Cerveja fermentada com mandioca por um ano é eleita a melhor do Sul e Sudeste

Produzida no Rio Grande do Sul, a Manipueira 2024 utiliza microrganismos presentes em um líquido extraído da mandioca e conquistou o principal prêmio da etapa Sul e Sudeste da Copa Cerveja Brasil

Uma cerveja de mandioca produzida em Charqueadas, no Rio Grande do Sul, conquistou o primeiro lugar na principal premiação da etapa Sul e Sudeste da Copa Cerveja Brasil 2026. A Manipueira 2024, da Marek Cervejaria Artesanal, recebeu o ouro no Best of Show, reconhecimento concedido após uma avaliação que reuniu os destaques de uma competição com 383 amostras inscritas. O resultado foi divulgado em 30 de outubro, em São Paulo, pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva).

O diferencial da bebida está em um processo que aproveita microrganismos presentes na manipueira, líquido obtido durante a prensagem da mandioca, para promover a fermentação. A produção envolve 12 meses de permanência em barris de carvalho americano utilizados para bourbon, técnica que permite o desenvolvimento gradual de compostos responsáveis pelas características da cerveja. A conquista chama atenção para a aplicação de recursos da agricultura brasileira na criação de bebidas artesanais. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

O que torna a cerveja de mandioca diferente das tradicionais?

A principal particularidade da Manipueira 2024 não está apenas no ingrediente de origem agrícola, mas na maneira como os microrganismos são incorporados à fabricação.

Na produção convencional, as cervejarias geralmente trabalham com leveduras selecionadas, utilizadas para transformar os açúcares do mosto em álcool, gás carbônico e substâncias que influenciam o aroma e o sabor.

Já na chamada Manipueira Selvagem, a fermentação utiliza uma comunidade de microrganismos associada ao líquido extraído da mandioca. Esse material passa inicialmente por fermentação espontânea e depois funciona como inóculo, nome dado à cultura microbiana introduzida no mosto cervejeiro.

A técnica permite a participação de diferentes microrganismos no processo. Ao longo do tempo, eles podem produzir ácidos e compostos aromáticos que conferem características distintas à bebida.

A manipueira é conhecida principalmente nas regiões produtoras de farinha de mandioca, onde surge como resultado da prensagem da massa das raízes. Fora de processos controlados, esse líquido exige cuidados específicos de manipulação e destinação.

Na indústria cervejeira, seu emprego representa uma forma de explorar a diversidade microbiana associada à agricultura brasileira, sem depender exclusivamente das culturas de fermentação tradicionalmente utilizadas na fabricação de cervejas.

Doze meses em barris de carvalho: como é produzida a cerveja premiada?

A Marek utiliza barris de carvalho americano associados ao envelhecimento de bourbon para conduzir a fermentação e a maturação de sua receita.

Segundo a descrição oficial da fabricante, a Manipueira Safra 2024 permanece durante 12 meses nesses recipientes, em um processo de fermentação espontânea.

A permanência prolongada em madeira contribui para modificar o perfil da bebida. A interação com o barril e a atividade dos microrganismos podem alterar sua acidez, seus aromas e sua complexidade sensorial.

Isso não significa, entretanto, que todas as cervejas produzidas com manipueira apresentem características idênticas. A comunidade microbiana, as condições de fermentação e o histórico de utilização dos barris podem provocar diferenças entre as safras.

No catálogo da Marek, a versão premiada aparece em garrafas de 375 mililitros e possui 6% de teor alcoólico.

O número 2024 presente no nome identifica a safra do produto. Portanto, não deve ser confundido com o ano da premiação, que aconteceu em outubro de 2026.

O longo período de produção também diferencia essas cervejas de muitos estilos comerciais, nos quais a fermentação e a maturação costumam ocorrer em intervalos consideravelmente menores.

Cerveja de mandioca supera concorrentes de sete estados

A etapa Sul e Sudeste da 6ª Copa Cerveja Brasil aconteceu nos dias 28 e 29 de outubro, na Academia da Cerveja, em São Paulo.

A competição reuniu cervejarias dos sete estados dessas duas regiões, com inscrições distribuídas em 122 estilos diferentes.

Os avaliadores realizaram degustações às cegas, procedimento no qual as amostras são analisadas sem que os jurados conheçam previamente a identidade das fabricantes.

Na primeira fase, as bebidas foram julgadas conforme as características esperadas para suas respectivas categorias. As vencedoras com medalha de ouro avançaram para a avaliação complementar do Best of Show, destinada a escolher os principais destaques gerais.

A Manipueira 2024 conquistou a primeira colocação nessa rodada decisiva.

O segundo lugar ficou com a Cosvesi Smoked Porter, da Cosvesi Brewpub, localizada em Hortolândia (SP). A bebida utiliza malte defumado com madeira de faia e foi inscrita como uma cerveja baseada no estilo Brown Porter.

A terceira posição foi conquistada pela Incrível Pérola Negra, da Cervejaria Incrível, de Serra (ES), representante do estilo European-Style Dark Lager.

No total, a organização concedeu 96 medalhas, sendo 37 de ouro, 28 de prata e 31 de bronze.

A premiação da cerveja gaúcha ocorre em um momento de diversificação da produção artesanal brasileira. Em setembro, outro produto desenvolvido com manipueira, a Alagoas Funky Wild, da Caatinga Rocks, também apareceu entre os vencedores do Brasil Beer Cup 2026, na categoria Brazilian Beer.

Os resultados são de competições diferentes, mas demonstram que o uso da manipueira já ultrapassou a fase de uma experiência isolada.

Técnica brasileira começou a ganhar espaço com projeto colaborativo

O desenvolvimento da Manipueira Selvagem está relacionado a uma iniciativa criada em 2022 pelas cervejarias Cozalinda, de Florianópolis (SC), e Zalaz, de Paraisópolis (MG).

A proposta era investigar possibilidades de fermentação a partir de microrganismos associados à mandioca e desenvolver uma bebida com características ligadas ao território brasileiro.

O projeto recebeu apoio da Abracerva e envolveu posteriormente outras cervejarias e instituições de pesquisa. A primeira safra coletiva chegou ao mercado em 2023.

Uma das particularidades da iniciativa é o reconhecimento de que cada região pode apresentar uma comunidade microbiana diferente.

Essa variação influencia a fermentação e pode resultar em bebidas com características próprias, mesmo quando os produtores seguem princípios semelhantes de elaboração.

O conceito se aproxima da ideia de terroir, utilizada principalmente na produção de vinhos para relacionar as características de um produto às condições de seu local de origem.

Em abril de 2026, a revista Pesquisa FAPESP abordou o desenvolvimento de cervejas brasileiras com microrganismos e ingredientes nacionais. Entre os exemplos apresentados estava justamente a Manipueira Selvagem, cujo processo tem relação com tradições fermentativas indígenas.

Esse trabalho integra um movimento de pesquisa que busca compreender melhor a biodiversidade brasileira e suas possíveis aplicações na produção de alimentos e bebidas.

Pesquisa de mais de R$ 400 mil investiga fermentação com mandioca

O interesse pela Manipueira Selvagem também chegou aos laboratórios.

Em agosto de 2026, foi divulgado um projeto científico com financiamento superior a R$ 400 mil aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

A investigação, prevista para durar três anos, é coordenada pelo professor Jean Carlos Rodrigues da Silva, do Centro Multidisciplinar de Tecnologia Cervejeira do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em Sertãozinho.

O estudo pretende compreender a influência dos microrganismos presentes na manipueira, dos recipientes de fermentação e das condições de cada região sobre a composição final da bebida.

Para isso, serão acompanhadas produções em São Paulo, Santa Catarina e Sergipe, com comparações entre fermentações realizadas em barris de madeira e recipientes de polipropileno.

As análises envolverão técnicas capazes de identificar microrganismos por seu material genético e examinar os compostos químicos desenvolvidos durante o processo.

Outro ponto da investigação é a segurança no aproveitamento da manipueira.

Algumas variedades de mandioca apresentam concentrações importantes de compostos cianogênicos, capazes de liberar cianeto. Por isso, o uso do líquido exige conhecimento técnico e procedimentos específicos de controle.

Em entrevista ao Guia da Cerveja, o pesquisador explicou que o projeto prioriza a utilização de manipueira proveniente de mandioca mansa e prevê análises para avaliar compostos potencialmente tóxicos.

O estudo poderá fornecer informações importantes para futuras orientações de produção, mas ainda não permite tratar qualquer manipueira bruta como ingrediente seguro para consumo.

O que essa inovação pode representar para o agronegócio?

A utilização de microrganismos associados à mandioca amplia as possibilidades de pesquisa sobre uma cultura agrícola presente em diferentes regiões brasileiras.

Tradicionalmente, a mandioca é destinada à alimentação humana, à produção de farinha, fécula e outros produtos industriais. O processamento gera materiais que exigem destinação adequada e que também podem ser investigados para aplicações tecnológicas.

No caso da cerveja, o interesse está na possibilidade de utilizar recursos microbianos associados à cadeia produtiva da raiz para desenvolver bebidas diferenciadas.

Isso não significa que a manipueira já represente um novo mercado consolidado para os agricultores.

A viabilidade econômica de uma eventual cadeia de fornecimento depende de fatores como controle sanitário, regularidade, transporte, padronização e demanda industrial.

Para produtores e agroindústrias, a experiência mostra uma possibilidade de agregação de valor por meio da pesquisa, mas não comprova, por enquanto, a existência de uma oportunidade comercial em larga escala.

O desenvolvimento também se conecta a outras iniciativas voltadas à nacionalização de matérias-primas utilizadas na fabricação de bebidas. Um exemplo está nas pesquisas sobre a produção brasileira de lúpulo, ingrediente importante para o aroma, o amargor e a estabilidade de diversas cervejas.

A aproximação entre agricultura, ciência e indústria pode contribuir para produtos com maior identidade regional, desde que acompanhada de investimentos em qualidade e segurança.

Final nacional da Copa Cerveja Brasil acontecerá em dezembro

A conquista de outubro garantiu à Manipueira 2024 a classificação para a etapa nacional da Copa Cerveja Brasil, prevista para dezembro de 2026, em São Paulo.

As cervejas premiadas nas etapas regionais voltarão a participar da disputa, que reunirá representantes de diferentes partes do país.

O resultado dessa decisão ainda não foi anunciado e não deve ser confundido com a vitória da Marek no Sul e Sudeste.

Enquanto a competição segue para sua fase final, a experiência com a Manipueira Selvagem continua sendo investigada por pesquisadores interessados em compreender as características de fermentações associadas à biodiversidade brasileira.

O próximo passo para essa tecnologia não depende apenas de novas medalhas, mas da produção de conhecimento capaz de orientar seu uso, garantir a segurança da bebida e avaliar possíveis aplicações industriais.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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