Sem energia, avicultor passa a noite com maçaricos e salva 400 pintinhos em Minas

Temporal deixou uma propriedade rural de Uberaba sem eletricidade e comprometeu o aquecimento das aves. Produtor improvisou uma solução emergencial, mas precisou enfrentar o risco de incêndio dentro do galpão

Uma noite de temporal se transformou em uma corrida contra o frio para o avicultor Pedro Henrique de Oliveira, na comunidade rural de São Basílio, em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Após uma interrupção no fornecimento de energia elétrica, na segunda-feira (2 de novembro), ele precisou recorrer a maçaricos para manter aquecidos 400 pintinhos recém-chegados à propriedade. Segundo o produtor, o esforço evitou a morte das aves e um prejuízo que poderia chegar a R$ 3 mil.

O problema começou depois que uma árvore atingiu a rede elétrica durante a tempestade, conforme informou a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Sem eletricidade, os equipamentos responsáveis pelo aquecimento deixaram de funcionar justamente quando os pintinhos iniciavam sua adaptação ao alojamento. A situação exigiu uma resposta rápida, mas a alternativa encontrada também representava perigo. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Avicultor precisou improvisar para proteger os 400 pintinhos

Pedro havia buscado as aves em Uberlândia naquela mesma tarde. Ao retornar para São Basílio, encontrou uma situação que ameaçava o desenvolvimento inicial do lote: o galpão estava sem a energia necessária para operar o sistema de aquecimento.

A primeira alternativa foi utilizar um maçarico e um botijão de gás que já estavam disponíveis na propriedade. Como os equipamentos não seriam suficientes para atender à situação, o avicultor procurou ajuda na comunidade.

Um vizinho emprestou outro maçarico, enquanto a responsável por uma mercearia abriu o estabelecimento para fornecer mais gás. Com os recursos reunidos, Pedro conseguiu manter uma fonte de calor durante a interrupção elétrica.

O improviso, no entanto, trouxe um problema adicional. O piso do alojamento estava coberto por uma mistura de serragem utilizada como cama das aves, material que pode entrar em combustão quando exposto a chamas ou temperaturas elevadas.

Diante desse risco, o produtor decidiu permanecer no galpão durante a madrugada, acompanhando o funcionamento dos maçaricos.

Apesar do resultado relatado pelo avicultor, o uso improvisado de maçaricos não é uma prática segura ou recomendada para aquecer pintinhos. A chama aberta, a proximidade de materiais combustíveis e a possibilidade de acúmulo de gases perigosos tornam o procedimento especialmente arriscado em instalações fechadas ou com ventilação inadequada.

Por que a falta de aquecimento pode comprometer um lote inteiro?

A necessidade de aquecimento nos primeiros dias está relacionada ao desenvolvimento fisiológico das aves. Pintinhos recém-nascidos ainda não possuem a mesma capacidade de regulação térmica encontrada em animais mais velhos, o que torna a temperatura do alojamento um fator decisivo para seu conforto e sobrevivência.

Segundo orientações técnicas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o ambiente deve ser preparado antes da chegada do lote. Na fase inicial de criação de frangos de corte, a instituição recomenda que a temperatura próxima à cama esteja em torno de 30 °C a 32 °C no dia do alojamento.

O produtor mencionou a necessidade de aproximadamente 37 °C para os animais que havia recebido. Esse número corresponde ao seu relato e não deve ser interpretado como uma recomendação geral, já que a temperatura adequada varia conforme o sistema de criação, a idade das aves e as condições ambientais.

O controle também não depende exclusivamente de um termômetro. A distribuição dos pintinhos dentro do alojamento fornece informações importantes sobre seu conforto.

Quando estão com frio, as aves tendem a se agrupar perto da fonte de calor. Em situações de aquecimento excessivo, procuram se afastar. A distribuição mais uniforme pelo espaço geralmente indica condições mais favoráveis.

Por isso, sistemas adequados de aquecimento precisam funcionar em conjunto com ventilação e monitoramento. Não basta elevar a temperatura: é necessário manter um ambiente equilibrado, com renovação do ar e proteção contra riscos de combustão.

Produtor já havia perdido 200 pintinhos após problemas elétricos

A preocupação de Pedro com a sobrevivência do novo lote tinha um motivo concreto. Em junho de 2026, ele enfrentou outra ocorrência envolvendo falhas no fornecimento de energia.

Na ocasião, conforme relatou ao g1, oscilações elétricas provocaram a queima de duas lâmpadas utilizadas para aquecimento. O problema terminou com a morte de 200 pintinhos.

O impacto financeiro foi reduzido porque, segundo o produtor, a granja fornecedora realizou a reposição das aves perdidas.

Desta vez, Pedro calculou que a morte dos 400 animais poderia causar perdas entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. O valor foi informado por ele e não inclui necessariamente outros possíveis custos de produção.

A repetição das falhas levou o avicultor a considerar uma mudança na estrutura da propriedade. Ele afirmou que pretende adquirir um gerador próprio, buscando diminuir a dependência exclusiva do fornecimento elétrico da concessionária.

A decisão representa uma tentativa de proteger os próximos lotes, especialmente durante períodos de instabilidade climática.

Temporal derrubou eucalipto e deixou comunidade sem luz

A interrupção que atingiu o aviário também provocou dificuldades em outras propriedades e estabelecimentos comerciais da comunidade de São Basílio.

Segundo informações divulgadas pelo Jornal da Manhã, moradores relataram que algumas áreas permaneceram mais de 16 horas sem energia elétrica.

A Cemig atribuiu as ocorrências ao temporal registrado na segunda-feira, que foi acompanhado por chuvas intensas e rajadas de vento. A empresa informou que a queda de um eucalipto sobre a rede comprometeu o abastecimento na comunidade.

Equipes trabalharam na recuperação do sistema desde a madrugada de terça-feira (3). De acordo com a concessionária, a normalização ocorreu gradualmente, sendo concluída às 12h45 daquele dia.

O episódio evidencia como uma ocorrência localizada na rede elétrica pode atingir diferentes etapas da produção agropecuária.

Na avicultura, a eletricidade participa do funcionamento de sistemas de ventilação, abastecimento de água, iluminação, alimentação automatizada e equipamentos de climatização, conforme o nível tecnológico das instalações.

Além do risco de paralisação, o custo da energia na produção avícola representa uma parcela importante das despesas operacionais das granjas.

Falhas de energia já provocaram perdas de milhares de aves

O caso de Uberaba terminou sem mortes no lote, segundo o responsável pela criação, mas outras ocorrências mostram consequências mais graves.

Em março de 2026, uma avicultora de São Miguel do Iguaçu, no Paraná, relatou a perda de 20 mil aves após problemas no fornecimento de energia. Na situação divulgada, os geradores foram acionados, mas oscilações elétricas teriam comprometido componentes de proteção do sistema.

O episódio paranaense demonstra que a existência de uma fonte alternativa de energia não elimina automaticamente o risco de perdas. O funcionamento dos equipamentos de climatização depende de uma estrutura elétrica compatível, protegida e submetida à manutenção.

Em propriedades com criação intensiva, uma falha no controle ambiental pode comprometer rapidamente as condições de alojamento de centenas ou milhares de animais.

As consequências das quedas e oscilações de energia no campo também incluem danos em motores, painéis de controle e outros equipamentos essenciais à produção rural.

O que os produtores podem fazer para reduzir os riscos?

A proteção dos aviários começa com um planejamento que considere a possibilidade de interrupções prolongadas de energia.

A escolha de um gerador, por exemplo, precisa levar em conta a demanda dos equipamentos indispensáveis ao funcionamento do galpão. O dimensionamento incorreto pode impedir que o sistema de emergência atenda às necessidades da criação.

Além da fonte alternativa, o planejamento deve considerar alarmes para falhas elétricas, monitoramento da temperatura, manutenção preventiva e procedimentos claros para situações de emergência.

A Embrapa também orienta o uso de equipamentos próprios para aquecimento, como campânulas, com capacidade compatível com o número de aves alojadas. A instituição reforça a necessidade de ventilação e controle da temperatura próxima à cama.

Para produtores que utilizam aparelhos elétricos sensíveis, existe ainda a possibilidade de solicitar análise de ressarcimento em caso de danos associados ao fornecimento de energia.

A Cemig informa que consumidores enquadrados no grupo B, incluindo determinadas unidades rurais de baixa tensão, podem registrar pedidos relacionados a equipamentos danificados. O procedimento está disponível nos canais oficiais da concessionária, incluindo o telefone 116.

O ressarcimento depende de avaliação técnica e não significa cobertura automática para perdas de animais ou interrupções da atividade produtiva.

No caso de Pedro Henrique, a experiência reforçou a intenção de investir em um sistema de emergência. Depois de enfrentar duas ocorrências em poucos meses, o produtor pretende reduzir a vulnerabilidade de sua criação diante de novos apagões.

A sobrevivência dos 400 pintinhos, conforme relatado por ele, encerrou a emergência sem a perda do lote. O episódio, porém, deixou um alerta para a avicultura: a continuidade do aquecimento nos primeiros dias de vida precisa ser garantida por equipamentos apropriados e alternativas planejadas antes que a energia falhe.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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