As renas do Ártico mudam a aparência dos olhos conforme as estações. No verão, a camada reflexiva no fundo dos olhos brilha em tons de ouro iridescente e turquesa, como uma opala dourada, e no inverno, a mesma estrutura fica azul-escura.
Pesquisadores de universidades do Ártico investigaram como e por que essa mudança ocorre. Glen Jeffery, neurocientista da University College London, liderou um estudo recente sobre o fenômeno. Richard Fosbury, astrofísico, estudou as condições ópticas do crepúsculo ártico.
Os pesquisadores descobriram um mecanismo biológico que permite às renas adaptar-se às condições extremas do Ártico durante meses de escuridão contínua, quando precisam encontrar alimento e fugir de predadores.
A escuridão permanente do inverno ártico
Nas regiões mais ao norte, como Tromsø, na Noruega, e Utqiagvik, no Alasca, o sol fica abaixo do horizonte por mais de 60 dias no inverno. As renas enfrentam entre 12 e 24 horas de crepúsculo profundo diariamente. Nicholas Tyler, pesquisador do Centre for Sami Studies da Arctic University of Norway.
Disse à National Geographic que, ao contrário de regiões como Yukon ou o norte de Manitoba, não há ciclo de dia e noite: é uma condição única. Esse crepúsculo é cerca de 100 mil vezes mais fraco que a luz do verão.
A luz também muda de composição. Quando o sol fica abaixo do horizonte, seus raios atravessam uma camada excepcionalmente espessa de ozônio na atmosfera, que absorve quase toda a luz laranja e vermelha, deixando apenas a luz azul voltar à Terra.
Fosbury explicou que é como se um filtro arco-íris cruzasse o céu, filtrando a luz laranja e deixando apenas o azul. O resultado é uma paisagem mergulhada em tons de ultramarino.
Como o tapetum lucidum funciona
O tapetum lucidum é uma camada especular localizada atrás da retina, o tecido responsável por captar luz. Em ambientes com pouca luz, cada fóton conta: quando um fóton entra no olho, mas não atinge os fotorreceptores da retina. O tapetum o reflete de volta, dando à retina uma segunda chance de absorvê-lo.
Segundo Braidee Foote, oftalmologista veterinária da University of Tennessee, Knoxville, esse mecanismo pode mais do que dobrar a luz que chega aos fotorreceptores em alguns animais noturnos como gatos. As cores do tapetum variam entre espécies, frequentemente ouro ou verde, mas nenhuma demonstra a mudança sazonal dramática observada nas renas.
A mudança de cor e a absorção de luz ultravioleta
A transformação do tapetum de ouro para azul no inverno provavelmente maximiza a absorção de luz nos espectros azul e ultravioleta durante o crepúsculo polar. As renas enxergam além da faixa visual humana.
Os humanos percebem luz de comprimentos de onda de cerca de 400 nanômetros (azul) até 700 nanômetros (vermelho); as renas também enxergam no ultravioleta, cuja exposição causa cegueira de neve em humanos.
Isso permite que detectem certos objetos e predadores que absorvem radiação ultravioleta — como os pelos de lobos e ursos polares, que absorvem em vez de refletir essa luz, criando alto contraste contra a neve e tornando-se visíveis às renas quando invisíveis ao olho humano.
Durante o verão, quando o crepúsculo do Ártico é tingido de ouro e azul-esverdeado, o tapetum dourado reflete eficientemente essa mistura de cores. No inverno, conforme o crepúsculo se torna predominantemente azul e a rena depende mais da visão ultravioleta para navegar na escuridão, o tapetum ajusta sua cor para otimizar essa capacidade.
Líquens — alimento básico das renas no inverno — absorvem luz ultravioleta, o que faz com que apareçam escuros contra a neve branca que reflete ultravioleta, ajudando os animais a localizá-los durante o crepúsculo e a escuridão polar.













