Mineiro de Ituiutaba, Zé Humberto dedicou mais de seis décadas à seleção genética, construiu na Fazenda Camparino uma das marcas tradicionais da pecuária brasileira e deixou sua genética espalhada por rebanhos dentro e fora do país
Há pecuaristas que constroem fazendas. Outros constroem rebanhos. José Humberto Vilela Martins conseguiu transformar décadas de observação, seleção e experiência prática em uma genética reconhecida nacionalmente.
Conhecido simplesmente como Zé Humberto, o criador morreu neste domingo, 16 de agosto, aos 84 anos, deixando uma trajetória que ajuda a contar também parte da modernização da pecuária zebuína brasileira. A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) o classificou como um dos mais importantes pecuaristas do país e destacou seus mais de 60 anos dedicados ao melhoramento do Zebu.
Mas entender quem foi José Humberto exige voltar muito antes dos grandes leilões, das avaliações genéticas modernas e dos touros milionários que posteriormente carregariam a marca Camparino.
Sua história começou em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, dentro de uma família ligada à produção rural. Foi ali, convivendo desde cedo com o gado, que começou a formar aquilo que décadas depois se tornaria sua principal característica como selecionador: a capacidade de olhar para um animal e enxergar além de sua aparência.
Aos 20 anos, começou a construir seu próprio rebanho Zebu
José Humberto vinha de uma família de pecuaristas. Seu avô e seu pai trabalhavam essencialmente com gado de corte, mas o jovem criador decidiu seguir um caminho que mudaria sua trajetória.
Por volta dos 20 anos, começou a formar um rebanho puro de Zebu.
A escolha aconteceu em uma época muito diferente da pecuária atual. Não existiam as ferramentas genômicas, os enormes bancos de dados ou a facilidade de reprodução proporcionada pela FIV que hoje fazem parte da rotina dos principais criatórios.
Boa parte da seleção passava pela observação.
E José Humberto aprendeu a observar.
Em entrevistas concedidas décadas depois, ele lembrava que o melhoramento era feito inicialmente muito mais pelo “olho” do criador. Com o avanço da ciência, passou a incorporar avaliações e programas de melhoramento, mas nunca abandonou a análise visual e funcional dos animais.
Esse equilíbrio se tornaria uma espécie de filosofia da Camparino.
Antes de Mato Grosso, veio Goiás
A trajetória não foi construída em um único lugar.
Depois das raízes em Minas Gerais, José Humberto desenvolveu parte de seu trabalho na Fazenda Mandengo, em Quirinópolis (GO).
Foi também durante essa caminhada que teve contato com ferramentas que ajudariam a modificar sua forma de selecionar. A própria ABCZ registra a influência do criador Cláudio Carvalho, que apresentou a José Humberto o Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore. A partir dali, avaliações objetivas passaram a dividir espaço com o conhecimento acumulado no curral.
Era exatamente essa combinação que ele defenderia durante o restante da vida.
Número importava.
Mas o animal precisava funcionar.
A chegada ao Mato Grosso e a construção da Camparino
O capítulo definitivo dessa história seria escrito em Cáceres (MT), na região do Pantanal.
Registros da ABCZ apontam que José Humberto passou a atuar na Fazenda Camparino em 1993. A própria história da família, porém, remonta a relação de José Humberto e sua esposa, Edilza, com a pecuária na região desde os anos 1960.
Foi na Camparino que décadas de seleção ganharam uma identidade própria.
A fazenda passou a trabalhar com Nelore, Nelore Mocho, Gir Leiteiro e Sindi, além de cavalos Quarto de Milha. O Nelore, entretanto, se transformaria no grande cartão de visitas do criatório.
A propriedade adotou um lema que resume bem a maneira de pensar de seu fundador:
“O Zebu que paga a conta.”
Não era apenas uma frase de marketing.
Por trás dela estava a ideia de que um animal de seleção precisava entregar resultado dentro de uma fazenda comercial.
Bonito, sim. Mas funcional
José Humberto nunca escondeu que gostava de animais bonitos.
Mas beleza sozinha não resolvia.
Sua concepção de Zebu passava por características fundamentais para a produção tropical: fertilidade, precocidade, produtividade e rusticidade.
Essa visão ganhou relevância justamente porque José Humberto atravessou diferentes momentos da seleção brasileira.
Ele viu uma pecuária na qual muitos bovinos eram abatidos já erados e acompanhou sua transformação até sistemas capazes de produzir machos jovens, pesados e terminados. Em seus últimos anos, resumiria essa evolução em três pilares: genética, pastagem e nutrição.
E fazia uma ressalva importante aos criadores mais novos.
A tecnologia não deveria substituir o pecuarista.
Em uma de suas falas mais conhecidas sobre seleção, defendia que depender exclusivamente de números poderia levar o criador a perder características importantes do rebanho. Para Zé Humberto, avaliação genética e observação prática precisavam caminhar juntas.
A Camparino ganhou escala
O resultado dessa filosofia apareceu dentro e fora das pistas.
Em 2019, dados publicados sobre a propriedade mostravam um rebanho de aproximadamente 4.500 animais entre reprodução e corte, com produção anual de cerca de 600 tourinhos e 450 fêmeas PO e índice médio de prenhez de 85% durante a estação de monta.
Poucos anos depois, a intensidade do trabalho genético ficaria ainda mais evidente.
Em 2022, a Camparino possuía aproximadamente 550 matrizes Nelore PO e 170 fêmeas Sindi selecionadas. Na estação de monta citada naquele levantamento, haviam sido produzidas 1.500 prenhezes por fertilização in vitro (FIV).
Era a pecuária que Zé Humberto conheceu “no olho” operando agora com biotecnologia reprodutiva em grande escala.
Talvez nenhuma imagem explique tão bem a transformação que ele viveu.
Calibre: genética Camparino chega ao mercado
Entre os animais que ajudaram a projetar o trabalho desenvolvido na propriedade está Calibre FIV Camparino.
Nascido em setembro de 2015 e criado por José Humberto, o Nelore ganhou forte espaço no mercado de genética.
Somente em 2019, aproximadamente 19 mil doses de sêmen de Calibre foram comercializadas, movimentando cerca de R$ 2 milhões, segundo registros da própria Camparino.
É um número que ajuda a explicar algo fundamental sobre o legado de um selecionador.
Um grande touro não permanece apenas na fazenda onde nasceu.
Por meio da inseminação artificial, milhares de filhos podem nascer em diferentes regiões. A genética construída durante décadas passa a circular pelo rebanho nacional.
E foi assim que a marca Camparino ultrapassou as porteiras de Cáceres.
Ford FIV Camparino chegou aos R$ 2,64 milhões
Outro símbolo viria alguns anos depois.
Na ExpoZebu de 2023, Ford FIV Camparino foi valorizado em R$ 2,64 milhões. A própria fazenda o apresentou à época como uma das maiores expressões já produzidas por sua seleção.
O que tornava o animal especialmente representativo era justamente a combinação perseguida por José Humberto: beleza racial, precocidade, produtividade, carcaça moderna e equilíbrio nas avaliações genéticas.
Ou seja, não se tratava apenas de produzir o animal mais pontuado.
Tratava-se de tentar produzir um Zebu completo.
O reconhecimento da ABCZ
O trabalho também recebeu uma das principais distinções da pecuária zebuína brasileira.
Em 2013, José Humberto recebeu o Mérito ABCZ, homenagem destinada a personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da atividade.
Sua ligação com a entidade era antiga.
Associado da ABCZ desde 1975, tornou-se presença frequente nas pistas do Parque Fernando Costa, em Uberaba, e nos debates envolvendo os rumos da seleção do Zebu brasileiro.
Não por acaso, após sua morte, a própria entidade destacou que o legado do criador continuará presente na genética de rebanhos brasileiros e também de países importadores do Zebu nacional.
Não era apaixonado apenas por Nelore
A imagem de José Humberto ficou fortemente associada ao Nelore, mas sua paixão pelos animais era muito mais ampla.
Ele próprio dizia gostar de porcos, galinhas, burros, cavalos, Gir Leiteiro, Nelore e Sindi.
Na Camparino, além dos bovinos, manteve criação de cavalos Quarto de Milha.
O Sindi também ganhou espaço importante.
José Humberto esteve entre os selecionadores tradicionais de Nelore que passaram a apostar na raça, e a Camparino desenvolveu durante anos um trabalho próprio com o Sindi. A Associação Brasileira dos Criadores de Sindi destaca aproximadamente duas décadas dessa seleção dentro do projeto.
Era uma característica de quem parecia enxergar a criação animal como algo maior do que simplesmente um negócio.
A sucessão começou antes da despedida
Talvez uma das decisões mais importantes de José Humberto tenha acontecido longe dos holofotes dos grandes leilões.
Ele começou a preparar a continuidade.
Os netos Natália e Mateus passaram a acompanhar diretamente o trabalho do avô e a aprender a condução da propriedade. Em entrevista, José Humberto dizia considerar uma alegria tê-los ao seu lado e manifestava o desejo de que o trabalho iniciado décadas antes continuasse pelas mãos deles.
A sucessão também envolvia sua equipe.
O pecuarista relatava ter funcionários que chegaram ainda jovens à propriedade e permaneceram por mais de duas décadas. Sua preocupação era construir relações que permitissem à fazenda manter conhecimento e pessoas ao longo do tempo.
Isso ajuda a entender por que falar de Camparino nunca significou falar apenas de animais.
Era um projeto construído para atravessar gerações.
Quem foi José Humberto Vilela Martins?
José Humberto foi um daqueles personagens que tiveram a oportunidade rara de acompanhar praticamente uma revolução inteira dentro de sua própria atividade.
Começou quando a seleção dependia fortemente da experiência transmitida entre gerações.
Viu surgirem os programas de melhoramento.
Acompanhou a popularização das DEPs.
Incorporou reprodução assistida.
Produziu animais avaliados geneticamente.
Viu touros de sua marca alcançarem centrais de inseminação, grandes leilões e milhares de rebanhos.
E, mesmo cercado por tecnologia, continuou defendendo algo extremamente simples: o pecuarista precisava olhar para o gado.
José Humberto morreu aos 84 anos, neste domingo (16). O velório foi realizado em sua cidade natal, Ituiutaba, e o sepultamento está marcado para esta segunda-feira (17), às 10h, no Cemitério São José. A causa da morte não havia sido divulgada até a publicação das informações consultadas.
Ele deixa, entretanto, uma medida de legado pouco comum na pecuária.
Não apenas os mais de 60 anos de seleção. Nem somente os milhões movimentados por animais de sua criação.
O legado de Zé Humberto pode ser encontrado em uma genética que saiu de Cáceres para milhares de currais e na ideia de que o verdadeiro melhoramento só acontece quando números, funcionalidade e experiência de campo apontam para a mesma direção.
Foi assim que um jovem de uma família pecuarista de Ituiutaba se tornou Zé Humberto da Camparino — um nome reconhecido por diferentes gerações da pecuária brasileira.
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