Pesquisadores da Universidade da Florida descobriram que uma família da ordem dos roedores possui a capacidade de cultivar o próprio alimento. Os Geomiídeos se tornaram os primeiros mamíferos, além do ser humano, a ter essa capacidade registrada.
Os Geomiídeos mantêm, dentro dos túneis que escavam, uma espécie de sistema de cultivo que lhes garante raízes frescas. O comportamento não corresponde à agricultura no sentido tradicional, já que os animais não plantam sementes nem arrancam ervas daninhas.
Ainda assim, os túneis funcionam como um ambiente controlado, que favorece o crescimento das raízes consumidas depois como alimento.
Como funciona o cultivo subterrâneo
Pequenos e de pelagem castanha, aproximadamente do tamanho de uma cobaia, os Geomiídeos passam a maior parte da vida sob a terra. Eles saem apenas para buscar comida ou se acasalar, e a dieta inclui raízes, caules e algumas plantas e gramíneas que encontram na superfície.
Ao cavar túneis extensos, os animais revolvem o solo e criam espaço para que raízes cresçam penduradas dentro das galerias. A escavação também areja a terra e parece dar início a todo o sistema.
Experimento revela a lógica do processo
Para entender essa dinâmica, a equipe isolou trechos de túneis em uma pastagem em Gainesville, cercando a área com barris para impedir a entrada dos roedores. Nos trechos bloqueados, as raízes cresceram livremente e ocuparam o espaço vazio, enquanto nos túneis ainda habitados elas permaneciam curtas, sinal de que os animais as consumiam continuamente.
A partir desses dados, os cientistas calcularam quanta energia necessária para cavar um túnel poderia vir das raízes comidas durante a própria escavação. O resultado mostrou que essa energia não seria suficiente. Ao se alimentar de raízes já crescidas em galerias antigas, porém, os Geomiídeos conseguem suprir entre 21 e 62% de suas necessidades energéticas.
Adubo natural dentro das galerias
Ao manter e ampliar essa rede de túneis, os roedores moldam um ambiente propício para o crescimento constante das raízes. Fezes e urina deixadas pelo caminho funcionam como adubo, fertilizando o solo onde as raízes se desenvolvem.
A zoóloga Veronica Selden, da Universidade da Florida e primeira autora do estudo, disse em declaração que o processo cria um ambiente perfeito para o crescimento das raízes, adubado pelos próprios dejetos dos animais.
O ecólogo Francis Putz, também da Universidade da Florida e coautor da pesquisa, disse à National Geographic que, quando o roedor morde uma raiz grossa, rica em lignina e celulose e, por isso, difícil de digerir, a planta reage produzindo diversas raízes menores, mais macias e fáceis de comer.
É esse ciclo de corte e brotamento que sustenta o fornecimento de alimento dentro dos túneis. Ainda há quem conteste a ideia de que os Geomiídeos pratiquem agricultura, já que não plantam nem distribuem sementes como os humanos.
Mesmo assim, os pesquisadores envolvidos no estudo acreditam que a descoberta indica a possibilidade de outros roedores que vivem no solo apresentarem comportamentos que possam ser considerados criação de animais ou plantas.













