A pele da tilápia, peixe presente na alimentação dos brasileiros, pode ganhar uma função bem diferente da que costuma ter à mesa. Um material antes descartado pela indústria pesqueira virou matéria-prima para um curativo biológico desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) para tratar queimaduras e feridas.
Depois de mais de uma década de pesquisas, a tecnologia avança para a produção industrial. A UFC licenciou o desenvolvimento ao consórcio Biotec’s, formado pelas empresas Biotec Solução Ambiental Indústria e Comércio Ltda. e Biotec Controle Ambiental Ltda. A primeira fábrica será instalada em Jaguaribara, no Ceará, região de grande produção de tilápia.
Uma pesquisa de mais de uma década
Os estudos começaram em 2014 e ganharam estrutura na UFC a partir de 2015, coordenados pelos médicos Edmar Maciel Lima Júnior e Marcelo José Borges de Miranda, com equipes do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM).
Em um estudo com 116 pacientes com queimaduras de segundo grau superficial, a pele de tilápia apresentou, em comparação à sulfadiazina de prata:
- menor dor e consumo de dipirona;
- menos trocas de curativo;
- menor tempo de reepitelização.
O material funciona como cobertura biológica temporária, protegendo a ferida durante a regeneração. A tecnologia também é estudada para aplicações médicas, veterinárias e odontológicas.
Do peixe ao curativo
O processamento combina:
- Liofilização, que retira a água do tecido;
- Esterilização, que prepara o material para uso;
- Armazenamento sem refrigeração, facilitando transporte e distribuição.
Antes da comercialização para uso humano, o produto ainda precisa passar por estudos de eficácia e segurança e obter autorização da Anvisa. Hoje, o NPDM produz cerca de 600 unidades por mês. Com a nova fábrica, a capacidade poderá chegar a milhares de unidades por dia.
De resíduo a matéria-prima
Jaguaribara foi escolhida pela proximidade com áreas produtoras de tilápia e com o Açude Castanhão. A transformação da pele em biomaterial aproveita um subproduto que normalmente seria descartado e agrega valor à cadeia do pescado.
A fábrica prevê:
- 200 empregos diretos;
- 800 indiretos;
- produção também voltada ao mercado internacional.
A unidade terá investimento estimado em R$ 52 milhões e capacidade inicial de cerca de 4,3 mil unidades por dia, podendo chegar a 12 mil após expansões. A previsão é de operação plena em 2028.
Parte da produção deverá atender ao mercado brasileiro, incluindo o SUS, e outra parcela será destinada à exportação. México, Portugal e Turquia estão entre os países que avaliam possibilidades de pesquisa e futura utilização da tecnologia.
Custos e mais aplicações
O contrato prevê R$ 850 mil de pagamento inicial e 3,7% de royalties sobre a receita líquida. Com duração de 14 anos, estabelece até cinco anos para comercialização em humanos e três para uso veterinário.
A tecnologia ainda não está disponível nos hospitais brasileiros e depende de aprovação regulatória. Além das queimaduras, os pesquisadores estudam aplicações em:
- reparação de córnea;
- reconstrução de tecidos;
- tratamento de feridas;
- medicina veterinária e odontologia.
Na área humana, essas aplicações ainda dependem de novos estudos e autorizações. O tratamento de queimaduras é o estágio mais avançado.













