Portugal está prestes a receber uma das maiores iniciativas da Europa voltadas à recuperação de elefantes que passaram grande parte da vida em condições de confinamento.
Um santuário instalado no Alentejo, a cerca de 200 quilômetros a leste de Lisboa e próximo à fronteira com a Espanha, deve começar a receber os primeiros animais ainda em 2026.
A primeira residente será Julie, considerada a última elefanta de circo de Portugal. A transferência será realizada pela organização Pangea, responsável pelo desenvolvimento do projeto em uma antiga propriedade rural.
Julie terá a companhia de Kariba, uma elefanta africana de 40 anos que passou anos vivendo sozinha em um zoológico na Bélgica.
Um espaço onde gigantes inteligentes podem viver naturalmente
O santuário ocupará inicialmente 28 hectares, embora a fazenda tenha 405 hectares no total e capacidade de abrigar entre 20 a 30 elefantes conforme novos residentes chegarem.
O projeto foi concebido sem acesso público, priorizando o bem-estar animal acima de qualquer interesse comercial.
Os dois animais terão acesso a uma área ampla, onde poderão caminhar livremente, tomar banho e interagir com grupos compatíveis.
Kate Moore, diretora executiva da Pangea, disse ao The Guardian que a autonomia é fundamental para o bem-estar deles, e os animais continuarão recebendo cuidados veterinários especializados.
Na natureza, os elefantes africanos caminham dezenas de quilômetros diariamente, mas em cativeiro enfrentam confinamento severo e redução drástica de movimento.
O santuário oferecerá um espaço proporcionalmente maior que o de qualquer zoológico europeu.
A região foi habitada por elefantes de presas retas há 40 mil anos. Os novos residentes ajudarão a recuperar o ecossistema degradado em um experimento de restauração ecológica baseado em princípios de repovoamento natural.
Décadas de confinamento deixam marcas profundas na saúde
Atualmente, 600 elefantes vivem confinados em circos e zoológicos espalhados pela Europa.
Desse total, 36 vivem em zoológicos em solidão extrema, enquanto cerca de 40 ainda são forçados a executar truques em circos.
Julie foi capturada na infância, depois que sua mãe foi morta por caçadores. Nos anos anteriores à transferência, ela já não se apresentava em espetáculos.
Pesquisas científicas documentam as consequências devastadoras do cativeiro: fêmeas africanas vivem em média 17 anos em zoológicos, comparadas a 56 anos na selva quando mortes causadas pelo homem são excluídas.
Filhotes de elefantes asiáticos nascidos em cativeiro têm mortalidade de 30% no primeiro ano de vida, muito acima dos 10 a 15% registrados na vida selvagem.
Além disso, elefantes cativos sofrem com manadas reduzidas, doenças e claudicação, uma inflamação que compromete os cascos e as patas.
Legislação ganha solução prática após anos sem alternativa
A maioria dos países da União Europeia proibiu animais selvagens em circos, mas a Alemanha mantém apenas restrições regionais, sem proibição nacional.
O grande obstáculo era que muitos circos e zoológicos relutavam em se desfazer de elefantes porque não havia para onde levá-los e governos não conseguiam confiscar animais se nenhum santuário existisse para recebê-los.
Portugal implementou sua própria proibição em 2025, e Julie foi a última elefanta transferida por meio de um acordo voluntário.
Vítor Hugo Cardinali, diretor do circo Cardinali, que manteve a elefanta desde 1988, disse ao The Guardian que a decisão não foi fácil.
Julie foi um membro muito amado da família durante décadas, mas ele acreditava que a transferência era a escolha certa para o bem-estar dela.
Anne, a última elefanta circense britânica, foi realocada para um parque de safári em 2011 e está na casa dos 70 anos, ainda sozinha.
Em 2022, o zoológico de Paignton decidiu deixar de manter elefantes, ao reconhecer que não conseguia atender às necessidades complexas dos animais.
Novo destino para elefantes sem espaço adequado
À medida que circos e zoológicos europeus deixam de manter elefantes por mudanças na legislação, limitações estruturais ou dificuldades para oferecer condições adequadas, aumenta a necessidade de espaços especializados.
O santuário do Alentejo surge justamente para preencher essa falha.
Em vez de manter os animais em recintos destinados à exposição pública, a proposta é oferecer uma área ampla, acompanhamento especializado e condições para que eles recuperem parte da autonomia perdida durante anos de confinamento.
Com capacidade projetada para até 30 elefantes, o espaço poderá se tornar uma alternativa para animais que, depois de décadas em circos ou zoológicos, já não encontram lugar em estruturas convencionais.













