Pecuaristas de uma propriedade rural de Bonang, no leste de Gippsland, na Austrália, tiveram uma grande surpresa em 2019. Uma vaca da raça Hereford deu à luz quatro filhotes de uma só vez.
Os criadores David e Julie Ingram tinham experiência com nascimentos múltiplos: em 2018, registrou 12 partos de gêmeos na propriedade e outros oito naquele ano. No ano anterior, a mesma fêmea havia gerado gêmeos, e por isso, o casal a isolou em um pasto reservado próximo à casa, com boa pastagem, à espera de outro parto duplo.
Em vez disso, nasceram duas fêmeas e dois machos, todos entre três e quatro semanas prematuros, o que gerou preocupação imediata sobre a sobrevivência dos filhotes.
Cuidados especiais na criação dos filhotes
Julie Ingram relatou que a fêmea conseguiu alimentar dois deles sozinha e cuidou de todos, limpando-os logo após o parto. Mesmo assim, o casal sabia que deixar os filhotes ao relento durante a noite seria arriscado para os mais frágeis.
O mais forte dos quatro permaneceu com a mãe, enquanto os outros três passaram a receber alimentação e cuidados manuais. Cerca de uma semana depois, uma das fêmeas pôde voltar a ficar com a mãe.
A outra fêmea e os dois machos ficaram sob observação em um pasto reservado por seis semanas, até poderem se juntar ao restante do rebanho. Os dois machos, porém, apresentaram complicações relacionadas ao parto e precisaram ser sacrificados.
Um caso excepcional na avaliação veterinária
O episódio chamou a atenção do veterinário Peter Alexander, que atua há mais de 40 anos na região de Bega Valley. Segundo ele, seria preciso consultar registros como o Guinness Book para confirmar a raridade do caso.
Partos triplos já foram vistos algumas vezes, mas um grupo de quatro filhotes é excepcional. Isso porque uma vaca normalmente libera um único óvulo por vez, o que resulta em apenas um filhote na maioria das gestações.
Para que quatro nascessem ao mesmo tempo, seria necessário que quatro óvulos fossem liberados na mesma ovulação, algo raro na espécie.
Riscos de uma gestação múltipla
Justamente pela raridade, gestações com múltiplos fetos exigem mais do organismo da fêmea e aumentam a chance de nascimento prematuro. Quando há três ou quatro filhotes, a incidência de partos antecipados é maior do que nas gestações de gêmeos.
Peter Alexander alertou que esses animais podem parecer saudáveis à primeira vista, mas frequentemente têm pulmões pouco desenvolvidos, o que dificulta a respiração.
Outra preocupação levantada por Peter Alexander envolve a fertilidade futura dos filhotes que sobreviveram ao parto. Conforme informou ao ABC, algumas das fêmeas nascidas com irmãos machos podem se tornar “freemartins”, animais com desenvolvimento reprodutivo muito rudimentar e incapazes de ter filhotes.
Por que uma fêmea nascida com macho pode ficar infértil
Quando uma fêmea e um macho nascem juntos como gêmeos, os vasos sanguíneos dos dois podem se conectar dentro da placenta. Isso cria uma circulação compartilhada entre os animais ainda no útero. O problema ocorre porque as células do macho começam a produzir hormônios, como a testosterona e o hormônio antimülleriano.
Essas substâncias atravessam a circulação compartilhada e masculinizam o desenvolvimento da fêmea. O resultado é uma vaca com órgãos reprodutivos pouco desenvolvidos ou “masculinizados”, incapaz de ter filhotes naturalmente.
Quanto mais cedo ocorre a fusão dos vasos durante a gestação, mais forte é o efeito. Em cerca de 10% dos casos, porém, a fêmea permanece fértil porque a conexão entre os vasos não se estabelece.
Quando fêmeas nascidas com machos podem escapar da infertilidade
Vale ressaltar que nem toda fêmea que nasce como gêmea de um macho se torna infértil. A fusão dos vasos sanguíneos na placenta é necessária para que o problema ocorra e não acontece em aproximadamente 10% dos casos.
Sem essa conexão, a fêmea não recebe os hormônios masculinizantes do irmão, desenvolve-se normalmente e mantém a capacidade reprodutiva.
Se uma fêmea nascida com macho ficar fértil mesmo assim, seus filhotes terão o mesmo problema?
Não, a infertilidade causada pelo nascimento junto com um irmão macho ocorre durante o desenvolvimento no útero e é específica daquele animal.
Caso a fêmea chegue a ter filhotes, essa característica genética não é transmitida à próxima geração, significando que seus filhotes nascerão normais e férteis.













