O Grupo Ruiz Coffees, segundo maior produtor de café do país, entrou com pedido de recuperação judicial em 8 de outubro. A companhia busca reestruturar uma dívida próxima de R$ 775 milhões.
Segundo a empresa, a dívida foi fruto de três quebras de safra consecutivas, causadas por eventos climáticos severos. Nos anos que antecederam os problemas climáticos, o volume médio colhido pela empresa girava em torno de 150 mil sacas de café arábica anuais.
Ao CNN Brasil, o diretor financeiro Ricardo Prado afirmou que o foco atual do grupo está em bancar o custeio das plantações durante o ciclo 2026/27 e em manter os mais de 500 postos de trabalho diretos que a operação sustenta.
Proteção judicial e suspensão de execuções
Em 20 de outubro, o juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf determinou a suspensão de execuções de dívidas por 30 dias e proibiu credores de antecipar vencimentos de contratos. O magistrado reconheceu que as sacas de café já colhidas e os frutos ainda nas lavouras são essenciais à atividade do grupo.
A decisão também impediu credores não sujeitos à recuperação judicial de arrestar ou penhorar esse café para pagar dívidas. O pedido tramita na vara empresarial de São José do Rio Preto e envolve cinco entidades: Agropecuária JBP, Agropecuária JRF, Agropecuária Ruiz, Auto Posto Central Bálsamo e uma produtora rural individual.
Clima extremo, vendas antecipadas e encarecimento do crédito
Perdas climáticas sucessivas marcaram o período: geada em julho de 2021 com impactos nas safras seguintes, calor extremo durante a florada de 2023 e estiagem em 2024. Entre 14% e 28% das colheitas foram perdidas em relação aos volumes que a companhia havia projetado internamente.
O cultivo depende do caixa da colheita anterior para financiar o ciclo seguinte. Quando as quebras se repetem, o dinheiro disponível diminui e compromete a capacidade de investir nos próximos plantios. Prado esclareceu que a companhia já havia vendido grande parte da produção antecipadamente a tradings, com preços fixados antes da alta do café no mercado internacional.
Com menos café para entregar, o grupo precisou reprogramar entregas entre safras, e os compromissos anteriores pressionaram os ciclos futuros. A valorização do café não trouxe alívio porque a maior parte das sacas já estava comprometida com clientes por preço menor, negociado meses antes.
Crise de liquidez, não de inviabilidade operacional
Prado afirmou à CNN Brasil que se trata de uma crise de liquidez, não de viabilidade da operação, que segue rentável e funcionando normalmente. Entre 2020 e 2023, a companhia contratou crédito para ampliar áreas, investir em irrigação e modernizar a operação. A alta dos juros nos anos seguintes encareceu as dívidas vinculadas ao CDI.
Ao mesmo tempo, o grupo enfrentou redução na oferta de crédito ao agronegócio, associada à crise do complexo de grãos, e não conseguiu refinanciar os débitos quando os vencimentos se concentraram em 2025 e 2026.
A reestruturação envolve operações com CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Segundo Prado, fazendas dadas em garantia passariam a ser detidas por um fundo de investimento, enquanto o Grupo Ruiz manteria a posse e a operação das áreas. A companhia continuaria responsável pelo manejo, colheita e comercialização da produção.
As operações envolvem cerca de 1,5 mil hectares de café e outros 1,1 mil hectares de cana-de-açúcar. O modelo permite negociar prazos e condições financeiras mais compatíveis com o ciclo do café. Já os bens dados em garantia fiduciária a bancos e cooperativas não mudam de titularidade, continuando vinculados às operações que foram renegociadas.
Para a próxima safra, o grupo trabalha na garantia do custeio necessário, que será essencial para manter a produção funcionando e evitar demissões durante esse processo de recuperação judicial em curso.













