Pecuaristas na região amazônica começam a substituir pastagens degradadas pelo cultivo de cacau em sistemas agroflorestais, nos quais a planta cresce à sombra de árvores nativas como açaí, andiroba e babaçu. A mudança faz parte da estratégia do governo brasileiro para frear o desmatamento: como o cacau é originário da floresta amazônica, pode ser cultivado sem pressionar a mata intocada.
Em Medicilândia, município de 23 mil habitantes no Pará, um arco sobre a estrada recebe os visitantes com uma vagem de cacau e a inscrição “capital do cacau”. Localizada a 90 quilômetros pela região, a cidade exemplifica como a Amazônia oferece alternativas econômicas à pecuária, que historicamente dominou a paisagem.
Um modelo sustentável para a floresta
O plano Inova Cacau 2030 prevê que o cacau cultivado em sistemas agroflorestais de alta biodiversidade pode tornar o Brasil líder global em produção sustentável da commodity. Ao cultivar cacau em milhões de hectares de terras degradadas pela pecuária, o país evita pressionar a fronteira florestal e gera renda para quem deixa a atividade.
Um estudo de viabilidade econômica conduzido pela CocoaAction Brasil — uma coligação público-privada — e pela organização filantrópica Instituto Arapyau apontou que o cacau bem manejado em agroflorestas aumenta a produtividade e a resiliência das plantas, além de gerar fluxo contínuo de renda para agricultores familiares e retornos financeiros para investidores.
Grandes corporações apostam no modelo
Empresas multinacionais começaram a testar o modelo em escala comercial. A Nestlé Brasil anunciou uma parceria com a trader Barry Callebaut para implantar agroflorestas em 6 mil hectares no Pará e na Bahia, com planos de plantar 7,7 milhões de mudas de cacau e espécies nativas.
O investimento indica confiança na viabilidade econômica e na superioridade ambiental do sistema agroflorestal em relação à pecuária convencional. Alguns pecuaristas que adotaram o cacau relatam aumento de até 60% na renda de suas propriedades. A transição de uma atividade que degradava as pastagens atrai produtores interessados em diversificar as fontes de receita enquanto recuperam terras improdutivas.
Risco de modelo insustentável em paralelo
A alta dos preços globais do cacau, que triplicaram em 2024, atraiu grandes empresas agrícolas brasileiras para plantações em monocultura sob sol pleno, em terrenos do tamanho de cidades inteiras. Embora tenham caído para cerca de US$ 6 mil, os preços continuam o dobro do patamar de 2023.
Alguns produtores rurais afirmam que o Brasil, hoje incapaz de atender à própria demanda interna, pode se tornar a cesta de cacau do mundo. Esse modelo de cacau industrial, porém, traz riscos ambientais e sociais comparáveis aos da soja e da palma.
Contradições e desafios na expansão
Um relatório da organização AidEnvironment documentou casos de plantações de cacau brasileiras associadas a desmatamentos recentes, irregularidades em registros de terra e “condições de trabalho análogas à escravidão”. A coexistência de dois modelos — um agroflorestal regenerativo e outro industrial predatório — coloca em risco o potencial da transição para beneficiar tanto a Amazônia quanto as comunidades locais.
João Carlos Silva, diretor da Earthworm Foundation no Brasil, que trabalha com a Nestlé e outras empresas em cacau sustentável, avalia que, com salvaguardas ambientais e sociais adequadas, a mudança representa “uma transformação revolucionária para a Amazônia, para as comunidades e para a demanda global de cacau”.
Sem regulação fundiária clara, produtores podem abandonar sistemas agroflorestais por monoculturas de cacau, repetindo o desmatamento causado pela soja e pela palma. Marcos legais específicos sobre o uso da terra e a certificação são necessários para viabilizar economicamente o modelo florestal que protege a biodiversidade da Amazônia.













