Em 1902, o mangue-vermelho (Rhizophora mangle) foi levado da Flórida para Molokai, no Havaí, com uma missão simples: conter a erosão e impedir que sedimentos fossem carregados pelas chuvas até os recifes. A American Sugar Company plantou as mudas em áreas de lama no sudoeste da ilha.
A solução acabou criando outro problema. Sem os controles naturais existentes em seu ambiente de origem, a espécie se espalhou rapidamente por áreas onde não ocorria naturalmente. Propágulos capazes de flutuar pela água levaram o mangue para novas áreas, formando colônias cada vez maiores.
De proteção contra erosão a espécie invasora
O mangue-vermelho possui raízes aéreas que retêm sedimentos e matéria orgânica. Quando ocupa canais e áreas úmidas, pode alterar o fluxo da água, reduzir espaços abertos e modificar as condições do habitat.
Em Kailua, na ilha de Oahu, a expansão da espécie preocupa especialmente por causa da Kawainui Marsh, maior área úmida de água doce do Havaí. A vegetação invasora pode prejudicar a drenagem, alterar a circulação da água e aumentar a pressão sobre um ecossistema que também ajuda no controle de enchentes.
A transformação das áreas abertas afeta aves aquáticas nativas que utilizam esses ambientes para alimentação e reprodução. Entre elas estão o aeʻo, o ʻalae keʻokeʻo, o ʻalae ʻula e o koloa, espécies que dependem das áreas úmidas havaianas e, em alguns casos, enfrentam risco de extinção.
Havaí tenta reverter mais de um século de expansão
Em 2026, o Department of Land and Natural Resources e a organização Hui o Koʻolaupoko iniciaram um projeto de vários anos para retirar o mangue dos cursos d’água de Kailua.
- Área de restauração: quase 2 milhas de cursos d’água e áreas úmidas
- Mangue adulto: cerca de 5,2 acres
- Canais monitorados: 4,2 milhas
- Início dos mutirões: 26 de setembro de 2026
- Financiamento: National Fish and Wildlife Foundation e NOAA
A primeira etapa prevê a retirada manual de árvores pequenas, mudas e propágulos no Kawainui Stream, entre o Kawainui Neighborhood Park e a ponte da Hāmākua Street. Depois, áreas recuperadas receberão plantas nativas para reduzir o risco de reinvasão.
A remoção, porém, não termina com o corte das árvores. Como novos brotos podem surgir a partir de propágulos transportados pela água, o projeto prevê monitoramento contínuo. A meta é recuperar o fluxo dos cursos d’água, ampliar novamente os habitats abertos e devolver espaço à vegetação e à fauna nativas.













