Qual touro usar na vacada? IA começa a responder essa pergunta com dados genéticos

Brangus+ IA, desenvolvida pela Embrapa Pecuária Sul em parceria com a Associação Brasileira de Brangus, permite consultar avaliações genéticas em linguagem natural e transforma DEPs e outros indicadores em respostas, tabelas e gráficos para apoiar a seleção de reprodutores

Escolher qual touro usar na vacada exige cruzar objetivos produtivos com uma quantidade crescente de informações sobre genética, desempenho e carcaça. Uma ferramenta desenvolvida pela Embrapa Pecuária Sul agora tenta encurtar esse caminho: a Brangus+ IA permite consultar a base de avaliação genética da raça Brangus por meio de perguntas escritas de forma comum, sem exigir que o usuário domine comandos de banco de dados.

Na prática, a inteligência artificial funciona como uma nova porta de entrada para informações que já fazem parte do programa de melhoramento. O pecuarista pode estabelecer características de interesse, buscar determinados grupos de reprodutores e receber os resultados organizados para análise. A tecnologia não cria uma genética nova nem transforma um animal automaticamente na melhor escolha para qualquer rebanho: ela facilita a exploração dos dados disponíveis. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

IA muda a forma de pesquisar touros, não a lógica do melhoramento

A diferença principal está na maneira de chegar à informação. Tradicionalmente, a seleção genética exige que o criador ou técnico consulte sumários, tabelas, rankings e diferentes indicadores para comparar animais. No Brangus+, por exemplo, existem listas de touros ordenadas por características como peso ao nascer, peso à desmama, peso ao sobreano, perímetro escrotal e medidas relacionadas à carcaça.

Com a inteligência artificial, parte desse trabalho de busca pode ser feita por meio de uma pergunta.

Segundo Henry Gomes de Carvalho, analista da Embrapa Pecuária Sul e desenvolvedor do sistema, a ferramenta interpreta a solicitação feita pelo usuário e transforma a consulta em uma pesquisa na base. Os resultados podem ser apresentados em texto, tabela ou gráfico. Entre os exemplos apresentados publicamente está a procura pelos touros com melhores DEPs para peso à desmama.

Isso pode tornar o acesso à informação mais simples principalmente para quem ainda não tem familiaridade com a leitura dos sumários.

A tecnologia também amplia a possibilidade de realizar consultas com mais de um critério. Conforme a apresentação técnica divulgada pela Embrapa à CNN Brasil, é possível estabelecer filtros combinando características e até simular resultados genéticos de determinados acasalamentos.

Esse ponto diferencia a ferramenta de uma simples busca por nome de animal ou posição em ranking.

O que são as DEPs que a Brangus+ IA consulta?

Boa parte dessas decisões passa pelas DEPs — Diferenças Esperadas na Progênie. Segundo a Embrapa Gado de Corte, a DEP estima a diferença esperada na média dos descendentes de determinado animal em comparação com a progênie de outros animais utilizados como referência dentro daquela avaliação genética.

Na prática, o indicador permite comparar o potencial de transmissão genética dos reprodutores para características específicas.

O ponto fundamental é que uma DEP não deve ser interpretada isoladamente como uma nota geral do touro.

Peso ao nascer, crescimento, reprodução e características de carcaça representam objetivos diferentes. Um animal interessante para uma fazenda pode não ser a opção mais adequada para outra que tenha metas, matrizes e sistema de produção distintos.

A própria Embrapa lembra ainda que a DEP é uma estimativa e pode mudar à medida que novas informações sobre o animal e sua progênie entram na avaliação. Touros com maior quantidade de informações e maior acurácia tendem a apresentar estimativas mais estáveis.

O tema já apareceu no Compre Rural ao abordar os critérios usados para escolher os touros que serão utilizados na vacada, especialmente a necessidade de analisar genética, acurácia e objetivo de seleção.

Brangus+ reuniu avaliações que antes estavam separadas

A inteligência artificial só consegue trabalhar dessa maneira porque existe uma base organizada por trás da ferramenta.

O Brangus+ é o programa oficial de avaliação genética da Associação Brasileira de Brangus. Sua implantação reuniu informações que já eram produzidas em diferentes programas utilizados pelos criadores.

No lançamento realizado em 2023, a ABB informou que a plataforma consolidava dados provenientes de ERBra, Geneplus, Promebo e Natura. Naquele momento, a base reunia mais de 66 mil animais avaliados.

Em 2024, a edição seguinte já trabalhava com informações de 79.890 animais, segundo divulgação oficial da associação.

No Sumário Brangus+ 2025/2026, a Embrapa confirmou a continuidade da integração entre os quatro principais programas e informou avanço de 20% no número de animais genotipados em relação ao ano anterior, além da ampliação das informações ligadas à carcaça.

A edição 2026/2027 foi apresentada pela ABB durante a Expointer de 2026. A entidade também chamou atenção, na mesma divulgação, para a ferramenta de inteligência artificial que facilita a consulta às informações do programa.

Genômica aumenta a quantidade de informação disponível

Outro componente importante dessa evolução é a incorporação de dados genômicos.

O Sumário Brangus+ utiliza avaliações aprimoradas pela genômica, combinando informações para características de interesse econômico ligadas a desempenho, crescimento, reprodução e carcaça.

Em avaliações desse tipo, informações de DNA podem ser utilizadas junto com dados de pedigree e desempenho dos animais para melhorar as estimativas genéticas.

A lógica não é exclusiva do Brangus. A Embrapa explica que avaliações genômicas podem combinar informações de marcadores genéticos, fenótipos e genealogia para gerar DEPs. Essas estimativas continuam sendo comparações dentro do contexto da avaliação genética em que foram calculadas.

Quanto maior e mais detalhada se torna a base, porém, mais trabalhoso também pode ser encontrar manualmente as combinações de interesse. É justamente nessa etapa de consulta que a inteligência artificial entra.

O avanço das ferramentas computacionais utilizadas no melhoramento bovino já vinha sendo acompanhado pelo Compre Rural, como na atualização do software Intergen para avaliações genéticas.

Então a IA já escolhe o melhor touro para cada vaca?

Não exatamente. A ferramenta pode pesquisar a base, aplicar critérios e ajudar a comparar ou simular alternativas. Mas a pergunta “qual é o melhor touro?” continua dependendo do problema que o produtor pretende resolver.

Uma fazenda pode querer reduzir peso ao nascer. Outra pode buscar maior desempenho na desmama. Uma terceira pode priorizar características de carcaça ou reprodução.

Por isso, o maior ganho da Brangus+ IA tende a aparecer quando o pecuarista consegue formular bem seu objetivo de seleção.

Há ainda aspectos que não devem ser ignorados em uma estratégia completa de acasalamento, como características das matrizes, manejo, ambiente, nível de parentesco entre os animais e equilíbrio entre diferentes critérios de seleção.

Isso evita uma interpretação perigosa: a de que a inteligência artificial passou a substituir o planejamento genético.

Ela atua, principalmente, tornando uma base técnica complexa mais acessível e permitindo que o produtor chegue mais rapidamente aos animais que deseja analisar.

A discussão sobre o uso criterioso dessas informações também aparece na matéria do Compre Rural sobre avaliações genéticas e interpretação de DEPs.

Ferramenta aproxima IA de uma decisão que acontece dentro da fazenda

A novidade chama atenção justamente por levar a inteligência artificial para uma decisão extremamente concreta da pecuária.

Não se trata apenas de usar IA para resumir documentos ou responder perguntas genéricas sobre criação de gado. A ferramenta foi direcionada a uma base específica de avaliação genética e permite trabalhar com informações utilizadas na seleção dos animais.

A página oficial da Associação Brasileira de Brangus já apresenta a Brangus IA dentro da área dedicada ao Brangus+, enquanto a programação técnica da Embrapa Pecuária Sul identifica explicitamente a Ferramenta Brangus+IA entre suas tecnologias de melhoramento genético.

Para o pecuarista, isso pode significar menos tempo procurando informações espalhadas em tabelas e mais facilidade para transformar uma dúvida objetiva em uma lista de animais que merecem análise.

A decisão genética continua exigindo critério. O que começa a mudar é a velocidade com que o produtor consegue chegar aos dados necessários para tomá-la.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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