A nova tarifa dos Estados Unidos de 25% afeta o fluxo de açúcar nacional e prejudica as usinas do Nordeste. Entenda os impactos no setor sucroenergético
A nova tarifa dos Estados Unidos de 25% afeta o fluxo de açúcar nacional e prejudica as usinas do Nordeste. Entenda os impactos no setor sucroenergético.
A recente imposição de uma tarifa dos Estados Unidos de 25% sobre diversos produtos brasileiros trouxe um novo clima de incerteza para o agronegócio, em especial para o setor sucroenergético. Embora os americanos não representem o principal destino do açúcar do Brasil, especialistas apontam que a sobretaxa tem o potencial de alterar o fluxo global da commodity e pressionar as cotações internacionais no curto prazo.
Com a entrada em vigor da medida, o Brasil saltou para o posto de segunda economia mais sobretaxada pelos norte-americanos, ficando atrás apenas da China, de acordo com um levantamento recente da plataforma Global Trade.
Como a tarifa dos Estados Unidos afeta as cotas de importação
O mercado norte-americano de açúcar já é historicamente blindado contra a concorrência externa. Os Estados Unidos operam sob um rígido sistema de cotas tarifárias de importação (TRQ). Dentro dessa cota específica, os volumes entram com taxas reduzidas; fora dela, as tarifas de importação podem ultrapassar a barreira dos 100%, o que torna financeiramente inviável o envio de grandes volumes adicionais.
Segundo dados da consultoria StoneX, o Brasil detém uma participação estratégica na cota americana de importação de açúcar bruto. Para o exercício de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) já havia destinado aos produtores brasileiros uma fatia de aproximadamente 156 mil toneladas de açúcar bruto.
Usinas do Nordeste na linha de frente do impacto
A aplicação da nova tarifa dos Estados Unidos encarece o açúcar nacional para os compradores americanos. Na avaliação dos analistas de mercado Letícia Correia e Marcelo Bonifácio, da StoneX, esse cenário pode desestimular o preenchimento total da cota brasileira destinada ao país, forçando a indústria a buscar imediatamente rotas comerciais alternativas.
As usinas do Nordeste são apontadas como as mais prejudicadas, pois tradicionalmente possuem uma maior exposição e dependência da cota americana. Ao redirecionar seus volumes para outros destinos, a oferta de açúcar brasileiro no mercado global aumentará. Em um momento onde a disponibilidade do produto já é considerada confortável, esse movimento tende a empurrar os preços internacionais para baixo no curtíssimo prazo.
Protecionismo e a tarifa dos Estados Unidos no setor
A política comercial de Washington também reascendeu debates sobre assimetria tarifária. Para Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), a decisão apenas agrava uma barreira de proteção que sempre existiu.
“No açúcar, eles não abrem o mercado. No etanol, querem que o Brasil abra completamente o seu mercado. Nós não somos protecionistas. Os protecionistas são os americanos”, declarou Cunha. O executivo ressaltou a necessidade de uma revisão dos parâmetros comerciais para que ambos os países possam manter um diálogo equilibrado na continuidade de seus negócios.
México ganha espaço na lacuna deixada pelo Brasil
Enquanto o produto brasileiro perde competitividade, o México caminha para dominar o abastecimento. De acordo com projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os americanos devem importar até 1,15 milhão de toneladas de açúcar mexicano no ciclo 2026/27. O número representa um salto expressivo, sendo cinco vezes superior ao projetado para a safra 2025/26.
O governo do México explicou que a expansão está ancorada em um novo acordo bilateral, cujas diretrizes devem render pagamentos recordes aos produtores locais de cana-de-açúcar: cerca de 4,76 bilhões de pesos mexicanos (aproximadamente US$ 272 milhões) para a próxima temporada.
Perspectivas limitadas a médio prazo
Apesar do choque inicial provocado pela tarifa dos Estados Unidos, analistas ponderam que os efeitos negativos podem ser limitados em um horizonte de médio prazo.
A StoneX destaca que a produção americana de açúcar de beterraba corre sérios riscos climáticos, com o Hemisfério Norte enfrentando temperaturas elevadas. Uma eventual quebra na safra doméstica poderia forçar os EUA a aumentarem sua necessidade de importações emergenciais, mesmo com as tarifas vigentes.
Além disso, fundamentos apontam que o mercado global pode entrar em um cenário de déficit na safra 2026/27, o que deverá garantir sustentação orgânica às cotações internacionais do açúcar, amortecendo os prejuízos das usinas nordestinas.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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