O conglomerado de fazendas no Brasil Central começou quando José Francisco Senna, hoje advogado e pecuarista, e Pedro Senna, médico, transformaram uma pequena iniciativa comercial em uma trajetória de sucesso. Na adolescência, os irmãos vendiam frutas e salgados de porta em porta, até que o pai vendeu 75 vacas para comprar uma lanchonete para os filhos. Em apenas quatro meses, eles conseguiram recomprar todo o rebanho.
A partir dessa experiência, os irmãos construíram uma trajetória que os levou a se tornar referência nacional na produção de carne bovina de alta qualidade.
A base do negócio está na Fazenda Jaçanã, em Bonópolis (GO), onde os irmãos aplicam técnicas de manejo que permitem desmamar bezerros Nelore com mais de 300 kg. O resultado aparece no abate: animais jovens e pesados, entregues à indústria com rendimento de carcaça entre 57% e 58%.
A trajetória combina criatividade financeira, disciplina técnica e adoção antecipada de tecnologia no campo. Exibido nesta sexta-feira (5), o programa Giro do Boi reconstituiu esse percurso em Mozarlândia (GO).
Nutrição que começa antes do nascimento
Na Fazenda Jaçanã, o cuidado com o desempenho do rebanho começa antes do parto. As matrizes passam a gestação em áreas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), e a alimentação correta da vaca no terço médio e final da gestação influencia a formação muscular do bezerro ainda no útero.
Esse conceito de nutrição fetal se completa com o manejo das vacas recém-paridas durante a seca, justamente quando a estiagem é mais severa, em agosto. Feno de qualidade produzido na própria fazenda, silagem de capim e proteinado de seca mantêm a produção de leite firme e permitem que a vaca reemprenhe cedo, entre setembro e outubro.
https://www.youtube.com/watch?v=yW4iE9y-4ocO fim do boi que ganha e perde peso
Com a chegada das chuvas, os bezerros nascidos no início do ano já estão fortes e aproveitam o pasto rotacionado com sal proteinado no cocho até atingirem 300 kg na desmama. Essa engrenagem só existe porque os irmãos romperam, 29 anos atrás, com uma lógica que prejudicava o rebanho havia gerações.
O ponto de virada veio depois que José Francisco assistiu a uma palestra do professor Moacir Corsi, da USP/Esalq. Corsi comparou o mercado agropecuário a um rolo compressor: ou o produtor está em cima dele, ou é esmagado por ele.
A mensagem selou o fim do chamado boi sanfona, aquele que engorda nas águas e volta a perder peso na seca. Desde então, a fazenda investe em reforma de pastagens com o sistema milho-forragem, produção própria de silagem de capim e sorgo, além do uso de sêmen de central para melhorar a genética do plantel.
Da venda de salgados à pecuária de precisão
Antes da virada técnica, José Francisco e Pedro já confinavam pequenos lotes de gado na chácara da família, um ensaio do que viria depois em escala muito maior. A experiência comercial adquirida na adolescência, vendendo frutas e salgados pelas ruas, ajudou os irmãos a captar recursos e reinvestir no próprio negócio.
Essa experiência, somada à disciplina técnica adquirida ao longo de quase três décadas, levou os irmãos a entregar hoje lotes de machos e fêmeas precoces, com 18 a 20 meses de idade e cerca de 600 kg de média a campo, diretamente para a JBS.
O salto de pequenos lotes de chácara para fornecimento a uma das maiores processadoras de carne do país mostra o quanto o manejo de precisão pode transformar o resultado final no curral.
Quando a Integração Lavoura-Pecuária não resolve tudo
Embora a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) seja importante para acabar com o “boi sanfona”, ela não funciona sozinha. A estratégia dos irmãos Senna também incluiu a produção própria de silagem de capim e sorgo, o uso de sêmen de central para melhorar a genética do rebanho e o manejo rigoroso de pasto rotacionado com sal proteinado no cocho. A ILP é necessária, mas o sucesso depende de investimentos técnicos e de infraestrutura na fazenda.













