Fungicidas aplicados nas plantações de amoreira reduzem drasticamente a produção de casulos do bicho-da-seda. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista investigaram como a piraclosrobina, um fungicida estrobilurina amplamente usado na agricultura, prejudica o metabolismo energético desses insetos domesticados e compromete o rendimento da sericicultura.
Assim como as abelhas melíferas, o bicho-da-seda — larva da traça-do-bicho-da-seda, Bombyx mori — também sofre envenenamento por pesticidas usados intensivamente na agricultura. A descoberta é relevante porque doenças, desnutrição e manejo inadequado já prejudicam esses insetos, mas os agricultores brasileiros registravam queda na produção mesmo sem esses fatores.
O fenômeno agora ganha explicação concreta, e a maioria das fazendas brasileiras de seda fica no norte do Paraná, com produtores também em São Paulo e Mato Grosso do Sul. São pequenos empreendimentos isolados, cercados por vastas plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, onde pesticidas são usados intensivamente.
Como funciona a produção de seda
O processo começa em instalações têxteis centralizadas, onde as traças acasalam e depositam ovos. Após eclodirem, as larvas são transferidas para os criadores que alimentam os bichos exclusivamente com folhas de amoreira durante aproximadamente 20 dias. Pequenos produtores rurais mantêm os plantéis nessa fase crítica, quando as larvas se desenvolvem até o terceiro estágio.
Quando atingem a maturidade, as larvas param de se alimentar e passam três dias tecendo os casulos. Nesse período, secretam uma substância gelatinosa que se solidifica em contato com o ar e forma um filamento contínuo de seda.
Cada casulo é feito de um único fio de seda bruta, que pode alcançar 1,5 quilômetro de comprimento, e essa característica contribui para o valor da seda.

Impacto do fungicida na produção
Um estudo publicado no Journal of Economic Entomology demonstrou que a aplicação da piraclosrobina em plantas de amoreira triplicou a mortalidade das larvas e reduziu significativamente o tamanho dos casulos produzidos pelos sobreviventes.
Financiado pela FAPESP, o trabalho foi conduzido por Daniel Nicodemo e Fábio Ermínio Mingatto, professores da Escola de Ciências Agrárias e Tecnológicas da Universidade Estadual Paulista (FCAT-UNESP), em Dracena, com estudantes. O grupo investigou como o fungicida afeta o metabolismo energético das mitocôndrias dos bichos-da-seda.
Após três dias dentro do casulo, a larva passa pela última muda e se transforma em crisálida, e o casulo a protege durante a metamorfose.
Nesse ponto, os sericultores recolhem os casulos e os entregam ao fabricante têxtil. O fabricante mata a crisálida por imersão em água fervente para evitar danos irreparáveis ao fio de seda quando a traça emergir como inseto adulto. Durante a fervura, a sericina, substância pegajosa que une os fios, amolece e se dissolve.
O fio é então cuidadosamente desenrolado e vários filamentos são enrolados em um carretel para formar fio de seda bruto uniforme.
Contexto dos pequenos produtores
A sericicultura brasileira se sustenta em pequenos produtores rurais que cultivam amoreira para alimentar os insetos. Os ciclos produtivos exigem que as folhas sejam colhidas 90 dias após a poda, embora seu valor nutricional atinja o pico aos 60 dias. Por isso, o uso de fungicidas é sugerido para manter a qualidade das folhas até o fim do período.
Esses criadores enfrentam dificuldades para obter o material inicial e garantir colheitas adequadas. Agora, precisam considerar como o uso de fungicidas nas plantações interfere diretamente no lucro dos produtores.
Defensivos agrícolas também afetam, sem intenção, organismos economicamente benéficos que não eram o alvo original. A pesquisa constatou que a piraclosrobina atua como inibidor da cadeia respiratória e afeta o metabolismo energético das mitocôndrias das larvas. O mesmo efeito do fungicida ocorre nos bichos-da-seda, e enquanto a morte global de abelhas comerciais recebe mais atenção pela repercussão econômica.
Insetos domesticados como o bicho-da-seda mostram como a cadeia agrícola está conectada e vulnerável ao mesmo tipo de estresse químico ambiental.
Quando o fungicida não mata as larvas mas ainda causa dano
Nem toda larva exposta à piraclosrobina morre, e a pesquisa mostrou que o fungicida triplicou a mortalidade, mas não matou todas as larvas. As sobreviventes, porém, tecem casulos significativamente menores. Um produtor pode não perceber o envenenamento à primeira vista, já que os bichos-da-seda continuam vivos, mas a produção cai porque cada casulo rende menos seda.
O problema pode parecer uma falha do sistema de criação, embora seja causado por um agente químico silencioso. O produtor só percebe a queda quando a quantidade de fio extraído por casulo diminui, sem compreender inicialmente que o fungicida chegou à plantação de amoreira levado pelo vento das fazendas vizinhas.













