Reintroduzida nas montanhas da Galícia, a pequena e resistente vaca Cachena consome vegetação inflamável e recupera uma antiga forma de proteger as áreas rurais contra o avanço do fogo
Uma raça bovina quase extinta ganhou uma nova função no campo espanhol. Agricultores da Galícia estão ampliando a criação da vaca Cachena para manejar terrenos montanhosos onde o acúmulo de arbustos e plantas secas aumenta o risco de incêndios florestais.
Pequena, resistente e capaz de se deslocar por áreas íngremes, a Cachena consegue alcançar locais onde máquinas agrícolas e bovinos de maior porte têm dificuldade para operar. Ao consumir a vegetação rasteira, o animal contribui para reduzir a quantidade de material disponível para alimentar as chamas.
A iniciativa recupera uma prática tradicional da pecuária extensiva em um momento de preocupação crescente com os incêndios na Europa. Em 2026, mais de 77 mil hectares foram atingidos pelo fogo na Espanha, em meio a períodos de calor intenso e baixa umidade.
Raça bovina quase extinta retorna ao campo espanhol
Conhecida como “vaca-cabra”, a Cachena é considerada a menor raça bovina da Península Ibérica. O apelido faz referência ao tamanho reduzido, aos chifres alongados e à facilidade com que o animal circula pelas montanhas.
Durante décadas, a raça perdeu espaço com a modernização da pecuária e a substituição de animais nativos por rebanhos mais voltados à produção intensiva. Paralelamente, muitas propriedades foram abandonadas com a saída de moradores das áreas rurais.
A expansão de plantações de pinheiros e eucaliptos também modificou a paisagem da Galícia. Sem manejo frequente, diferentes espécies de arbustos passaram a ocupar os terrenos, formando áreas vulneráveis à rápida propagação do fogo.
O problema ganhou atenção após um incêndio atingir a comunidade de Vincios, em 2017. A partir daquele episódio, associações locais retomaram o uso de vacas, cabras e ovelhas para conservar as áreas rurais.

Pastoreio ajuda no controle das áreas de risco
A presença dos animais funciona como uma forma contínua de manutenção do terreno. Em vez de retirar completamente a cobertura vegetal, o rebanho consome o excesso de plantas e mantém a paisagem em condições mais favoráveis ao controle do fogo.
A rusticidade da Cachena permite que o animal se alimente de diferentes espécies vegetais, inclusive em encostas rochosas e pontos de difícil acesso. Essa característica reduz a dependência exclusiva de roçadeiras, tratores e equipes de limpeza manual.
O método não impede sozinho a ocorrência de incêndios, mas pode diminuir a intensidade das chamas e facilitar o trabalho das equipes de emergência. Para alcançar resultados mais eficientes, o pastoreio deve ser combinado com aceiros, monitoramento, podas e manejo florestal.
Recuperação da Cachena avança na Galícia
A estratégia ambiental também favoreceu a conservação genética da raça. Segundo a associação regional BOAGA, a população de animais nativos acompanhada na Galícia passou de pouco mais de 1.800 exemplares no fim da década de 1990 para mais de 30 mil no início de 2026.
Entre os bovinos Cachena, o avanço foi de aproximadamente 400 para cerca de 8 mil animais. O crescimento foi apoiado por iniciativas de reprodução e por incentivos destinados à permanência de fêmeas jovens nas propriedades.
Com a valorização da raça, produtores encontraram novas razões econômicas e ambientais para continuar a criação. Além de fornecer carne e movimentar pequenas propriedades, a Cachena passou a integrar projetos de preservação da paisagem rural.
Raça bovina quase extinta recebe monitoramento por GPS
Alguns rebanhos utilizados no manejo das montanhas circulam com coleiras de GPS. A tecnologia permite acompanhar a localização dos animais e organizar o pastoreio sem depender apenas de cercas convencionais.
O monitoramento ajuda os criadores a identificar quais áreas foram percorridas e onde ainda existe vegetação em excesso. Também facilita a localização de animais dispersos em terrenos extensos.
A adoção das coleiras mostra como uma prática antiga pode ser aprimorada com recursos modernos. A pecuária extensiva permanece responsável pelo manejo, enquanto a tecnologia oferece maior controle sobre a movimentação do rebanho.
Raça nativa assume papel estratégico contra o fogo
O retorno da Cachena demonstra que a conservação de raças locais pode gerar benefícios para além da produção pecuária. Adaptado às condições da Galícia, o animal passou a contribuir para a ocupação produtiva de áreas abandonadas e para a redução dos custos de manutenção do campo.
A experiência espanhola também reforça a importância de soluções integradas. O uso de rebanhos não substitui políticas de prevenção, fiscalização e resposta rápida, mas pode complementar essas ações em regiões onde a vegetação cresce de forma descontrolada.
Ao recuperar uma raça que esteve próxima de desaparecer, agricultores da Galícia transformaram um patrimônio genético em ferramenta de manejo territorial. A pequena vaca Cachena voltou às montanhas não apenas como símbolo da pecuária tradicional, mas como parte de uma estratégia de adaptação aos incêndios florestais.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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