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Vacas do Pantanal conseguem se reproduzir em áreas alagadas, e queijo feito com o leite ajuda a salvar a raça

Por Laura Silveira
30/10/2026
Vacas pantanal conseguem reproduzir áreas

Foto: beijia MAO/Pexels

A raça de gado Pantaneiro, também conhecida como tucura ou cuiabano, vive sob forte ameaça de extinção. Atualmente, existem apenas 500 exemplares no mundo. Justamente por isso, pesquisadores e criadores encontraram uma estratégia de preservação.

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A ideia é transformar o leite dessas vacas em um queijo tradicional chamado Nicola, capaz de atrair consumidores e gerar demanda para manter o rebanho.

O Pantaneiro é o único gado bovino que se reproduz naturalmente em terrenos alagados, característica que o torna cientificamente valioso. Trazida ao Pantanal por colonizadores espanhóis e portugueses, a raça desenvolveu, ao longo de 500 anos, adaptações únicas ao ambiente da maior região úmida tropical do mundo.

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Genes adaptados ao Pantanal

Ao longo de cinco séculos, os Pantaneiros desenvolveram características que nenhuma outra raça bovina possui. Têm tolerância a períodos prolongados de escassez de alimento, imunidade contra doenças e parasitas específicos da região e capacidade de sobreviver tanto às estações chuvosas, quando as planícies ficam submersas, quanto aos verões que atingem 40ºC.

O professor Marcus Vinicius Morais de Oliveira, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, lidera o Nubopan, centro dedicado à proteção e preservação da raça. Desde 1984, a Embrapa Pantanal mantém um centro de conservação na fazenda Nhumirim, no coração do Pantanal, e trabalha no reconhecimento oficial da raça.

Segundo Oliveira, essas vacas representam uma linhagem europeia completamente adaptada ao bioma e são o único gado que prospera sem intervenção ambiental.

Do leite ao queijo que preserva a raça

Desde 2013, o geneticista Sergio Dani coordena o Bioma Cheese Project, que reúne pesquisadores, universidades brasileiras e associações de criadores locais. O objetivo é simples: promover e comercializar o Nicola de forma que aumente a demanda pelo produto e dê viabilidade econômica aos criadores para manter os rebanhos.

O nome Nicola faz referência ao distrito de Nhecolândia e às áreas de Urucum e Jacadigo, berço da tradição queijeira da região. O criador Marcus Ruiz, que possui um rebanho de 50 vacas na região sul do Pantanal, próxima à fronteira com o Paraguai, produz o Nicola com um método artesanal usado há séculos. 

Retira o leite das vacas, forma a coalhada, aquece a 70º C e deixa a massa em pano por uma semana sem refrigeração.

O resultado é um queijo duro na casca e macio no interior, com textura semelhante à muçarela. A capacidade de se conservar por 30 dias sem geladeira foi fundamental para que se tornasse alimento essencial no Pantanal, que só ganhou acesso à eletricidade nas últimas décadas.

De 10 litros de leite, a produção rende apenas um quilo de queijo, característica que torna o produto de alto valor agregado.

Sabor único e preservação da biodiversidade

O sabor distintivo e intenso do Nicola vem das plantas silvestres consumidas pelas vacas durante o pastoreio nas áreas alagadiças. Na culinária local, o queijo aparece em pratos tradicionais como chipá (pão de queijo), sopa Paraguaia (pão de milho) e chipa guasu (bolo de milho).

Ruiz frequentemente o serve em fatias espessas no café da manhã, acompanhado de café bem coado.

O uso de outras raças bovinas, como a Nelore, trouxe consequências ambientais significativas. Maiores e prontas para o abate em metade do tempo, as vacas Nelore se tornaram a preferência dos fazendeiros brasileiros. Como essas vacas não conseguem sobreviver apenas com a vegetação selvagem local, fazendeiros introduziram gramíneas agressivas do continente africano que competem com as plantas nativas.

Com o Pantaneiro, nenhuma mudança ambiental é necessária — a raça já está perfeitamente adaptada ao ecossistema natural.

Desafios e perspectivas futuras

O queijo Nicola, feito com leite não pasteurizado, precisa atender a rigorosos padrões sanitários sem perder seu diferencial como produto artesanal de nicho do Pantanal.

Em 2010, o Pantaneiro foi declarado patrimônio cultural e genético de Mato Grosso do Sul — um passo parcial rumo ao reconhecimento completo. O projeto busca também obter certificação de origem que vincule o produto à região do Pantanal, algo que exigirá investimentos em equipamentos de produção e aprimoramento das práticas de higiene.

Pesquisadores como Oliveira e Dani acreditam que os genes do Pantaneiro poderão ser úteis diante do aquecimento global, ajudando a aprimorar a genética de outras espécies bovinas e garantir segurança alimentar para a população crescente. O reconhecimento oficial da raça pelo governo federal facilitará esses avanços e motivará criadores a intensificar esforços de preservação.

Dani acredita que o processo de reconhecer e encontrar uso econômico para raças ameaçadas e raras pode ser replicado em outras espécies, como o caracu encontrado no sul do Brasil.

Quando o Nicola não funciona como preservação

Embora o queijo seja a solução encontrada para manter economicamente viável a criação do Pantaneiro, ele funciona apenas se houver demanda real de mercado. O projeto enfrenta um desafio crítico: muitos consumidores desconhecem a origem pantaneira do Nicola ou nem sabem que o produto existe.

Sem conhecimento público, sem canais de distribuição adequados e sem que criadores consigam vender sua produção, o queijo sozinho não garante a viabilidade econômica. Além disso, o Nicola precisa atender a rigorosos padrões sanitários para ser comercializado em larga escala, o que conflita com seu diferencial como produto artesanal.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Laura Silveira

Laura Silveira

Jornalista desde 2022, com experiência como redatora, editora-chefe e revisora em veículos especializados em esportes e Cultura Pop

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