Um El Niño que já apresenta características excepcionais pode fazer de 2027 o ano mais quente desde o início dos registros, ao somar seu efeito temporário de aquecimento à elevação contínua das temperaturas provocada pelas emissões de gases de efeito estufa. Modelos climáticos indicam que o fenômeno pode levar a temperatura média global a níveis que, sem esse impulso, só seriam alcançados vários anos depois.
Na prática, o fenômeno pode funcionar como uma espécie de “máquina do tempo climática”. A combinação entre El Niño e aquecimento global pode levar a temperatura média do planeta em 2027 para cerca de 1,76°C acima do período pré-industrial.
Esse nível seria aproximadamente 0,29°C superior ao esperado apenas pela tendência recente de aquecimento, antecipando em cerca de sete a 13 anos temperaturas que poderiam se tornar comuns entre 2034 e 2040.
O que esperar em 2026 e 2027
Os primeiros seis meses de 2026 foram o terceiro início de ano mais quente já registrado. Ficaram cerca de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, atrás apenas de 2024 e 2025.
O desenvolvimento rápido do El Niño elevou a probabilidade de 2026 estabelecer um novo recorde global de 35%, ante apenas 19% em abril. O mês de junho foi particularmente intenso: foi o segundo mais quente já registrado globalmente e o mais quente para a Europa Ocidental, com ondas de calor quebrando centenas de recordes individuais. Quase 9% da superfície terrestre experimentou temperaturas recordes em junho.
Força do fenômeno e impactos em 2027
Segundo a NOAA, há 69% de probabilidade de que este seja o episódio mais forte desde o início das medições em 1950. O serviço de meteorologia britânico (Met Office) alertou que o evento tenderá a ser o mais severo em mais de um século.
Por isso, o fenômeno deve provocar secas drásticas na América do Sul e no oeste do Pacífico. O ápice dos impactos do El Niño ocorre no ano seguinte ao seu surgimento. Na avaliação de climatologistas, o efeito do fenômeno deve elevar em cerca de 0,3°C, na média, a temperatura global de 2027.
De 667 simulações de modelo examinadas, 91% projetam um pico acima do mais forte El Niño no registro moderno. Quando se usa a medida relativa de anomalia (RONI), 77% dos modelos ainda indicam um novo recorde.
Como El Niño amplifica a crise climática
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento da superfície no centro e no leste do Oceano Pacífico Equatorial. Quando os ventos de leste se enfraquecem e as águas quentes se deslocam, ocorre essa variação natural do clima.
Quando essas temperaturas elevadas persistem por meses, a dinâmica de tempestades em escala global se altera. Embora cientistas debatam se o aquecimento global altera a dinâmica própria do fenômeno, há consenso de que a crise climática amplia seus impactos.
A atmosfera aquecida retém mais umidade, tornando as chuvas geradas pelo fenômeno mais intensas. O resultado é seca em algumas regiões e chuvas extremas em outras, em padrões que tendem a se intensificar conforme o planeta aquece.
Impactos esperados no Brasil
No Brasil, os efeitos variam conforme a região. O Painel El Niño 2026 e 2027, formado por INPE, INMET, CEMADEN, ANA, SGB e Defesa Civil, aponta maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte do país. As temperaturas também tendem a ficar acima da média no segundo semestre de 2026, aumentando o risco de ondas de calor e incêndios florestais.
A NOAA prevê que o fenômeno persista pelo menos até março de 2027. Para o Brasil, a agência aponta possibilidade de continuidade das chuvas acima da média no Sul e de precipitações mais irregulares e abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste a partir de outubro.
Os impactos também podem alcançar a agricultura. Algumas culturas podem ser beneficiadas pela distribuição de chuvas, enquanto o aumento das temperaturas e a irregularidade das precipitações podem prejudicar pastagens e interferir na preparação das próximas safras.













