O El Niño muito forte que está se formando no Pacífico deve alterar chuvas e temperaturas no Brasil nos próximos meses, aumentando o risco de perdas agrícolas e pressão sobre os preços dos alimentos.
Em consulta do Banco Central com economistas, a estimativa mediana foi de impacto de 0,3 ponto percentual no IPCA de 2026 e 0,4 ponto em 2027. Os alimentos estão entre os itens mais sensíveis às mudanças climáticas.
O mercado internacional já mostra sinais dessa pressão. Em agosto, o índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) subiu 1,9% em relação a julho, enquanto o açúcar avançou 11,9%, influenciado por preocupações com a oferta mundial e condições climáticas em grandes países produtores.
Por que o El Niño pode encarecer os alimentos
O fenômeno altera chuvas e temperaturas de forma diferente em cada região. No Brasil, as projeções indicam chuvas acima da média no Sul e abaixo da média em partes do Norte e Nordeste, além de temperaturas elevadas em grande parte do país. O cenário pode afetar produtividade, plantio e colheita.
O impacto não será igual para todas as culturas. Enquanto a falta de chuva pode reduzir a produtividade de determinadas lavouras, o excesso de água pode provocar perdas em outras. Por isso, os efeitos sobre os preços dependerão da região, da cultura e da intensidade das alterações climáticas.
O açúcar já dá um sinal
O açúcar está entre os mercados mais afetados. A FAO registrou alta de 11,9% no preço internacional em agosto, maior nível desde junho de 2025. A organização citou condições relacionadas ao El Niño em países produtores da Ásia, problemas climáticos na União Europeia e perspectivas de menor produção no Centro-Sul do Brasil.
No mercado brasileiro, alterações na oferta podem chegar à indústria e ao consumidor por meio da cadeia de preços. Isso não significa que o varejo repetirá a mesma alta das bolsas internacionais, mas uma oferta menor aumenta a pressão sobre os valores.
Juros em queda apesar da pressão inflacionária
O Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro, corte de 0,25 ponto percentual e o quinto consecutivo. O Copom considerou a desaceleração da atividade econômica e o recuo da inflação, que acumulava 4,22% em 12 meses até agosto. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre.
O Copom não sinalizou novos cortes e afirmou que os próximos passos dependerão da evolução dos preços e dos demais indicadores. Enquanto o El Niño pode pressionar a oferta e os preços de determinados alimentos, a política monetária considera os efeitos mais amplos sobre a economia.
Se o fenômeno provocar perdas em culturas específicas, a menor oferta poderá elevar preços mesmo em um cenário de atividade econômica mais fraca. O impacto dependerá das condições de cada região e produto.













