Vírus chega a fazendas da Grã-Bretanha e acende alerta para abortos e queda no leite

Detectado pela primeira vez em rebanhos britânicos, o Shamonda está associado a perdas reprodutivas e doenças em bovinos; sem vacina disponível na região, autoridades pedem vigilância aos produtores

Um alerta sanitário coloca os pecuaristas britânicos em atenção: o vírus Shamonda foi identificado pela primeira vez em bovinos de duas fazendas leiteiras da Grã-Bretanha. A chegada do agente, destacada pelo jornal Farmers Guardian nesta segunda-feira (2), levou a um chamado para que produtores observem alterações na saúde dos animais e procurem assistência veterinária diante de suspeitas.

A confirmação veio da Agência de Saúde Animal e Vegetal britânica, a APHA. As amostras positivas foram coletadas em outubro em propriedades de Powys, no País de Gales, e Shropshire, na Inglaterra, e analisadas nos laboratórios de Weybridge. O anúncio ocorre após registros em outros países europeus, em Jersey e na República da Irlanda.

O avanço preocupa pelos problemas associados à infecção: febre, diarreia, redução na produção de leite e abortos já foram observados em bovinos infectados. A identificação do agente em diferentes espécies também amplia a atenção dos serviços veterinários europeus.

O que é o Shamonda e como ele chega aos rebanhos

Apesar de ser uma novidade para a vigilância britânica, o Shamonda não é um vírus recém-descoberto. Identificado em bovinos na Nigéria em 1965, ele já era conhecido na África e na Ásia. Sua emergência na Europa representa uma mudança no cenário sanitário acompanhado pelas autoridades.

Conhecido pela sigla SHAV, o agente pertence ao grupo dos ortobunyavírus e é próximo do vírus Schmallenberg. Acredita-se que sua transmissão ocorra principalmente pela picada de pequenos insetos do gênero Culicoides, também envolvidos na disseminação da língua azul. São doenças distintas que podem compartilhar vetores.

A circulação nas proximidades já vinha sendo acompanhada. Em agosto, a APHA detectou o Shamonda em bovinos de Jersey, ilha situada perto da costa francesa. Na ocasião, a agência destacou o potencial de disseminação pelo noroeste europeu.

Além de bovinos, o vírus foi identificado em ovinos, caprinos, alpacas e cavalos. Na Alemanha e na Suíça, sua detecção em equinos com alterações neurológicas abriu outra frente de investigação. A relação entre a infecção e esses quadros continua sendo estudada.

Foto: Divulgação

Queda no leite e perdas reprodutivas concentram preocupação

Nos bovinos, sobretudo em vacas leiteiras adultas, os quadros associados ao Shamonda incluem febre acima de 40 °C, falta de apetite, menor ruminação, apatia, diarreia e queda súbita e temporária na produção de leite. Vários animais podem apresentar sinais simultaneamente.

A reprodução também exige atenção. Rebanhos afetados apresentaram abortos, retorno ao cio e retenção de placenta. A nota técnica britânica descreve ainda malformações em bezerros e cordeiros associadas à infecção durante a gestação, embora ressalte que o potencial do vírus para provocar esses danos precisa de mais investigação.

Em alguns surtos, uma proporção elevada do rebanho adoeceu, com sinais clínicos observados na propriedade durante aproximadamente duas a três semanas. Não foram descritas mortes diretamente atribuídas à doença nesses quadros agudos, segundo a APHA. A extensão da circulação e o impacto nos diferentes sistemas produtivos permanecem incertos.

Sem vacina, vigilância e diagnóstico ganham importância

Não há vacina comercial disponível contra o Shamonda no Reino Unido ou na União Europeia. A prevenção também enfrenta dificuldades: inseticidas podem reduzir a presença dos vetores, mas não impedem completamente as picadas. As orientações incluem acompanhar a ocorrência da doença, evitar comprar animais de áreas afetadas e discutir rapidamente sinais suspeitos com o veterinário.

Por enquanto, o Shamonda não é de notificação obrigatória no Reino Unido. As autoridades afirmam que não há evidências que justifiquem medidas adicionais de controle neste momento, mas manterão o acompanhamento e poderão rever a resposta conforme surgirem novos dados.

Na saúde humana, foi identificado um caso em uma pessoa com imunossupressão grave na França. Entretanto, não há evidências de transmissão disseminada entre humanos, e o risco atual para a população é considerado muito baixo. As autoridades também informam que não há evidências de risco à segurança dos alimentos.

Para os produtores, a recomendação imediata é reconhecer alterações no rebanho e buscar diagnóstico. Como febre, diarreia, abortos e queda no leite podem ocorrer em diversas enfermidades, a avaliação veterinária é essencial para identificar a causa e orientar a resposta na propriedade.

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