Após 80 anos produzindo leite, uma família de produtores de Queensland, na Austrália, pode perder um rebanho de 600 vacas e encerrar 80 anos de atividade depois do fim do contrato de fornecimento com seu principal comprador.
A Maleny Dairies, processadora que comprava a produção, informou a Jason Rozynski, em junho, que encerraria a relação comercial. Com isso, a família ficou sem comprador para os cerca de 3,3 milhões de litros de leite que produz por ano em duas fazendas.
A família enfrenta a possibilidade de abater as vacas e encerrar as atividades. Rozynski consultou outros processadores, mas todos disseram que as agendas estão fechadas e não há espaço para novos fornecedores. Enquanto a filha dele, Payton, de 17 anos, competia em julgamento de laticínios na Ekka, Rozynski pensava no futuro da fazenda.
Uma década de parceria encerrada
A decisão da Maleny Dairies encerrou uma parceria comercial de longa data com a família. Ross Hopper, um dos donos da processadora, disse, segundo o relato original, que se tratava de uma decisão comercial. Ele afirmou que não pretendia agir de forma irresponsável, mas garantir a viabilidade do negócio e evitar um colapso que prejudicaria ainda mais os agricultores.
Antes, a empresa enviava leite excedente para outro processador com prejuízo, mas encerrou esse arranjo. A empresa processa leite de 11 fazendas na região sudeste de Queensland e emprega mais de 50 trabalhadores em sua unidade de beneficiamento, que recebeu investimentos em automação e robótica.
Segundo Hopper, conforme o relato original, o problema é estrutural: atualmente, há excesso de leite no estado. Ele disse que cerca da metade do leite consumido em Queensland, estimado entre 250 milhões e 300 milhões de litros por ano, vem de outros estados.
A Maleny Dairies comprava leite de fora do estado apenas quando a oferta local era baixa, mas agora precisava ajustar o fluxo e o volume de fornecimento. Como outros processadores regionais, a Maleny Dairies precisou ajustar os contratos de fornecimento ao volume disponível e, com isso, encerrou a parceria com os Rozynski.
Plano de expansão enfrenta obstáculos
A crise ocorre apenas seis meses após o lançamento de um plano estadual para o setor de laticínios, com vigência de 2026 a 2032. O plano reuniu agricultores, processadoras e o governo estadual com o objetivo de aumentar em cinco por cento a produção de leite da região.
A família Rozynski foi uma das destacadas no lançamento do plano, em fevereiro, ao lado de representantes de grandes processadoras como Norco, Bega Cheese, Lactalis Australia e Dairy Farmers. Nenhuma dessas empresas, porém, aceitou absorver a produção da família após o rompimento com a Maleny Dairies.
Para a família, o cenário é contraditório: enquanto políticas estaduais promovem o aumento da produção leiteira, os canais de distribuição permanecem fechados. Rozynski disse ao site de origem que considera difícil entender como, mesmo produzindo leite de alta qualidade e mantendo boas condições de bem-estar animal, a família não consegue encontrar um comprador.
O caso expõe o desequilíbrio entre a produção local e a capacidade de processamento instalada no estado.
Por que os processadores fecham as portas para novos fornecedores
Quando um processador de leite fecha a agenda para novos fornecedores, tenta evitar perdas financeiras. A Maleny Dairies, por exemplo, chegou a enviar leite excedente para outro processador com prejuízo, um arranjo que não era sustentável. Ao rejeitar novos contratos, a empresa procura ajustar o volume recebido à quantidade que consegue processar e vender com lucro.
O ajuste ocorre porque há um desequilíbrio entre o leite disponível e a capacidade de processamento. Aproximadamente metade do leite consumido em Queensland vem de outros estados, enquanto a produção local ultrapassa o volume que os processadores conseguem absorver.
Ao fechar contratos, a empresa tenta manter o negócio viável: se o processador quebra, todos os fornecedores sofrem as consequências.













