Harry Gibson trabalha todos os dias na ordenha de mais de 300 vacas leiteiras ao lado do filho, em sua fazenda no Vale de Goulburn, no centro-norte de Victoria, na Austrália. Completamente cego há 10 anos, o produtor de quarta geração em Nanneella mantém a rotina.
Sua esposa, Diana, de 82 anos, convive com a doença de Parkinson — que ela descreve como uma desgraça — e permanece ao seu lado. Juntos, os dois enfrentaram obstáculos sucessivos e continuaram trabalhando para manter a propriedade produtiva. O agricultor perdeu gradualmente a visão a partir dos 20 anos, quando começou a ter dificuldade para ler.
A condição foi diagnosticada como retinose pigmentar — uma doença genética rara que causa a degeneração da retina — e avançou lentamente ao longo das décadas. Ele se recusa a usar bengala branca e aprendeu a se orientar pela memória da propriedade. Às vezes, usa um cano de PVC para tatear o caminho pela fazenda.
A parceria que sustenta a rotina diária
Diana cresceu em vários pontos do estado e viajou pelo mundo antes de se estabelecer na fazenda. Com o avanço da doença de Parkinson, que afeta seus movimentos e sua memória, ela passou a depender do apoio do marido para caminhar e segura o cotovelo dele enquanto ele a orienta.
Assim, os papéis que ocupavam décadas atrás se inverteram. Quando o agricultor ainda conseguia ver, Diana era quem o guiava ao redor do pasto, apontando qual vaca estava prestes a dar à luz. Agora, ele precisa encontrar seu próprio caminho e ela deve se apoiar nele.
Diana diz que a própria memória está desaparecendo. Harry reconhece que é difícil perder partes da companheira que conheceu há quase 50 anos, mas disse ao veículo de origem que isso faz parte da vida.
Técnica e determinação no trabalho diário
Na sala de ordenha, a cegueira não é tão limitante quanto pode parecer. Os animais ocupam sempre os mesmos lugares, a poucos centímetros da posição habitual. O agricultor sente os tetos dianteiros com os dedos na borda do equipamento de ordenha e faz o trabalho com eficiência.
Ele se frustra, mas a rotina dos animais e a familiaridade com o espaço compensam as limitações visuais. Quando Harry deixou de dirigir carros, Diana se tornou seu elo com a vida além da fazenda. Ela aprendeu a dirigir tratores, administrar toda a propriedade, cuidar das tarefas domésticas e criar dois filhos — tudo enquanto o marido perdia a visão.
Nos primeiros anos, Diana ouvia críticas de “pobre Harry cego e sua mulher citadina”, o que só reforçou sua determinação em fazer tudo funcionar.
Antes de se casar, os dois conversaram sobre os papéis que cada um teria. Harry não esperava que ela usasse as calças, nem imaginava que ele as usaria — e a divisão funcionou muito bem.
O pai de Harry tinha uma visão tradicional sobre gênero: acreditava que o homem devia gerir o negócio e a mulher ficar na cozinha, e chegou a compartilhar essa convicção com Diana. Agora, o casal emprega principalmente mulheres na fazenda, e Harry rejeita a desigualdade de gênero. Ao longo dos 47 anos juntos, desenvolveram um sistema de trabalho que funciona.
Ambos reconhecem que nenhum dos dois conseguiria fazer sozinho o que fazem.
Um encontro inesperado que durou quase cinco décadas
O relacionamento começou sem grandes expectativas, e Harry conheceu Diana em uma sala de espera de consultório médico em Rochester, onde ela trabalhava como recepcionista. Ele não prestou muita atenção no primeiro encontro, e ela também não. 10 anos depois, quando ele a convidou para um casamento de amigo, algo mudou, e o relacionamento já dura quase cinco décadas.
Diana diz que a tolerância é a chave para um casamento bem-sucedido e observa que Harry faz mais do que deveria. Harry considera que sua geração entende melhor o compromisso, e quase todos os amigos deles que ainda estão vivos continuam com os parceiros; os únicos solteiros do grupo perderam os cônjuges.
Quando se casaram, os dois concordaram em permanecer juntos até que a morte os separasse. Embora não espere esse dia com entusiasmo, Harry está resignado a cuidar completamente de Diana se não falecer antes. Prefere não pensar no futuro e viver à medida que as coisas acontecem.
Nos próximos um ou dois anos, quando Diana não conseguir mais dirigir, eles planejam se mudar para a cidade. A decisão o desagrada, mas ele a considera filosoficamente inevitável.













