Limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5 °C até 2035 exigirá investimentos de aproximadamente US$ 8 trilhões por ano em todo o mundo.
O montante deverá financiar medidas como uma agricultura de menor emissão, recuperação de áreas florestais e expansão de fontes de energia limpa.
A estimativa foi apresentada por especialistas do Grupo Independente de Alto Nível em Financiamento Climático, ligado à London School of Economics, e divulgada durante a COP realizada em 2024, no Azerbaijão.
O desafio financeiro envolve tanto a redução das emissões de gases de efeito estufa quanto a adaptação das atividades econômicas às mudanças climáticas.
No Brasil, uma parcela importante desse esforço está concentrada no uso da terra e no setor agropecuário.
O custo global da transição climática
Países emergentes e em desenvolvimento precisarão de aproximadamente US$ 3,5 trilhões por ano até 2035 para fazer a transição para uma economia de baixo carbono.
A questão de fundo é que as nações ricas se industrializaram primeiro e construíram sua riqueza com combustíveis poluentes, como carvão e petróleo.
Por isso, carregam a responsabilidade histórica de financiar essa mudança nos países mais pobres.
Após a COP 2024, as nações desenvolvidas se comprometeram a direcionar no mínimo US$ 300 bilhões para países em desenvolvimento até 2035.
Um valor negociado após a oferta anterior de US$ 250 bilhões ser rejeitada. O objetivo é que, no mesmo prazo, esse volume chegue a US$ 1,3 trilhão, com contribuições de todas as nações.
Mas há um obstáculo: especialistas ressaltam que a maior parte desse dinheiro chegará na forma de empréstimo, não de doação.
A luta central agora é garantir que os juros sejam menores que os praticados no mercado comum.
Como o Brasil financia a sustentabilidade no campo
Enquanto as negociações globais prosseguem, o Brasil concentra a maior parcela das ações climáticas ligadas ao uso da terra, como agropecuária sustentável e preservação florestal.
Dados da ONG Climate Policy Initiative mostram que o crédito rural é o principal instrumento e responde por 58% de todo o financiamento climático para o uso da terra.
Produtores acessam empréstimos bancários para investir em técnicas mais sustentáveis, como plantio direto, integração de lavoura-pecuária-floresta e agroecologia.
Mas fazer esse crédito chegar a pequenos produtores e comunidades tradicionais permanece como um dos maiores obstáculos.
Os bancos, em geral, priorizam grandes projetos porque o custo operacional de verificar empréstimos menores não compensa.
Além disso, muitos pequenos produtores não sabem o que é crédito rural e não têm conta bancária ou documentos básicos, como RG ou CPF.
Em Ilhéus, na Bahia, indígenas Tupinambá usaram esse apoio para entrar no Pronaf Floresta, linha que financia o cultivo de cacau ao mesmo tempo em que apoia a recomposição da Mata Atlântica.
O projeto oferece orientação sobre o uso consciente do dinheiro, e 98% dos participantes estão em dia com os empréstimos.
Dados da Climate Policy Initiative mostram que a filantropia representa apenas cerca de 0,06% das fontes de financiamento climático em agropecuária e florestas.
Especialistas ressaltam que o crédito rural tem limites quando se fala em inclusão e justiça socioambiental, sendo importante que povos tradicionais.
Segundo especialistas, pequenos produtores também precisam de mais acesso a doações e incentivos públicos e privados que não exigem devolução do dinheiro.
O papel emergente dos fundos climáticos internacionais
Uma estratégia que ganha força é o financiamento por renda fixa, modelo exemplificado pelo Fundo Florestas Tropicais para Sempre, proposto pelo Brasil.
Esse instrumento funcionará com base em pagamentos por resultados e recompensará países que mantiverem o desmatamento abaixo de limites pré-definidos.
O modelo busca usar investimento de renda fixa para gerar recursos destinados à conservação de florestas tropicais, atraindo investidores interessados em retorno financeiro aliado a impacto ambiental.
Fundos brasileiros têm perfis diferentes
O Fundo Amazônia, criado em 2008, oferecia investimentos não reembolsáveis para conservação da Amazônia e projetos com povos tradicionais.
Após ser pausado em 2019, o fundo foi retomado em 2023, o que contribuiu para a queda do desmatamento no bioma.
O Fundo Clima, criado em 2009, concentra recursos em empréstimos administrados pelo BNDES: 57% vão para a indústria, 38% para a infraestrutura, 4% para o comércio e apenas 1% para a agropecuária. Desse último grupo, 98% financiam empresas de grande e médio porte.
Os recursos não reembolsáveis representam menos de 1% do total, cerca de R$ 4,5 milhões geridos pelo Ministério do Meio Ambiente. Os R$ 24 bilhões restantes funcionam como empréstimos convencionais.
Dinheiro precisa vir acompanhado de conhecimento
O desafio do financiamento climático não está apenas em ampliar o volume de recursos disponíveis.
Também envolve criar mecanismos capazes de fazer o dinheiro chegar aos produtores e comunidades que enfrentam maiores dificuldades de acesso.
Em muitas situações, o capital não é suficiente para transformar uma propriedade. O produtor precisa saber quais técnicas adotar, como implementá-las e de que maneira acompanhar os resultados.
Por isso, transferência de tecnologia, assistência técnica, capacitação e acompanhamento são considerados componentes importantes dos programas de financiamento climático.













