Uma oportunidade comercial pode ajudar a salvar os gados Pantaneiros, que contam com apenas 500 exemplares vivos atualmente. Essa raça bovina única, adaptada ao maior pântano tropical do mundo, enfrenta risco crítico, apesar das características evolutivas extraordinárias que desenvolveu ao longo de séculos.
O gado forma rebanhos que vadeiam por terrenos alagados do Pantanal, região que se estende pelo Brasil, pela Bolívia e pelo Paraguai. Seus chifres longos e curvos e sua fisiologia especial permitem que os animais sobrevivam nesse ambiente e resistam a doenças, carrapatos e temperaturas extremas.
Do leite ao queijo: a salvação através da gastronomia
Transformar seu leite em queijo pode salvá-los da extinção. Desde 2013, o geneticista Sergio Dani trabalha no Projeto Bioma Queijo, que promove e comercializa a Nicola, queijo produzido com esse leite. A aposta é que o aumento da demanda pelo produto garanta a viabilidade econômica da criação e, consequentemente, a sobrevivência da raça.
Dani acredita que, se mais pessoas experimentarem e comprarem o queijo, essa linhagem única e cientificamente importante poderá ser preservada. Fazendeiros locais, como Marcus Ruiz, produzem a Nicola há séculos. A propriedade do criador fica no sul do Pantanal, próxima à fronteira do Paraguai.
O queijo é preparado com leite aquecido a cerca de 70º C e depois deixado em um saco, ao ar livre, por no mínimo uma semana. O produto dura até 30 dias sem refrigeração, um fator crucial em uma região que recebeu eletricidade apenas nas últimas décadas.
O resultado é um queijo de consistência dura por fora e macia internamente, textura similar à mussarela, com sabor único que Ruiz atribui às plantas silvestres que seus animais consomem nos pântanos.
Origem evolutiva e importância genética global
O gado Pantaneiro descende de raças europeias trazidas por colonizadores espanhóis e portugueses há séculos. Ao longo de 500 anos, a seleção natural adaptou a raça ao ambiente hostil. Com tolerância à escassez de alimento, imunidade contra certas doenças e carrapatos e resistência a períodos de inundação e calor extremo, e os animais suportam temperaturas de até 40ºC.
Segundo Marcus Vinicius Morais de Oliveira, conservacionista e pesquisador ligado ao Núcleo de Conservação do Bovino Pantaneiro da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Essa é a única raça bovina conhecida que se reproduz em terrenos alagados.
Oliveira e Dani argumentam que os genes resistentes do Pantaneiro podem ser cruciais diante do aquecimento global. Ao contribuir para o aprimoramento genético de outras espécies bovinas e para a segurança alimentar de uma população crescente.
Eles acreditam que o reconhecimento de raças ameaçadas e sua transformação em produtos de valor agregado, como o queijo, pode ser replicado com outras espécies, como o caracu, encontrado no sul do Brasil.
O risco está nos cruzamentos descontrolados com outras raças, que diluem as características do Pantaneiro. Para preservar a pureza genética da raça, esses cruzamentos precisam ser evitados.
Por que o queijo preserva o leite sem eletricidade
O queijo Nicola funciona como uma solução de armazenamento porque concentra o leite em uma forma muito mais compacta e estável. Quando 10 litros de leite são transformados em um quilo de queijo, a água é removida e o produto final fica muito mais resistente à degradação.
Isso é especialmente importante no Pantanal, onde a eletricidade chegou apenas nas últimas décadas.
O aquecimento do leite a 70ºC e a fermentação em saco aberto por pelo menos uma semana criam as condições para que o queijo desenvolva uma estrutura firme. A estrutura e a redução da umidade permitem que o alimento dure até 30 dias sem refrigeração, transformando um produto perecível em alimento durável e transportável para fazendeiros remotos.
Como a comercialização do queijo muda a economia local
Se o queijo Nicola se tornar um produto procurado no mercado, os fazendeiros terão uma razão econômica concreta para manter e ampliar seus rebanhos Pantaneiros. Atualmente, criar essa raça não compensa financeiramente em comparação com outras opções: ela produz menos carne e leva mais tempo para ficar pronta para o abate.
Se houver demanda por um produto de valor agregado, como um queijo premium, o leite poderá se transformar em fonte de receita.
Esse modelo também reduz a pressão ambiental, e quando mudam para o Nelore, os fazendeiros precisam introduzir gramíneas africanas agressivas para alimentar os animais. Já o Pantaneiro se alimenta naturalmente da vegetação local dos pântanos, preservando o ecossistema em vez de transformá-lo.
Quando o modelo de preservação por queijo pode falhar
O maior risco está em cruzar descontroladamente Pantaneiros com outras raças bovinas em busca de aumentar a produção de leite ou carne. Depois de apenas quatro a cinco gerações de cruzamento, as características genéticas únicas do Pantaneiro praticamente desaparecem.
Isso significaria que mesmo com mais animais vivos, a raça teria perdido aquilo que a torna valiosa: seus genes adaptados ao ambiente hostil.
O projeto também pode fracassar se a demanda pelo queijo Nicola não crescer o suficiente. Nesse caso, os fazendeiros continuarão optando por criar Nelore e outras raças mais lucrativas no curto prazo.













