixa ou elevada esteve relacionada a resultados inferiores.
Para o pecuarista, a mensagem é prática. Altura, massa e qualidade do pasto precisam ser observadas juntas.
Os 25 a 35 centímetros encontrados pela pesquisa oferecem uma referência científica interessante sobre a relação entre estrutura da pastagem e desempenho de novilhos Nelore nas condições estudadas. Antes de levar esse número diretamente ao manejo da fazenda, porém, é necessário verificar a recomendação específica da forrageira utilizada.
Mais do que estabelecer uma nova altura padrão para a pecuária tropical, o estudo reforça que manejar corretamente a interface entre solo, planta e animal continua sendo decisivo para transformar capim em ganho de peso.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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