No centro do Quênia, uma estratégia que combina criação de peixes, armazenamento de água da chuva e produção agrícola transformou a rotina de Elijah Murithi.
Em 2021, o agricultor instalou um tanque com mais de 1.500 tilápias em sua propriedade e passou a utilizar a água armazenada para irrigar os cafezais durante os períodos de estiagem.
Por décadas, Murithi cultivou café e bananas em sua propriedade, mas enfrentava dificuldades provocadas pelas oscilações climáticas.
As secas prolongadas comprometiam as plantações, enquanto períodos de chuva intensa geravam produção excedente, obrigando o agricultor a vender parte da colheita por preços menores.
A solução encontrada foi construir um tanque de 10 metros por 25 metros, localizado acima da área de cultivo.
Durante as chuvas, a estrutura recebe e armazena água. Quando a estiagem chega, o recurso é utilizado para manter as plantas irrigadas.
O sistema apresentou resultados superiores aos esperados e passou a garantir água, alimento e uma nova fonte de renda para a propriedade.
De duas colheitas para lucro estável
Desde que começou a criar peixes, em abril de 2021, Murithi mais do que dobrou a colheita de café, para 2.000 kg por ano.
Segundo relato dele à Reuters, a renda total triplicou, e agora, cultiva café e vegetais o ano inteiro e também ganha dinheiro com a venda de peixe.
A água drenada regularmente do tanque permite manter a produção durante longos períodos secos.
Em Kibingo, onde fica sua propriedade de 1,25 hectare, a cerca de 130 quilômetros a nordeste de Nairóbi, o sistema se mostrou viável onde os métodos tradicionais falhavam.
Governo investe em tanques de piscicultura
O sucesso de Murithi reflete uma estratégia mais ampla do governo do condado de Kirinyaga.
Desde 2019, o governo local apoia a construção de tanques de piscicultura por meio de um programa de estímulo econômico.
O departamento de pesca informou que já apoiou cerca de 20 grupos de agricultores e mais de 1.350 indivíduos.
O condado cobre o custo da manta do tanque e, no primeiro ano, financia os alevinos e ração suficiente até que os peixes atinjam tamanho comercial.
O governo anunciou em outubro uma meta de aumentar a produção anual de peixe de 29 toneladas, com valor de 12,8 milhões de xelins quenianos, para 62 toneladas.
Resistência inicial dá lugar à adoção
No início, muitos agricultores desconfiavam da ideia de criar peixes em uma região frequentemente seca.
Harrison Mwangi, presidente do grupo de agricultores Kamwaka Self Help, que tem 26 membros, disse que a prática parecia estranha para a comunidade. Os agricultores imaginavam que criar galinhas renderia melhores resultados.
Após o governo local oferecer treinamento sobre técnicas de piscicultura e auxiliar com custos iniciais, a atitude mudou.
No início de 2021, o grupo decidiu converter um campo de capim-elefante, que produzia cada vez menos, especialmente na seca, em um tanque de peixe.
Ainda naquele ano, venderam 17.000 xelins quenianos em peixe para visitantes e nos mercados locais, um resultado que Mwangi descreveu como “bastante encorajador” para uma primeira colheita.
Água, alimento e renda em um só sistema
Enquanto o Quênia enfrenta oscilações climáticas cada vez mais severas, incluindo a atual seca, a pior em quatro décadas.
Agricultores descobrem que adicionar peixes às propriedades resolve três problemas: amplia o armazenamento de água para irrigação, diversifica a alimentação das famílias e gera receita adicional.
Para uma região onde secas e chuvas extremas comprometem colheitas tradicionais, a piscicultura emerge como estratégia viável de adaptação climática.













