Imagine uma fazenda onde as vacas passam pela sala de banho várias vezes ao dia, inclusive antes e depois da ordenha. A rotina faz parte dos cuidados com o rebanho da Fazenda São José, em Tapiratiba, no interior de São Paulo, propriedade responsável pela marca Fazenda Bela Vista e considerada a maior produtora de leite do Brasil.
Com 2.750 vacas em lactação, a fazenda alcançou uma produção de 102 mil litros de leite por dia em 2025 e voltou à liderança do ranking MilkPoint/Abraleite em 2026. Por trás dos números estão investimentos em tecnologia, genética, manejo e, principalmente, no bem-estar animal.
Banhos ajudam a combater o calor e proteger a produção
Na Fazenda São José, o banho não é apenas uma questão de higiene. Em uma região onde as temperaturas podem ultrapassar os 35 °C durante o verão, a água também é utilizada para aliviar o estresse térmico das vacas, que pode comprometer o desempenho produtivo.
O cuidado é especialmente importante porque o rebanho é formado por animais da raça Holandesa, conhecidos pela elevada capacidade leiteira, mas também pela sensibilidade ao calor. Por isso, alguns exemplares passam até seis vezes por dia pela sala de banho.
Fazenda mais que dobrou a produção em oito anos
O resultado dos investimentos aparece nos números. Em oito anos, a produção diária da Bela Vista passou de aproximadamente 47 mil para 102 mil litros de leite, um crescimento superior a 100%.
No mesmo período, o número de vacas em lactação aumentou de 1.700 para 2.750 animais. A expansão ocorreu sem a necessidade de comprar animais para ampliar o rebanho, graças ao trabalho de reprodução e à melhoria dos índices produtivos.
A média individual também avançou. Antes, cada vaca produzia cerca de 28 litros por dia. Atualmente, a média chega a 42 litros, enquanto mais da metade dos animais já alcança aproximadamente 49 litros diários.
O desempenho colocou novamente a propriedade no topo do ranking nacional de produção de leite, superando a Fazenda Colorado, localizada em Araras, também no interior paulista.
Tecnologia e manejo mudaram a rotina do rebanho
A busca por produtividade não depende apenas de aumentar o número de animais. Na Fazenda São José, mudanças nas instalações e no manejo ajudaram a criar condições para que o rebanho expressasse melhor seu potencial genético.
A propriedade utiliza o sistema free stall, no qual as vacas ficam soltas em galpões e contam com camas individuais para descanso. Já na fase de recria, parte dos animais é criada no sistema compost barn, que oferece uma área coberta para repouso com material orgânico utilizado como cama.
O modelo compost barn começou a ser implantado em 2019, com o objetivo de proporcionar uma recria mais tranquila e reduzir os desafios sanitários enfrentados pelos animais antes de entrarem em produção.
A fazenda também investiu no acompanhamento da temperatura corporal das vacas por meio de sensores, permitindo identificar momentos estratégicos para melhorar o conforto térmico. A combinação entre observação, tecnologia e ajustes no manejo passou a integrar a rotina da propriedade.
História da fazenda começou com apenas 70 litros de leite por dia
A trajetória da Fazenda São José teve início em 1960, quando Orostrato Olavo Silva Barbosa, conhecido como “Rei do Leite”, começou a atividade leiteira na propriedade. Naquela época, os animais eram criados a pasto e a ordenha era feita manualmente.
A produção inicial era de aproximadamente 70 litros por dia, um volume distante da escala alcançada atualmente. Ao longo das décadas, a família investiu em novas instalações, genética e equipamentos para transformar a fazenda em uma referência da pecuária leiteira.
Em 1987, a propriedade adotou o sistema free stall, uma das primeiras iniciativas desse tipo no Brasil. A decisão veio após visitas internacionais para conhecer modelos de produção utilizados nos Estados Unidos, no México e na Europa.
A mudança marcou uma nova etapa na profissionalização da atividade, com maior atenção às instalações e às condições oferecidas aos animais.
Meta é chegar a 150 mil litros de leite por dia
Depois de alcançar a marca de 102 mil litros diários, a Fazenda Bela Vista já trabalha para ampliar novamente a produção. A meta é chegar a 150 mil litros por dia nos próximos três anos.
Para acompanhar o aumento da oferta de leite, a empresa está investindo R$ 15 milhões na ampliação do laticínio instalado na própria propriedade. O projeto inclui novos equipamentos de processamento, linhas de envase, instalações de armazenamento e uma estrutura maior para atender à demanda.
A capacidade de processamento da unidade poderá alcançar 6 milhões de litros por mês. A empresa também planeja ampliar a produção de iogurtes e diversificar o portfólio, que já inclui diferentes tipos de leite, queijos, creme de leite e outros derivados.













