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Cientistas colocam gene de aranha em cabras para retirar seda do leite e experimento dá certo

Por Leticia Florenco
19/09/2026
Cientistas colocam gene aranha cabras

Foto: Benhur Emmanuel/Pexels

Cabras geneticamente modificadas para produzir proteínas de seda no leite chegaram a ser tratadas como uma das apostas mais ousadas da biotecnologia. 

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O projeto BioSteel, desenvolvido pela empresa canadense Nexia Biotechnologies, pretendia transformar os animais em verdadeiras fábricas de uma fibra ultrarresistente.

Foi nesse cenário que o cientista de materiais Ali Alwattari entrou em uma propriedade rural em Quebec, há 19 anos. 

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O que encontrou parecia ter saído de um filme de ficção científica: dezenas de cabras de diferentes raças eram mantidas em pequenos abrigos e recebiam até trilhas sonoras específicas, como reggae e rhythm and blues, para permanecerem relaxadas.

A proposta era ambiciosa. A seda é resistente, elástica e capaz de manter suas propriedades em condições de calor intenso e congelamento. 

Além disso, é biocompatível, característica que desperta interesse para aplicações dentro do corpo humano.

Hospitais avaliam o material para suturas, implantes e outros dispositivos médicos, enquanto empresas enxergam possibilidades em áreas como vestuário, alimentos e equipamentos de proteção.

Como nasceu o projeto das cabras geneticamente modificadas

A Nexia apostou na engenharia genética para tentar reproduzir em  as características da seda de aranha. 

A empresa introduziu genes relacionados à produção da fibra nas cabras com o objetivo de fazer com que as proteínas fossem secretadas no leite.

Alwattari entrou no projeto após construir sua carreira na Procter & Gamble, onde trabalhou no desenvolvimento de polímeros utilizados em produtos como fraldas e panos de limpeza.

O rebanho utilizado no experimento reunia animais de diferentes partes do mundo. Havia cabras grandes e pequenas, brancas e pretas, de pelos longos e curtos. 

A empresa também adotava uma estratégia incomum para manter os animais tranquilos: cada grupo recebia músicas associadas à sua origem.

O projeto atraiu grande atenção. Em 2000, a Nexia levantou US$ 40 milhões em sua abertura de capital, uma das maiores captações realizadas por uma empresa de biotecnologia naquele período.

Dois anos depois, o presidente da companhia declarou ao The New York Times que a iniciativa representava uma revolução. 

As cabras produtoras de seda passaram a aparecer em jornais e revistas, enquanto aumentava a expectativa de que a tecnologia pudesse inaugurar uma nova indústria de biomateriais.

Onde o sonho desabou

Por volta de 2003, Alwattari e sua equipe tinham conseguido produzir a primeira milha de seda artificial feita por humanos, um marco técnico. 

Em 2004, porém, o entusiasmo começou a desvanecer. As proteínas de seda das cabras se mostraram inadequadas para a escala necessária: eram pequenas demais e, portanto, fracas demais para resistir ao uso prático.

Além disso, a produção dependia de animais vivos para obter fibras sofisticadas, o que se revelou impraticável. 

Alwattari e Brad Cilley, vice-presidente de desenvolvimento comercial do projeto, deixaram a empresa logo depois, e em 2009, a Nexia declarou falência.

O projeto que havia capturado a imaginação de cientistas e jornalistas desapareceu, mas deixou uma herança importante: a prova de conceito de que a engenharia genética podia produzir biomateriais.

A jornada continua

Quando o projeto BioSteel foi dissolvido, os biólogos moleculares Justin Jones e Randy Lewis levaram um reboque do Wyoming ao Canadá. Colocaram nele cerca de 20 cabras que ainda restavam e as transportaram de volta para o laboratório.

Nos anos seguintes, cientistas e startups de laboratórios ao redor do globo continuaram buscando o caminho para a seda engenheirada, cada um tentando evitar os mesmos problemas que havia derrubado a Nexia.

O caminho não foi fácil. Ano após ano, startups se aproximavam, mas depois esbarravam em obstáculos recorrentes: questões de escala produtiva, custos de fabricação que não caíam, e processos regulatórios complexos para aprovação de biomateriais. Alguns abandonavam o projeto.

Outros mudavam de abordagem, deixando de lado as cabras e explorando bactérias, fungos ou outras plataformas biológicas como produtoras da proteína de seda.

Mas agora, após duas décadas de tentativas e fracassos, alguns pesquisadores que buscam retomar a produção de seda engenheirada acreditam estar finalmente no caminho certo. 

As tecnologias evoluíram, o custo dos equipamentos caiu e a compreensão da genética molecular se aprofundou.

A demanda por materiais sustentáveis e biocompatíveis também cresceu, tanto na medicina de ponta quanto em indústrias que buscam alternativas aos plásticos e às fibras sintéticas.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenco

Leticia Florenco

Olá, me chamo Letícia Florenço. Sou filha da Terra da Luz, meu amado Ceará. Estudo Jornalismo e, atualmente, estou no último semestre, 8º.

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