Raça brasileira reúne marmoreio, rusticidade e aptidão para produtos curados, com resultados avaliados por universidades e pela Embrapa. A oportunidade está em mercados que remuneram qualidade e origem, mas exige planejamento para enfrentar o ciclo de produção e os custos de comercialização.
O suíno Moura reúne características que interessam à produção de carne de maior valor agregado: gordura entremeada no músculo, identidade genética brasileira e aptidão para a charcutaria. Pesquisas da Embrapa e de universidades ajudam a explicar esse potencial e os cuidados necessários para transformá-lo em receita na propriedade.
Uma tese de doutorado de 2025 da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) encontrou maior marmoreio, maciez e aceitação da carne de Moura no grupo estudado. A comparação envolveu animais e sistemas diferentes, uma distinção importante: o resultado não pode ser atribuído exclusivamente à raça nem convertido em promessa de desempenho para qualquer criação.
Como reconhecer a raça Moura
A pelagem preta entremeada de pelos brancos, que produz uma aparência preto-acinzentada, é uma das marcas do Moura. O inventário de raças brasileiras publicado pelo Ministério da Agricultura e disponível na Embrapa descreve perfil da cabeça retilíneo ou levemente côncavo e orelhas intermediárias entre os tipos ibérico e céltico.
O documento destaca a rusticidade e a aptidão para carne de qualidade e criação à solta. Essas características ajudam a reconhecer o tipo racial, mas a aparência, isoladamente, não comprova a genealogia de um reprodutor. Para quem pretende multiplicar o plantel, a origem dos animais merece atenção desde a compra.
A história também exige precisão. No Comunicado Técnico 589, de 2022, os pesquisadores Elsio Antonio Pereira de Figueiredo, Teresinha Marisa Bertol e Cícero Juliano Monticelli, da Embrapa Suínos e Aves, registram que não há documentação precisa sobre a origem da raça. O texto aponta provável participação de suínos ibéricos e contribuição da raça Pereira, formada com Canastra e Duroc-Jersey.
O que a pesquisa mostra sobre a carne
Na tese da UFSC, Sebastião Ferreira Magagnin comparou 16 suínos Moura em pastoreio rotacionado com 16 comerciais convencionais em sistema intensivo. Foram avaliados carcaça, carne, gordura e um produto curado de lombo, o lonzino. O trabalho também incluiu avaliação sensorial por consumidores.
Os Moura apresentaram carne mais vermelha e escura, maior deposição de gordura e menor perda de líquidos, além de maior maciez. A carne assada e o produto curado tiveram maior aceitação e preferência na avaliação. São resultados que sustentam o interesse pelo uso gastronômico, dentro das condições específicas do experimento.
O marmoreio é a gordura presente no interior do músculo. Ele difere da camada de toucinho sob a pele, embora ambos possam participar da valorização da matéria-prima conforme o corte e o processamento. No estudo da UFSC, o conjunto de características foi considerado adequado à obtenção de produtos curados.
Outro trabalho, publicado em 2010 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira por pesquisadores vinculados à Embrapa, avaliou genótipos com diferentes participações de Moura. A contribuição da raça favoreceu aspectos de qualidade da carne, mas trouxe efeitos desfavoráveis sobre desempenho e características da carcaça quando comparada às genéticas selecionadas para carne magra.
Isso ajuda a separar dois objetivos de seleção: produzir mais carne magra em menos tempo e obter matéria-prima com atributos sensoriais específicos. Na avaliação econômica, ganho de peso, alimentação, rendimento de carcaça e remuneração do produto precisam entrar na mesma conta.
Especialista aponta espaço para produtos de maior valor
Em reportagem publicada pela Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná em março de 2025, o professor Marson Bruck Warpechowski, da UFPR e coordenador do Projeto Porco Moura, associou a conservação da raça ao desenvolvimento de produtos comerciais diferenciados.
“Eu posso ter itens muito diferentes uns dos outros, gerando produtos com alto valor”, afirmou o professor à publicação oficial. A charcutaria, que inclui preparações como curados e embutidos, é uma das possibilidades apontadas. A declaração foi publicada pelo governo estadual e não resulta de entrevista exclusiva ao Compre Rural.
A mesma reportagem registrou estimativa de aproximadamente 3.500 animais nos três estados do Sul em 2024, com mais de 2.600 no Paraná. Os números são uma referência histórica daquele levantamento, e não um censo atualizado de 2026. O resgate da raça envolve o trabalho da UFPR e da Embrapa.
Para o produtor, o mercado precisa acompanhar a genética
O Comunicado Técnico da Embrapa relaciona o resgate das raças nacionais ao interesse por alimentos diferenciados, gastronomia e pequenas agroindústrias. Também destaca a conservação dos recursos genéticos, tanto em animais vivos quanto em bancos de germoplasma, como parte desse esforço.
A oportunidade comercial depende de compradores que reconheçam os atributos do produto. Antes de ampliar o rebanho, o produtor precisa avaliar alimentação, tempo de permanência dos animais, acesso ao abate e destino dos cortes. Na reportagem paranaense, a logística e a dificuldade de atender frigoríficos organizados para grandes lotes aparecem entre os entraves.
Não há, nas fontes consultadas, uma cotação padronizada que permita afirmar quanto o Moura vale a mais em todo o Brasil. O caminho é construir a conta com custos da propriedade e condições reais de venda. Qualidade de carne abre uma possibilidade de diferenciação; a margem depende de conseguir remunerá-la.
Leia também: Conheça o Porco Moura e sua importância na suinocultura do Paraná.
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