O produtor rural italiano Massimo Rapella decidiu criar cerca de 2.100 galinhas soltas numa área preservada de floresta alpina perto de Sondrio, no vale de Valtellina, no norte da Itália. Ele decidiu devolver as aves à vida selvagem, e o resultado surpreendeu até ele.
Desde 2009, Rapella e a esposa, Elisabetta, deixam as aves livres entre castanheiras, raízes e galhos. Na mata, elas se alimentam de formigas e outros insetos encontrados no solo. A rotina lembra o comportamento ancestral da espécie. A galinha doméstica surgiu da domesticação de galináceos selvagens do Sudeste Asiático.
De ONG a produtor rural por acaso
Rapella não vinha de uma tradição familiar ligada à criação animal. Ele conta que virou criador de galinhas por acidente, depois de administrar junto com a esposa uma ONG de educação na cidade vizinha de Sondrio.
A crise financeira de 2008 cortou o financiamento do governo italiano para empreendimentos sociais e levou o casal às montanhas em busca de um novo caminho. No início, a ideia era simples: manter poucas galinhas para consumir os próprios ovos.
O comportamento que mudou tudo
As aves começaram a sair do cercado e a explorar a mata ao redor. O hábito chamou a atenção do casal. Em vez de impedir a movimentação, Rapella passou a incentivar as galinhas a explorar o bosque e a pôr ovos ali mesmo.
Poucos meses depois, ele notou mudanças nos animais: penas mais brilhantes, cristas com cores mais vivas e ovos com sabor mais encorpado. Esse resultado o levou a pensar em ampliar o plantel e criar um produto próprio para vender nos mercados locais.
Do bosque para a mesa
Rapella vende o uovo di selva, ou ovo do bosque, diretamente para cerca de 400 consumidores e 40 restaurantes da região. O produto recebe esse nome por causa da liberdade dada às galinhas dentro da floresta.
Esse sucesso talvez tenha explicação na própria origem genética da espécie. Segundo Phillip J. Clauer, professor assistente de ciência animal da Penn State University, o ancestral principal da galinha doméstica, o galo-da-selva vermelho, era uma ave que vivia solta na natureza, afugentando predadores e buscando o próprio alimento no ambiente selvagem.
Da seleção genética à produção diária
Diferente das galinhas domésticas, que podem botar ovos quase todos os dias, o galo-da-selva vermelho põe apenas duas vezes por ano em condição silvestre. Segundo o professor da Penn State University, humanos adaptaram a espécie ao longo do tempo para aumentar essa frequência.
As primeiras evidências desse processo remontam ao Egito Antigo, onde fornos de incubação permitiam chocar pintos e liberar as fêmeas adultas para produzir mais ovos. Técnicas semelhantes também foram aplicadas à seleção para produção de carne.













